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O artífice do belo e a eterna Beleza

Cláudio Pastro, o grande artista sacro brasileiro, morreu há 10 anos, em 19 de outubro de 2016. Sua obra representa a grande síntese entre a Tradição cristã dos primeiros séculos, resgatada pelo Concílio Vaticano II, e a arte moderna latino-americana, testemunho da forma como os homens e mulheres de nosso tempo encontraram o “Deus da beleza”. Em seu túmulo, no Mosteiro Nossa Senhora da Paz, está escrito: “O artífice do belo foi encontrar-se com a eterna Beleza”. O texto a seguir foi escrito por ele para o livro Arte sacra.

O artífice do belo e a eterna Beleza - Jornal O São Paulo
Cláudio Pastro, Pantocrator, Abadia de Santa Maria (2012)
Roberto Parizzi

É impossível separar a Beleza do Sagrado; e impossível separar a Beleza do Mistério.

A Beleza denuncia que a vida está inserida “em outra coisa”, que o imediato é sempre um sinal visível de uma presença invisível e vai muito além de nossas capacidades humanas de compreensão, além do horizontalismo a que o pragmatismo da nossa civilização se submeteu.

Nenhuma religião e cultura desenvolveu tanto a arte nesses 2.000 anos como o Cristianismo. Mesmo quando a arte deste último século (tanto na poesia e música quanto na plástica) quis seguir o seu próprio curso, ela nunca poderia esquecer que é fruto de um refinamento e liberdade oriundos das celebrações e da doutrina cristã.

Muito além da mera realidade, esta arte sempre apontou o gosto pela vida e teve seriedade ao afrontá-la.

A arte é a única linguagem universal do homem. Nela não há fronteiras nem espaço nem limite de tempo, língua ou cultura. É, naturalmente, a linguagem religiosa do homem.

A arte fala do Ser do homem.

Os cristãos sempre valorizaram asartes e os artistas. Foi em seus mosteiros que as artes e as ciências sedesenvolveram.

Na história da cultura cristã, a arte enalteceu o trabalho cotidiano muito além das meras expectativas de produção.

Sempre que os interesses individuais dividiram os povos, a arte cristã ultrapassou fronteiras refletindo a unidade de seu Deus e constituindo, assim, o Ser desses mesmos povos.

Como exemplo, temos a arte bi-zantina na formação do oriente cristão, a arte românica na formação europeia e o barroco na formação do ser latino-americano.

A Iconografia cristã. A questão da “imagem” é fundamental na ética cris-tã e a estética não é um simples capricho do belo pelo belo. 

Em uma obra ou em um edifício cristão existe todo um universo muito eloquente. O altar, as torres, as cúpulas, os vitrais, as pinturas não estão aí por acaso e ao acaso.

Forma e conteúdo se complementam. Para os Padres da Igreja, assim como para os últimos documentos conciliares, Jesus é a “imagem visível do Deus invisível”, o “homem perfeito no qual Deus se revela”.

O evangelho segundo São João, o evangelho da Beleza, mostra-nos o Novo Adão no qual Espírito e Gesto formam uma só vontade do Pai – “Quem me vê, vê o Pai”. O que Jesus diz belo, Ele faz belo.

Assim como o Criador ama a sua Beleza

criatura e toma a imagem humana, definitivamente, se encarnando em Jesus, assim os cristãos estão cônscios de que uma obra de arte é uma imagem gratuita e lugar de contínua revelação sacramental, pobre matéria escolhida pelo Mistério[…]

A grande função da arte no Cristianismo, mais do que ser simplesmente um meio didático, foi, é e há de ser “porta e ponte” para o Mistério no qual se passa do belo contemplado ao belo vivido.

O céu na terra. O mistério pascal é celebrado há 2.000 anos, diariamente, pelos cristãos. É uma tradição litúrgica. É o rito realizando gestos passados e futuros. 

Tradição vem de tradere e significa “entregar”. O que é a liturgia eucarística senão a “entrega” que Deus faz de si mesmo, de sua vida, e isso de geração em geração?

O lugar da celebração cristã é o lugar da antecipação da vida eterna, é o lugar do Perdão, é o lugar da Beleza. Aí o cristão recebe a vida, aprende a transfigurar o mundo, a amá-lo e a não violentá-lo. Aí o cristão renasce embora sendo “velho”.

O espaço sagrado não é qualquer espaço. É o céu na terra[…]

A arte sacra nasce da celebração objetiva do mistério da Igreja. A arte sacra não é só experiência subjetiva como se o artista fosse um super-homem. O homem cristão sabe-se parte de um único e belo Corpo Místico, o Corpo de Cristo.

O artista cristão é um entre tantos ministros na sagrada liturgia e está a serviço da Igreja. A arte nasce, assim, de um gesto de celebração.

A arte é síntese de um tempo, de um movimento, de uma profecia e chama-nos, orienta-nos para os valores do Espírito.

Aí está a sabedoria da cultura cristã: apontar com uma obra de arte (parte da Palavra feita Carne) novos rumos para a própria fé cristã, às vezes adormecida em seu próprio tempo.

O artífice do belo e a eterna Beleza - Jornal O São Paulo

Trechos de PASTRO, Cláudio. Arte sacra. São Paulo: Edições Loyola, 1986.

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