O coração desarmado ama e, a partir do seu gesto de amor, desarma; mesmo que demore um pouco de tempo e exija sacrifícios, pois o coração pacificado gera, pouco a pouco, um fascínio que é contagiante, e vai, devagarinho, desarmando outros.

A tradição monástica nos diz que o amor que pacifica nasce da reconciliação com o nosso próprio ser, é resultado de um processo de unificação do nosso eu. A cultura moderna, o consumismo, a tecnologia, a educação, a busca pela produtividade e resultado em cada gesto e ato geram uma enorme fragmentação no nosso ser. O eu fragmentado é violento, insatisfeito, cheio de medo e desconjuntado; em última instância, é um eu absurdo e sem sentido. A fragmentação do eu, porém, não é conforme a natureza humana, mas uma aberração desenvolvida pela cultura moderna. A esta cultura, os monges dizem com mansidão e humildade: “Esse não é o caminho da felicidade”.
De fato, a fragmentação do eu leva à violência contra si e contra os outros, e nos obriga a nos armarmos e a nos defendermos o tempo todo. Enquanto os monges nos dizem delicadamente: “Não é por aí” …
Não se trata de uma descoberta. É algo simples, que está dentro de nós, que diz respeito à nossa natureza humana tal como foi feita: a experiência de um coração que ama. Este coração que ama vive a paz e gera a paz. Santo Agostinho (354-430 d.C.) diz que a paz é a tranquilidade que advém de uma realidade ordenada, é fruto da experiência cotidiana de que as coisas que vivemos estão ordenadas.
Atenção, contudo: a tranquilidade da vida ordenada não significa bem-estar. A busca desenfreada de bem-estar faz parte do caminho equivocado. A maior tranquilidade que se possa experimentar acontece no sofrimento vivido com um coração pacificado. Não há maior dignidade do que abraçar o sofrimento inevitável com amor. A ordem de que fala Santo Agostinho é a disposição justa das coisas, segundo a sua própria natureza e o seu próprio fim: “Faço isso como eu posso fazer, mas com toda a minha dedicação, o meu amor e respeito”. Existe paz quando cada pessoa ocupa o seu lugar e vive o que é chamada a viver, de acordo com uma ordem que a precede e a orienta. A violência é sempre desordem, é resultado de se estar fora de lugar. Nenhuma injustiça é ordem, mas violência à ordem preestabelecida por Deus.
Três atitudes fundamentais. Os monges se entregam no relacionamento com as pessoas, as coisas e os acontecimentos, buscando, antes de tudo, o bem, a beleza e a verdade que são os atributos de Deus e o modo como Deus age. E isso é amar. Quem vive buscando a beleza, a verdade e o bem, ama, é pacífico e ordenado dentro de si. A vida monástica é uma escola que ensina três atitudes para amar e, como consequência, viver e gerar paz em nosso coração e ao nosso redor:
a. A obediência que nasce da fé em Deus e vive na relação com Ele. Viver na presença de Deus na vida cotidiana, obediente ao caminho que Ele traça para nós, é uma promessa grandiosa. No mundo, porém, as pessoas podem viver como se Deus não existisse, mesmo que experimentem a angústia de uma vida sem sentido que termina no nada. Todavia, a dúvida sobre a existência de Deus não evita o anseio por algo além de nós mesmos ou da realidade visível, não é a última palavra dentro de nós, pois temos uma capacidade inata que nos permite abrirmo-nos a Deus, sempre que quisermos;
b. A estabilidade que se apoia na esperança. Existem duas situações desafiantes em nossa existência: o tédio e a crise. Em ambas, pode parecer que Deus não está presente, nem nos ame ou nos ajude. Quando tudo parece ter perdido o sentido, a única coisa possível é invocá-Lo e ter paciência. A perseverança permite nos darmos conta de que o sentido da vida não pode ser criado ou construído por nós, mas é um dom que recebemos. Esta é força da esperança e que se expressa na estabilidade: maravilhar-se de novo a cada dia e agradecer por cada dia;
c. A conversão ao amor. Esta é a meta do caminho. São Bento não propõe uma vida religiosa com vistas a construir uma obra específica para transformar o mundo, mas uma vida inteira vivida na relação cada vez mais contínua e amorosa com Cristo. Como diz no início da sua Regra: “Quem é aquele ou aquela que quer a vida e arde com o desejo de ver dias felizes? (Sl 33,13) […] Procura a paz e segue-a (Sl 33,14-15) […] Antes que Me invoqueis, direi: aqui estou” (cf. Prólogo). Trata-se, portanto, de um caminho para a felicidade, para uma vida plena e que dê certo. Por isso, é uma proposta para todos, pois a questão da felicidade é uma das questões fundamentais da humanidade.


