Um livro que, invertendo a ordem com que se costuma pensar a vida interior, nos coloca diante de uma “crise da religião” que não é apenas um declínio da crença, mas o esgotamento de uma capacidade humana mais ampla – a atenção contemplativa.

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, professor na Universidade das Artes de Berlim, vem se tornando um dos autores mais lidos e aclamados no Brasil. Traz uma contribuição original ao debate contemporâneo: refaz as grandes críticas à atual sociedade “do cansaço”, à hiperestimulação dos ambientes digitais e à superficialidade cultural, combinando grandes pensadores do século XX com uma visão profundamente religiosa e contemplativa.
Não se trata de um autor católico. Sua visão da divindade oscila entre o Cristianismo, a mística oriental e um “Deus dos filósofos”. Muitas vezes se aproxima mais da apófase mística e do vazio zen do que do Deus pessoal e trinitário da fé católica. Sua crítica à mentalidade e ao mundo contemporâneo coexiste com uma apófase contemplativa (ideia de que o Absoluto ou Deus é tão infinitamente superior à mente humana que é impossível defini-lo com palavras, conceitos ou imagens positivas) que dialoga com muitas vertentes místicas cristãs, bem como no zen budismo.
Falando sobre Deus, seu livro mais explicitamente religioso, é um debate intelectual com Simone Weill (1909-1943), a pensadora e ativista de origem judaica, considerada uma das grandes místicas cristãs do século XX, ainda que tenha se recusado, até a morte, a receber o Batismo e a ingressar formalmente na Igreja. Ambos compartilham tanto uma posição ambígua em relação ao Cristianismo quanto esta visão apofática da espiritualidade cristã.
O leitor encontrará, no livro, dois grandes temas, interessantíssimos para quem gosta de mística nos tempos atuais. No primeiro capítulo, Han explicita o esgotamento da capacidade de atenção em nossa sociedade, associada ao influxo constante de informações e a uma gestão da vida pessoal voltada à eficácia e ao sucesso. Nos demais capítulos, desenvolve uma visão apofática e uma espiritualidade do desapego, do silêncio, da beleza e até da inatividade, que compartilha com Weill e servem a uma crítica contundente ao nosso tempo.


