Reduções Jesuítico-Guarani: uma alternativa ao sistema de dominação colonial
Em 2026, o Rio Grande do Sul celebra os 400 anos das Missões Jesuítico-Guarani, ou Reduções, em seu território. Em 1626 foi fundada, às margens do Rio Uruguai, pelo Padre Roque González de Santa Cruz e outros jesuítas, a Redução de São Nicolau, a primeira localizada no território que atualmente pertence ao estado gaúcho e a primeira do conjunto dos Sete Povos, que, por sua vez, integrava os Trinta Povos das Missões. Esse extenso território também era denominado Província Jesuítica do Paraguai e incluía, ainda, parte da atual Argentina e do Brasil (correspondentes ao território atual do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Santa Catarina).
Germano Roberto Schüür / Wikimedia
As Reduções Jesuítico-Guarani nasceram a partir de dois objetivos idealizados pelos missionários da Companhia de Jesus, que, presentes nos territórios latino-americanos desde meados do século XVI, perceberam a impossibilidade de exercer sua missão de evangelização nas condições de escravatura e de violência impostas pelos colonizadores. Era preciso criar as condições para o trabalho missionário. Entre os jesuítas, a busca de uma proposta alternativa a este sistema iníquo foi encabeçada pelo espanhol Diego de Torres Bollo.
As origens: liberdade e evangelização. Em primeiro lugar, era necessário garantir um espaço de liberdade para a população nativa, dado que já era um fato consumado a ocupação militar e a exploração econômica de suas terras pelo Império espanhol e pela Coroa portuguesa. Os indígenas eram submetidos a um regime de trabalho escravo ou semiescravo. No Brasil, tratava-se de trabalho escravo propriamente dito. No domínio espanhol, vigorava o sistema de encomienda, no qual o indígena trabalhava para colonos que, por outorga da Coroa, detinham o espaço territorial, atuando em minas de prata e na extração da erva-mate.
A primeira ação seria garantir um espaço de liberdade que permitisse o desenvolvimento humano das populações. Este espaço criaria as condições para o segundo objetivo: a evangelização. Somente seria possível evangelizar pessoas que fossem sujeitos com uso de sua liberdade e possibilidade de se autodeterminar quanto às suas escolhas. A experiência dos jesuítas no Brasil desde 1549 tornara evidentes os empecilhos decorrentes de uma política colonial voltada à exploração predatória de matérias-primas e trabalho humano para proveito exclusivo da metrópole e de seus colonos. Esta posição foi sintetizada por Antônio Vieira, que em 1655 exclamou diante de Dom João IV: “Perde-se o Brasil, senhor, porque alguns ministros de sua majestade não vêm cá buscar nosso bem, vêm cá buscar nossos bens”.
O projeto das reduções. No início do século XVII, esses dois objetivos – defesa da liberdade e dignidade da pessoa e evangelização – levaram os jesuítas a encaminhar uma proposta ao Padre Geral da Companhia de Jesus em Roma e à Coroa espanhola. O projeto elaborado por Torres Bollo, que se tornar-se-ia o primeiro provincial jesuíta da nova Província do Paraguai (que correspondia ao território reducional), e pelo jurista Francisco Alfaro visava à constituição de agregações urbanas chamadas de Reduções. Ali, morariam indígenas que quisessem aderir a uma proposta de vida ‘‘civil’’ (segundo o ideal humanista surgido no seio do Cristianismo nos séculos XVI-XVII) que incluía organização social, cultural, religiosa, modo de trabalho e formação educacional, sob supervisão de dois ou três missionários da Companhia de Jesus.
O termo “Redução” refere-se à etimologia latina: redirecionar (reductio ad unum) as populações para uma vida social moldada pelos ideais cristãos. Nesse território, a Coroa espanhola garantiria a autonomia das comunidades, cujos moradores seri-am vassalos diretos do Rei, proibindo a entrada de colonos que pudessem submetê-los à escravatura ou à encomienda. A proposta foi implementada a partir de 1604 na Província Jesuítica do Paraguai.
A adesão dos guaranis. As populações, a maioria de etnia guarani, viviam espalhadas no território em pequenos grupos liderados por um chefe político e religioso (cacique), migrando frequentemente por necessidades materiais, mas que assumiam também o significado religioso de busca de uma “terra sem males”. Convidados pelos missionários, vários chefes aceitaram porque a proposta garantia um espaço de autonomia em um território no qual o avanço dos colonizadores e bandeirantes já se mostrava inevitável.
Houve caciques que se rebelaram violentamente, vendo nos jesuítas uma ameaça à sua liderança, o que ocasionou o martírio de missionários como Roque González, o fundador de São Nicolau. Todavia, grande parte da população guarani aceitou a proposta por julgá-la conveniente: para além da liberdade, haveria a possibilidade de aprender idiomas, técnicas agrícolas, artes, além de criar uma sociedade com sustento político, econômico e cultural. A evangelização foi realizada gradualmente, na medida em que os indígenas passavam a confiar na amizade dos religiosos.
Ao longo de cerca de 150 anos — de 1610 até 1756, quando foi destruída pela força conjunta dos exércitos coloniais espanhol e português — criaram-se trinta núcleos urbanos com populações de até 7 mil nativos para no máximo três jesuítas. Estes números evidenciam que houve uma efetiva adesão dos guaranis que sustentou toda a experiência — algo que não ocorreu em outros âmbitos da presença missionária no mundo e que deu origem a uma realidade totalmente nova.
