Sete minutos depois da meia-noite

Há muitas formas de falar ou não falar sobre a morte. Mas, sem dúvida, uma das formas mais difíceis e mais duras é quando uma criança de 12 anos tem de cuidar da sua mãe com um câncer terminal, porque seu pai divorciou-se e é muito ausente, até porque mora num outro continente.

Para enfrentar os seus medos, as suas angústias e o profundo dilaceramento interior que sente entre o desejo de que sua mãe se cure e a quase certeza de que não se curará, Conor se refugia nos desenhos e nas histórias que conta para uma velha árvore. Acontece que, talvez mais como um sonho ou pesadelo, essa mesma árvore transforma-se num monstro que, regularmente, sete minutos depois da meia-noite, virá visitá-lo e guiá-lo nesse caminho de dor e de sofrimento para que não se desespere. O Monstro contará três histórias e, como um desafio, sempre sete minutos depois da meia-noite, avisa que, depois da terceira história, Conor terá de contar o seu próprio conto.

Não estamos mais acostumados a experimentar o poder revelador e transformador das histórias. A verdade, mais ainda, a verdade sobre nós mesmos, sobre quem somos e o que a vida espera de nós, não é uma verdade cartesiana, não é algo que se entende depois de uma análise profunda, não. Essa verdade que atinge o mais íntimo de cada um de nós e da nossa própria história se nos revela, se nos manifesta. Como os gregos diziam, é uma aletheia. Um desvelamento, uma epifania que nos faz cair em nós próprios e dizer, a partir daí, com profunda convicção: É isso! É isso mesmo!

Na origem etimológica, ficção não é apenas “fingimento” ou “irrealidade”. Era algo muito mais profundo e maravilhoso. Fictum é o particípio passado de fingere, que pode sim ser traduzido como “fingir”, mas também era a obra dos oleiros, daqueles artesãos que com suas mãos e seus dedos (em inglês ainda se conserva o termo finger/ dedo) criavam e moldavam, a partir do barro, vasos, jarras e ânforas... A ficção molda nossa alma, dá contornos humanos ao nosso caráter, desenha em nosso íntimo a nossa verdade mais íntima.

E foi isso que o Monstro fez na pequena e dolorida alma de Conor. A lição que cada um desses contos carrega é surpreendente, não só para Conor, mas para qualquer espectador. A vida não é justa, as coisas se passam de um jeito que quase nunca é o que nós queremos ou esperamos, a dor e o sentimento de impotência parece que estão enraizados na estrutura da vida. E, mesmo assim, como diria São Paulo nas suas Cartas, o amor tudo pode, tudo suporta. O amor não acaba nunca.

A origem do filme encontra-se numa autora irlandesa, Siobhan Dowd, que se especializou em literatura para crianças e que foi surpreendida abruptamente pelo câncer em 2005. Antes de morrer, aos 47 anos, em 2007, deixou rascunhadas as ideias centrais do livro. Sua Editora pediu a Patrick Ness que desse vida àquele esboço, que foi publicado em 2011. O filme, de 2016, foi realizado pelo espanhol Juan Antonio Bayona, conhecido por O impossível, sobre o grande tsunami na Indonésia.

Um belo filme de dor, sofrimento e amor. Uma história contada em forma de quatro contos, os três da árvore e o final de Conor, que nos desvelam que, como diria Fernando Pessoa, “a vida é terra, viver é lodo”, mas é desse lodo que Deus fez o homem e o homem molda e dá forma à sua alma.

Sete minutos depois da meia-noite, Jornal O São Paulo
Imagem: Divulgação

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE (A Monster Calls)
Direção: Juan Antonio Bayona
Roteiro: Patrick Ness, Jaume Martí
Elenco: Lewis MacDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver, Liam Neeson
Disponível: Amazon Prime Video, HBO Max

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