A força de um livro que não recorre a artifícios grandiosos. Tudo nele nasce da intimidade, da memória, da hesitação entre o que se viveu e o que já não pode ser reparado plenamente.

TAMARO, Susanna. Vá aonde seu coração mandar. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2015.
Há livros que alcançam o leitor não por oferecerem uma tese, mas por exporem uma ferida. Vá aonde seu coração mandar, de Susanna Tamaro, pertence a essa espécie rara. Seu êxito duradouro não se explica apenas pela delicadeza epistolar ou pela voz memorável de Olga, a avó que escreve à neta; explica-se, sobretudo, porque o romance toca uma experiência universal: a do coração que deseja amar, mas tantas vezes o faz sem verdade suficiente para sustentar o próprio amor. Olga escreve à neta como quem tenta, no ocaso da vida, salvar da dispersão uma história marcada por silêncios, omissões, culpas e afetos contrariados. A escrita assume, assim, a forma de um exame tardio da consciência: não o gesto espetacular do arrependimento, mas o trabalho penoso de nomear aqui-lo que, durante décadas, foi suportado, disfarçado ou apenas adiado.
Uma das passagens mais ferinas do romance talvez seja aquela em que Olga se pergunta se existe palavra para quem perde uma avó. A hesitação da narradora não expõe apenas uma tristeza privada. Expõe algo mais severo: a facilidade com que o mundo moderno rebaixa certos vínculos à condição de acessório. Os avós, escreve ela, são deixados pelo caminho como guarda-chuvas. A imagem tem a delicadeza das coisas domésticas e a crueldade das verdades profundas. Lido à luz da fé, esse trecho corrige mais do que comove. Recorda que a vida humana não se sustenta sem herança, memória e gratidão — e que um coração incapaz de honrar aqueles de quem recebeu quase tudo, dificilmente saberá amar bem os que ainda têm diante de si.
Há sociedades que se revelam no modo como tratam seus fortes; outras, no modo como cuidam de seus frágeis. Uma cultura que rebaixa os idosos à condição de presença acessória empobrece não só sua memória, mas sua própria capacidade de gratidão. O romance de Tamaro é precioso também por isso: sob a aparência de uma confissão íntima, ele toca em um ponto em que a desordem afetiva de uma famí-lia se torna sintoma de uma desordem maior, quase civilizacional.
É aqui que a leitura católica se torna necessária. A fé não manda desconfiar do coração como se ele fosse inimigo da vida moral; manda, antes, educá-lo. Na tradição cristã, o coração não é a sim-ples sede do impulso, mas o centro da pessoa, o lugar onde liberdade, verdade e graça se encontram ou se recusam. O romance de Tamaro, então, deixa de ser apenas um convite à espontaneidade sentimental. Torna-se advertência e, mais do que isso, ocasião de formação interior. Olga comove não porque tenha seguido bem o coração, mas porque chega tarde à descoberta de que amar não basta, se o amor não aprende a obedecer à verdade.
Talvez resida aí a permanência secreta deste livro. Sob a delicadeza de sua voz feminina e confessional, ele recorda algo que a sensibilidade contemporânea prefere esquecer: o coração humano é precioso demais para ser abandonado a si mesmo. Ele só ama-durece quando aprende que ternura sem verdade consola por um instante, mas não salva uma vida.


