Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Por dentro da cultura das bets no Brasil

As bets não podem ser entendidas apenas como fenômeno isolado, relegado ao plano individual. Inserem-se em uma realidade cultural, econômica e política – e como tal devem ser vistas e enfrentadas.

Por dentro da cultura das bets no Brasil - Jornal O São Paulo
Imagem gerada por Inteligência Artificial (Gemini)

As apostas não nasceram com as plataformas de apostas on-line, as bets. São tão antigas quanto a civilização: a China da dinastia Han financiava trechos da Grande Muralha com jogos de sorte, Roma distribuía prêmios em sorteios nas Saturnais, e a França do século XVI criou uma loteria real para cobrir despesas do Estado. No Brasil, o jogo do bicho foi febre nacional por mais de um século, dominando o mercado de apostas até bem entrado o século XX. Mas a ubiquidade dos celulares, a publicidade estrelada por atletas e influenciadores e o Pix, que elimina a distância entre o impulso e a aposta, combinaram-se para criar um fenômeno de massa em tempo recorde: entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões passaram por plataformas de apostas todo mês no início de 2025, e cerca de 24 milhões de brasileiros apostaram ao menos uma vez em 2024. A regulamentação atual não parece ter reduzido danos; apenas legalizou e ampliou o acesso, aumentando o risco de vício.

O apostador compulsivo. Apostar é comportamento de risco: com raríssimas exceções, o apostador perde mais do que ganha. Ainda assim, a crença de que o “quase” de hoje será o “finalmente” de amanhã ativa o sistema de recompensa cerebral – a dopamina reforça o comportamento justamente quando o resultado é incerto, mantendo o cérebro em alerta e a vontade de arriscar de novo, independentemente do desfecho.

Essa dinâmica é saudável quando move o atleta ou o profissional a superar limites, mas também pode levar à compulsão pela aposta e ao descontrole emocional. A experiência lúdica corresponde a uma necessidade vital, ninguém mantém a sanidade mental sem momentos de descontração. O problema não é o jogo em si, mas a entrega descontrolada, muitas vezes estimulada por um ambiente desenhado para isso.

O gatilho inicial costuma ser o tédio, a ansiedade ou o estresse. Disponibilidade constante, ausência de freios sociais, pagamento instantâneo e um design de produto (notificações, bônus, etc.), o incentivo de esportistas e influenciadores potencializam o impulso em momentos de vulnerabilidade. O apostador busca sobretudo a excitação e o escape emocional. Cria-se uma espiral que exige apostas cada vez maiores, em um intervalo de tempo cada vez mais curto. Por isso, desde 2013, a Associação Americana de Psiquiatria reclassificou o “transtorno do jogo” como dependência comportamental, ao lado do álcool e de outras drogas. Entre jogadores patológicos, observam-se taxas de ideação suicida, depressão e desestruturação familiar acima da população em geral.

A “epidemia das bets” não é só soma de fraquezas individuais: é também resultado de um ambiente econômico e publicitário desenhado, com sofisticação crescente, para monetizar a compulsão.

O bicho, o Estado e as bets. O jogo do bicho nasceu em 1892, quando o Barão de Drummond, para sustentar o Jardim Zoológico de Vila Isabel, criou um sorteio de 25 animais associados a dezenas numéricas. Sobreviveu como prática social, ilegal mas dominante, por mais de um século. Apostar significava participar de uma linguagem compartilhada, reforçar rotinas coletivas e fortalecer laços de vizinhança. Os pontos de apostas funcionavam como núcleos de sociabilidade e os bicheiros, muitas vezes, como lideranças locais mais confiáveis que o poder público.

Enquanto isso, o Estado criava seu próprio instrumento: em 1969, ainda na ditadura militar, nasceu a Loteria Esportiva (Loteca). A Constituição de 1988 deu à União a competência exclusiva sobre sistemas de sorteio, interpretada de forma ampla pelo STF — na prática, um monopólio estatal sobre o jogo legal, com tudo o mais enquadrado como contravenção. Aos poucos, os bicheiros migraram para bingos, caça-níqueis e, depois, cassinos ilegais e crime organizado, ainda que mantendo certa influência sobre o carnaval e a política local.

As loterias legais, mantidas pela Caixa econômica Federal, como Mega-Sena, Loteca e Loto, foram batendo recordes sucessivos. Em 2024 o conjunto arrecadou R$ 25,9 bilhões. O jogo do bicho, ilegal, ainda respondia por 14% do gasto dos brasileiros com jogos de azar, algo entre R$ 1,3 bilhão e R$ 2,8 bilhões por ano. A virada veio em 2018, com a lei que autorizou apostas esportivas on-line sem regulamentar sua operação – um vácuo que, somado a smartphone, Pix e publicidade em massa, consolidou a palavra “bet” no vocabulário nacional. O crescimento foi vertiginoso: o percentual de brasileiros que apostam em bets foi de 14% em 2023 a cerca de 30% em 2026. Só em valor apostado, as bets movimentam entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês – um único mês equivale a quase todo o faturamento anual das Loterias Caixa.