O Cristianismo feliz nas Americas. Analisaremos aqui brevemente as causas do surgimento e do fim desta experiência que foi definida por um importante intelectual italiano da época, Ludovico Antônio Muratori, como “Cristianismo Feliz”, título de seu livro sobre a Província Jesuítica do Paraguai, que se tornou um best-seller com edições em diversos idiomas.
Essa experiência gerou grande vivacidade civil e econômica. Hoje, as ruínas remanescentes ainda mostram a grandeza e a beleza das suas construções e templos. A vinda de missionários arquitetos, engenheiros, escultores e músicos foi o ponto de referência para a formação de artistas e artesãos guaranis.
Toda Redução se constituía em torno de uma grande praça circular, tendo a igreja como ponto central. Ao lado, havia a casa dos padres e o colégio, onde todos os moradores podiam aprender a ler e escrever em guarani e espanhol. Havia também oficinas, roças, o cemitério e o cotiguaçu (casa grande para viúvas e órfãos). Cada Redução possuía uma estância, uma grande fazenda para agricultura e pecuária que abastecia a comunidade e servia para o comércio. Ali moravam um irmão jesuíta e homens da Redução ocupados com o cultivo e o gado.
O gado europeu, importado via Buenos Aires e levado às estâncias, adaptou-se e reproduziu-se, dando origem ao gado gaúcho. A produção das estâncias chegou a ser muito significativa, exportando erva-mate e algodão para a Europa, o que contribuía para o bem-estar das populações. O governo de cada Redução era regido por um cabildo, seguindo uma organização municipal de origem medieval herdada do direito espanhol, mas com a participação do cacique guarani. Essas funções eram escolhidas entre o grupo das lideranças nativas, em geral entre os de maior prestígio, capacidade de mando e condições administrativas. A autoridade continuava nas mãos dos índios, com a orientação dos jesuítas.
O diálogo intercultural entre guaranis e missionários. As Reduções foram palco de um intenso diálogo intercultural. Pautados pelo método acomodativo (adaptação flexível das práticas cristãs às culturas locais, evitando rupturas radicais, para facilitar a evangelização), inspirado no preceito paulino de ‘‘se fazer tudo para todos’’, os missionários aprenderam o idioma guarani e buscaram conhecer, com discernimento, os traços daquela realidade indígena. Adaptaram os conteúdos cristãos a partir de elementos que poderiam ser compartilhados, como o gosto pela música e decoração, o uso da palavra para exortação, o amor pela terra e o valor da vida comunitária.
Esses elementos moldaram a estrutura urbana, na qual praças e igrejas acolhiam a comunidade, e as varandas das casas permitiam o contato direto com a natureza. Recorreu-se ao diálogo com os catecúmenos guaranis para conversar com o restante da população sobre suas experiências religiosas. Desenvolveram-se celebra-ções com músicas corais e instrumentos construídos localmente. Nasceu a arte plástica guarani-jesuítica, com imagens sagradas que refletiam a sensibilidade indígena. Os colégios e bibliotecas permitiram aos guaranis a apropriação da escrita e da cultura ocidental. Foi decisivo o trabalho de elaboração de dicionários e catecismos na língua nativa, difundidos pela imprensa móvel que funcionava nas Reduções.
Os conflitos e o fim das Reduções. Ao longo da história, as Reduções sofreram muitas ameaças. A principal eram as investidas dos bandeirantes paulistas, que atacavam os núcleos, saqueando, destruindo, estuprando e capturando os guaranis para a escravidão. Eram considerados os principais inimigos, mas as reclamações da Companhia à Corte portuguesa foram inúteis, pois as bandeiras ampliavam os domínios coloniais e a predação das riquezas da terra.
Inicialmente construídas em territórios que hoje ocupam Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná, as Reduções tiveram que recuar em migrações perigosas para a região do atual Paraguai. Ali, o governador Hernando Arias de Saavedra aceitou a proposta de estabelecer o que seria a Província Jesuítica do Paraguai. A expansão retomou a partir de 1610, e as últimas edificações ocorreram no atual território gaúcho.
Conforme o Tratado de Madri, de 1750, uma parte do território das Reduções, onde ficavam as comunidades de São Miguel, São Nicolau, São Borja, São Lourenço, São Luiz Gonzaga, São João Batista e Santo Ângelo, os “Sete Povos”, deveria passar do domínio espanhol para o português. As comunidades indígenas se recusaram a aceitar o Tratado e foram massacradas pelos exércitos português e castelhano. Mais de 1,5 mil indígenas foram mortos e as famílias sobreviventes foram exterminadas.
Após a expulsão dos jesuítas (em 1759 do território português e em 1767 do espanhol), a região foi assolada por guerras de fronteira entre os exércitos dos recém-constituídos Estados Nacionais no início do século XIX, e os indígenas remanescentes foram cooptados como mão de obra ou servidores militares. Restam hoje ruínas majestosas, patrimônio mundial reconhecido pela Unesco, que testemunham uma história interrompida cuja continuidade teria certamente traçado os contornos de uma América Latina mais integrada e indígena.
Em Cidadãos de “Ordenada República” (São Paulo: Ideias & Letras, 2025), Marina Massimi apresenta de forma fascinante a experiência das Reduções Guarani-Jesuítas na América do Sul, sob a ótica pioneira da psicologia histórica; em uma obra transdisciplinar, que conecta história, psicologia e antropologia, valendo-se de cartas e diários da época que humanizam os relatos. A autora estuda como o encontro entre a tradição indígena e a cultura católica moldou novas formas de subjetividade, afeto e convivência social.