Longe de um olhar de exclusão, a Igreja nos convida, perante a segunda união matrimonial, a compreender que, embora a indissolubilidade seja o ideal cristão, a misericórdia de Deus jamais abandona Seus filhos. Por meio do acolhimento e da comunhão espiritual, reafirma-se que o ser humano é a maior obra-prima do Criador, e que a fé é trilhada por um amor que cura, restaura e integra a todos no coração da comunidade

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Jesus respondeu a alguns fariseus que tentaram colocá-Lo à prova, dizendo: “Moisés vos permitiu divorciar por causa da dureza de vosso coração; mas no começo não era assim” (Mt 19,8). Isso quer dizer que o ideal matrimonial não podia e não pode jamais ser modificado. O divórcio não faz parte do plano de Deus. Porém, Moisés foi capaz de tolerar as limitações das pessoas de seu tempo, aceitando que uma situação presente na vida do povo ganhasse uma formalização jurídica. De fato, existe muita diferença entre a intransigência de minimizar, relativizar ou banalizar um valor perene e a delicadeza de compreender uma situação não desejada, mas real.
Assim, “a Igreja, com efeito, instituída para conduzir à salvação todos os homens e, sobretudo, os batizados, não pode abandonar aqueles que — unidos já pelo vínculo matrimonial sacramental — procuraram passar a novas núpcias. Por isso, esforçar-se-á infatigavelmente por oferecer-lhes os meios de salvação (…). Juntamente com o Sínodo, exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com caridade solícita que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, como batizados, participar na sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a frequentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança” (SÃO JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Familiaris Consortio, FC 84). Deus não deseja que os homens joguem fora o projeto maravilhoso e sábio de sua Criação, mas também não quer que se jogue fora o ser humano, obra-prima de suas mãos, a pretexto de que ele não é como deveria ser.
A Comunhão Eucarística e seus modos de participação. Quanto aos possíveis limites da participação na vida da Igreja, como o da recepção da Comunhão Eucarística, isso não significa rejeição de algum fiel na Comunhão Eclesiástica nem da misericórdia divina. Basta recordar o que já ensinava o Concílio de Trento: “Quanto ao uso, pois, os nossos pais distinguiram justamente três modos de receber este santo sacramento. Ensinaram, de fato, que alguns o recebem só sacramentalmente, como os pecadores; outros só espiritualmente, e são aqueles que comem aquele pão celeste só com um ato de desejo, pela fé viva, que opera por meio da caridade (Gl 5,6), dele tiram fruto e vantagem; os terceiros o recebem sacramentalmente e também espiritualmente, e são aqueles que antes se examinam e se preparam de modo a aproximar-se revestidos do traje nupcial a esta mesa divina (Mt 22,11-14)” (CONCÍLIO DE TRENTO, Sessão XIII, Decreto sobre a Eucaristia, Cap. VIII, Do uso deste admirável sacramento, in Conciliorum Oecumenicorum Decreta, EDB, p. 696-697, tradução livre).
É o convite para que qualquer um que não possa receber por algum motivo a comunhão sacramental, assim mesmo, não deixe de receber a comunhão espiritual. Isso é precioso porque o efeito da comunhão sacramental é exatamente a comunhão espiritual. E a Igreja ensina que não basta comungar da Hóstia Consagrada se o coração da pessoa não estiver em Deus, tal como dizia São Paulo: “Por isso, quem comer do pão e beber do cálice do Senhor indignamente torna-se culpado em relação ao corpo e sangue do Senhor” (1Cor 11,27). Nesse sentido, tanto quanto a permissão para comungar não configura um prêmio para os bons, assim também a decisão da Igreja sobre não conceder a comunhão para alguém em determinada situação não constitui um castigo para os maus.
O testemunho dos casais em segunda união na vida da Igreja. As lições maiores que se podem tirar a respeito das pessoas em segunda união, que vivem na Igreja sem receber a Comunhão Eucarística, estão no fato de que amam a Igreja apesar das limitações. Sofrem com suas opções de continuarem na Igreja e de obedecerem a determinações que lhes custam, que elas podem até não compreender, mas que são capazes de aceitar por uma razão maior: o desejo da comunhão eclesiástica. Já a atitude de quem pensa ser mais fiel porque não tem nenhuma proibição de comungar pode ser apenas o sinal de sua prepotência e pretensão de ser melhor do que os outros.
Na parábola do fariseu e o publicano, Jesus diz que o fariseu louvava a Deus por não ser pecador e o publicano pedia a piedade de Deus por ser um pecador. Ele diz que o publicano voltou para a casa justificado e o fariseu não (cf. Lc 18,9-14). Nesse sentido, será que é preferível na vida da Igreja comungar diante de todos só para parecer que estamos em dia com nossos compromissos ou deixar de comungar para reconhecer que somos todos pecadores e nos confiarmos à misericórdia de Deus? Preferimos estar em comunhão de fato com Cristo ou basta a aparência?
Os casais em segunda união que vivem na fidelidade e obediência à Igreja, apesar da tristeza que isso possa lhes causar, cooperam para que os que comungam se questionem sobre que dignidade conferem ao que recebem na celebração eucarística. Depois, o amor de sofrimento que demonstram quando adoram o Santíssimo Sacramento e o desejam profundamente, até às lágrimas, faz com que eles unam o desejo de comungar com o sacrifício de não o fazerem por obediência – como a obediência de Cristo, que se fez obediente até a morte e morte de cruz (cf. Fl 2,5-11). Eles não estão sozinhos! Eles têm um ao outro e, por sofrerem também isso juntos, podem unir-se à Cruz de Cristo, que salvou a todos nós.
Quem comunga não deveria pensar que tem algum mérito nisso. Tem a graça de conhecer a misericórdia pelo sacramento. Quem não pode fazê-lo, deve experimentar a misericórdia na privação do sacramento, não da graça. Os casais em segunda união, por venerarem o Corpo de Cristo sem o receber, convidam os que comungam a venerarem o Corpo de Cristo que recebem. Na verdade, eles parecem assumir existencialmente aquilo que todos nós dizemos na missa antes de comungarmos, que aprendemos com um centurião romano — um pagão que foi elogiado por Jesus como alguém que tinha mais fé do que todos os membros do povo de Israel —, e que deveríamos também assumir existencialmente: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e serei salvo” (Mt 8,5-10).


