Cláudio Pastro, o mais importante artista sacro moderno brasileiro, frequentemente listado entre os mais importantes da atualidade, foi saudado como o “Michelangelo brasileiro”.

Cláudio Pastro (São Paulo, 15/out./1948 – 19/out./2016) foi uma pessoa excepcional, mas também representa bem o contexto eclesial e cultural em que se formou. Tinha uma personalidade profundamente mística, uma bondade que se doava a todos, era livre, alegre e expansivo, com uma mordacidade que lhe custou muitos desafetos. Graduado em Ciências Sociais pela PUC-SP, estudou Artes na Abadia Notre Dame de Tournay (França), no Museu de Arte da Catalunia (Espanha), na Academia de Belas Artes Lorenzo de Viterbo (Itália) e no Museu de Artes e Ofícios (São Paulo).
Criado no bairro do Tatuapé, em São Paulo, sua formação religiosa e litúrgica deve muito à congregação das Irmãzinhas da Assunção, que o acompanharam da infância à juventude. Uma delas, Rosa Brambilla, apresentou-o a missionários do Comunhão e Libertação (CL) que trabalhavam, no início da década de 1970, em São Mateus, na periferia de São Paulo. Lá começou a atuar nas obras sociais da paróquia, que tinha algumas das Comunidades Eclesiais de Base mais ativas da cidade. Acompanhava principalmente as atividades artísticas, lúdicas e de artesanato.
Foi ali que Padre Francesco Ricci, um sacerdote italiano ligado ao CL, percebeu o valor de sua arte e o levou às primeiras exposições na Itália. Os recursos vindos da venda de suas obras convenceram-no de que poderia viver exclusivamente da sua arte. Nascia ali um artista sui generis em nosso tempo, que via sua obra exclusivamente como serviço à Igreja. No início, não queria nem mesmo assinar suas obras, pois as considerava destinadas a Deus e fruto da graça de Deus, não de seus méritos artísticos.
No final da década de 1970, morou, com missionários do CL, na Casa Cultura e Fé, sede, na época, da Pastoral Universitária da Arquidiocese de São Paulo. O carisma monástico beneditino já o interessava há muito, mas foi nessa época que conheceu o Mosteiro Nossa Senhora da Paz, então uma recém-fundada comunidade de monjas beneditinas que, no meio da Mata Atlântica, em Itapecerica da Serra (SP), buscava uma experiência monástica mais fiel ao retorno às fontes proposto pelo Concílio Vaticano II. A superiora da comunidade era Madre Dorotéia Rondon Amarante, mulher de forte sensibilidade artística e de uma fé centrada no Mistério, sem qualquer traço devocional. Foi a mentora que o acompanhou a partir daquele encontro e o levou a tornar-se oblato do Mosteiro, com o nome de irmão Martino.
Na Casa Cultura e Fé, descobriu uma outra faceta de sua vocação: o mestre que ensinava a aprofundar o encontro com Cristo por meio da beleza. Aos poucos, esse outro lado foi ocupando cada vez mais sua vida profissional. Tornou-se uma referência para a arquitetura católica brasileira, por suas reflexões sobre o “espaço sagrado” e pelos ensinamentos que distribuía com prodigalidade entre artistas mais jovens.
Foi convidado pela Santa Sé a criar uma obra para as celebrações do Jubileu do ano 2000: o Cristo Evangelizador do Terceiro Milênio, concebido em 1998 e exposto no Vaticano. Também nesse período, foi convidado a criar o programa iconográfico do interior do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, que se tornou sua maior obra.
Logo depois, um problema hepático levou-o ao coma e quase à morte. Fez um transplante de fígado e sofreu 51 intervenções em 13 anos, mas sobreviveu e teve o período mais fecundo de sua vida. Além de Aparecida, trabalhou em várias outras igrejas, deu cursos, escreveu e ilustrou livros, realizou obras em azulejo, criou objetos e vestes litúrgicas. Considerava que Deus, por intercessão de Nossa Senhora, lhe havia dado um tempo a mais para complementar sua missão artística.
Em setembro de 2016, finalizou o seu projeto para Aparecida, entregando os últimos desenhos que orientariam a continuação da obra. A doença voltou a atacá-lo. Morreu algumas semanas depois. Foi sepultado no Mosteiro Nossa Senhora da Paz, onde está o seu Memorial.


