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Para além do algoritmo

A verdadeira inovação é formar pessoas capazes de permanecer humanas. A Inteligência Artificial (IA) desenha mapas, mas só no coração habita o destino. Não nos iludamos: a tempestade é forte, mas noss a esperança é teologal. 

Para além do algoritmo - Jornal O São Paulo
Yan Krukau/Pexels

Entro na sala de aula e, antes mesmo do “bom dia”, vejo o brilho azulado das telas refletido nos rostos. É inegável: o mundo mudou e a sala de aula também. A presença da Inteligência Artificial (IA) já não distingue escolas católicas das instituições laicas, universidade pública de privadas, ensino básico do ensino médio. O impacto é transversal. Em salas comuns, laboratórios e bibliotecas digitais, a pergunta que nos assombra é a mesma: como educar pessoas em um mundo mediado por algoritmos? 

Ao ler a carta apostólica do Papa Leão XIV, Desenhar novos mapas de esperança, senti que suas reflexões dialogam com essa realidade. O documento oferece uma bússola para qualquer projeto educacional sério, lembrando que uma pessoa não é um “perfil de competências” e muito menos se reduz a um “algoritmo previsível” (DNME 4.1). 

Nas escolas contemporâneas, cresce a pressão por métricas. A IA apresenta-se como solução tentadora: corrige, organiza, otimiza. Tudo parece mais eficiente. Mas o Papa alerta: a educação não se mede apenas pelo “eixo da eficiência”, mas pela dignidade e pela justiça (DNME 4.2). 

O risco que corremos é cair em um “eficientismo sem alma” (DNME 9.1). A formação perde seu sentido quando se limita a treinar operadores de sistemas, ignorando que o ser humano é “um rosto, uma história, uma vocação” (DNME 4.1). Universidades sem reflexão ética formam profissionais capacitados, mas frágeis. 

Nesse cenário, o professor torna-se insubstituível. Não competimos com a IA em velocidade, mas em humanidade. As tecnologias “devem servir à pessoa, não a substituir” (DNME 9.1). Em minha prática, percebo a mudança: se a IA responde, o educador pergunta; se o algoritmo calcula, o educador contextualiza o erro como crescimento; se a tecnologia informa, o educador forma. Precisamos ensinar “o uso sábio das tecnologias” (DNME 10.3), harmonizando a inteligência técnica com a espiritual. 

O Papa Leão XIV toca na ferida ao elencar como prioridade a vida interior. Nossos jovens, exaustos de superficialidade, pedem profundidade. A sala de aula deve ser onde “as perguntas não são silenciadas e a dúvida não é banida, mas sim acompanhada” (DNME 3.1). 

O apelo para desarmar as palavras é vital. O documento recorda que a educação não avança com a polêmica, mas com a “mansidão que escuta”. Em tempos de polarização digital, a escola precisa ser um oásis de “paz desarmada”. Educar torna-se um ato de resistência: ensinamos a depor as armas do julgamento rápido para retomar a linguagem da misericórdia e construir pontes nas quais a sociedade ergueu muros (cf. DNME 10.3). 

A educação católica não é refúgio, mas “laboratório de discernimento”. Somos chamados a ser, portanto, “coreógrafos da esperança”, harmonizando a técnica com a caridade. Não tenhamos medo de desenhar estes novos mapas, pois a estrela polar do Evangelho nunca se apaga. Que nossas escolas sejam “constelações educativas” em que cada aluno, acolhido em sua unicidade, descubra que o verdadeiro conhecimento é aquele que se faz serviço ao próximo (cf. DNME 6.1; 8.1 e 11.1). Avancemos com a tecnologia como auxílio, priorizando as relações humanas e com os olhos fixos em Deus, pois a “esperança não decepciona” (Rm 5,5). 

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