Em dezembro de 2023, a Lei 14.790 finalmente regulamentou o setor, exigindo licença, identificação do apostador e restrições publicitárias, com multas de até R$ 2 bilhões. As operadoras ficam com até 88% do faturamento bruto, e o governo projetava arrecadar R$ 12 bilhões por ano com o setor.

A engenharia do vício. A tecnologia não inventou a compulsão nem a manipulação – fenômenos tão antigos quanto o sistema de recompensa do cérebro humano. O que ela fez foi otimizar, com precisão científica, mecanismos aos quais já somos vulneráveis, transformando impulsos difusos em produtos calibrados para captura de atenção e dinheiro. O mesmo celular que permite comprar um remédio em segundos sustenta o vício em apostas: não há dois aparelhos, um bom e um mau, há um único, sempre ligado e funcional.

As bets são desenhadas para manter o usuário jogando o maior tempo possível: apostas ao vivo eliminam o intervalo de reflexão entre impulsos; o efeito “quase-vitória” é potencializado por interfaces construídas para gerar essa sensação repetidamente; bônus criam ilusão de dinheiro grátis; notificações trazem o usuário de volta em momentos de tédio; programas VIP recompensam quem mais gasta; algoritmos de personalização atacam justamente o momento de maior vulnerabilidade. É uma indústria que converte o reforço intermitente – incidental em outros jogos de azar – em produto de engenharia comportamental deliberada.

Uma tragédia social. Estudos sobre o perfil do apostador brasileiro mostram que cerca de um terço tem entre 16 e 29 anos, mas o valor médio apostado cresce com a idade: de cerca de R$ 100 mensais entre os jovens a mais de R$ 3 mil entre os mais velhos. Segundo o Lenad (Unifesp), o total de apostadores no Brasil subiu de 11,7% da população acima de 14 anos, em 2005-2006, para 17,4% (cerca de 28 milhões de pessoas) em 2023-2024; a faixa de “algum problema” saltou de 1,3% para 6%, e os casos de transtorno do jogo, de 1% para 0,8% (uníca redução no período) – ainda que os próprios pesquisadores alertem que os métodos de mensuração mudaram entre as edições, o que limita a comparação direta.

O TCU apurou que, em janeiro de 2025, famílias beneficiárias do Bolsa Família transferiram R$ 3,7 bilhões a casas de apostas – 4,4 milhões das 20,3 milhões de famílias do programa, sendo que 889 mil famílias (20% do total) responderam por 78% desse valor. Dados do varejo, apoiados no Índice NielsenIQ, associam esse desvio de renda a uma queda superior a 9% no pequeno comércio popular; estima-se que até 13% do orçamento de alimentação das famílias mais pobres migre para apostas, com perdas ao varejo estimadas em R$ 103 bilhões só em 2024. Em 2026, o Ministério da Fazenda fechou parceria com o Ipea para produzir indicadores mais precisos sobre o mercado – reconhecimento tácito de que a lei de 2023 nasceu mais preocupada em arrecadar do que em proteger.

O que pode ser feito. A legislação brasileira já exige licenciamento, identificação do apostador e proibição para menores; a publicidade é permitida, mas com restrições de conteúdo e público-alvo – limitação exposta pelo excesso de propaganda de bets durante a Copa do Mundo, o que motivou propostas no Congresso por um banimento quase total de anúncios, patrocínios e uso de celebridades. Paralelamente, desde 2020, o Ministério da Educação e a CVM mantêm um programa de educação financeira nas escolas, com debate no Senado para antecipar essa formação, já que a prevenção ao endividamento funciona melhor antes de o jovem entrar no consumo digital.

No mundo todo, o mesmo padrão se repete: proibição categórica alimenta a ilegalidade e liberação desregulada expõe jovens e vulneráveis à exploração. As iniciativas mais eficientes, segundo a experiência internacional, apostam na autonomia do apostador, com instrumentos efetivos de autocontrole: um sistema nacional de autoexclusão que bloqueia o acesso a todas as plataformas licenciadas de uma vez, e limites de depósito obrigatórios, definidos no cadastro do site de apostas, sem opção de recusa. O Brasil já tem autoexclusão centralizada, lançada em dezembro de 2025 e com mais de 650 mil pedidos de autobloqueio – mas os limites de depósito ainda são apenas oferecidos como opção, não impostos. A efetividade destas e outras medidas exigem fiscalização rigorosa e colaboração bancária para bloquear contas irregulares.

Deixe um comentário