Em 2026, celebram-se os 400 anos do início das Reduções Jesuítico-Guarani, tema deste Caderno Fé e Cultura, no Sul do Brasil. Representam um dos episódios mais fascinantes e controversos da história das Américas. Por 130 anos, combinaram relativa autonomia político-econômica indígena com inserção no mundo colonial ibérico. Contudo, era uma aventura liderada por jesuítas, que tinham por meta a inculturação do Evangelho entre os nativos. Para a crítica contemporânea, isso parece imperdoável – ainda que raras vezes os povos indígenas encontrassem uma proposta tão respeitosa com seus direitos.

Uma das maiores injustiças do julgamento contemporâneo das Missões repousa em uma anacronia: julga-se um projeto do século XVII com critérios do século XXI. A economia colonial hispânica repousava sobre a encomienda, que obrigava os indígenas a trabalhar compulsoriamente para os colonos. Nas regiões fronteiriças, bandeirantes paulistas capturavam indígenas para vendê-los como mão de obra escravizada.
Os jesuítas se recusaram a compactuar com este sistema. A evangelização implicava o reconhecimento da dignidade do evangelizado. Mas, ao fazerem isso, entraram em choque com o poder colonial – e pagaram um preço caro: as Reduções foram destruídas por tropas espanholas e portuguesas, em 1756, e os jesuítas terminaram expulsos: em 1759, de Portugal e suas colônias; e, em 1767, da Espanha e seus domínios.
As comunidades guaranis, ainda que sob a tutela jesuíta (condição essencial para terem a anuência dos governos coloniais) gozavam da possibilidade de manter uma estrutura sociopolítica e econômica semelhante à original, além de terem desenvolvido atividades econômicas que as tornavam muitas vezes mais bem-sucedidas do que os colonos europeus.
Por outro lado, os brancos pobres do interior colonial, ainda que não vivessem sob a tutela jesuíta, também não gozavam do que hoje chamaríamos de autonomia pessoal. Viviam sob dominação e coerção que seriam hoje consideradas intoleráveis. Eram recrutados à força para guerras fronteiriças, presos por dívidas que não conseguiam pagar, submetidos a castigos corporais como forma de disciplina.
Os povos indígenas brasileiros, até o século XX, fora da ação dos missionários, enfrentaram apenas práticas de extermínio. O século XIX foi devastador. Políticas de ‘‘integração’’ confiscaram territórios indígenas, proibiram línguas originárias e apagaram identidades. Entre 1915 e 1970, em um início de mudanças de paradigma, o Serviço de Proteção ao Índio confinava povos em reservas minúsculas, incapazes de sustentar ciclos tradicionais de caça, pesca e agricultura. Somente com a Constituição de 1988, os povos indígenas foram reconhecidos como sujeitos de direito com organização social, línguas e tradições próprias que o Estado tem obrigação de proteger – a Constituição chegou tardiamente a algo que os jesuítas, com os limites do seu tempo, já sabiam: direito a território, economia e forma de vida próprios. Contudo, mesmo assim, até hoje as terras indígenas, na prática, estão continuamente ameaçadas por invasões, pelo desrespeito aos direitos da população local e pela falta de alternativas econômicas viáveis para sua sobrevivência.
Para a mentalidade atual, o grande escândalo das missões em terras indígenas, nas reduções e fora delas, é a questão cultural. Os jesuítas mantiveram o idioma guarani, com direito a gramáticas e livros impressos; valorizaram a sensibilidade artística, desenvolvendo o barroco missioneiro e incorporando músicas e rituais às festividades cristãs, preservaram a autoridade política dos caciques e mantiveram o abambaé – propriedade familiar – e o tupambaé – propriedade coletiva. O problema reside na questão religiosa.
Os jesuítas tinham a convicção de que a fé cristã era necessária para a salvação. Daí derivavam consequências culturais precisas, como a adoção da monogamia e o desencorajamento do xamanismo. O julgamento desses custos culturais depende de uma pergunta que nenhuma documentação histórica pode responder: a fé cristã torna as pessoas mais felizes? Se a resposta for sim, as transformações podem ser interpretadas como um ganho efetivo – afinal, nenhuma cultura é estática e imune à relação com as demais. Se for não, os jesuítas praticaram uma violência simbólica que não se redime pelas boas intenções.
Infelizmente, o julgamento histórico das Reduções não está sendo feito a partir daquilo que representaram para os indígenas de seu tempo, mas do que podem representar para as pessoas de hoje e suas lutas políticas. Não nos cabe fazer mais um julgamento, mas, sim, dar o testemunho de que o ideal que motivou aqueles missionários ainda é válido nos tempos atuais.


