
MASSIMI, Marina. História dos Saberes Psicológicos na Cultura Brasileira. São Paulo: Edusp, 2023. 504 p.
Antes de qualquer laboratório, divã ou manual diagnóstico, o Brasil colonial já produzia – e muito – sobre a vida interior do ser humano. É essa a tese central de História dos Saberes Psicológicos na Cultura Brasileira, da pesquisadora Marina Massimi, professora sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP. Lançado pela Edusp em 2023, com 504 páginas, o livro conquistou o 1º lugar na categoria Psicologia e Psicanálise do Prêmio Jabuti Acadêmico 2024 – primeira edição da distinção criada pela Câmara Brasileira do Livro para reconhecer obras científicas de excelência.
A obra é o resultado de quase cinco décadas de pesquisa de Massimi e desafia uma ideia ainda comum: a de que só existe psicologia a partir do fim do século XIX. A autora mostra que, entre o século XVI e o final do XVIII, já circulava no Brasil um repertório vasto e diverso de saberes sobre memória, paixões, vontade e entendimento – só que espalhados em cartas, sermões, tratados de educação, novelas morais e relatos de festas religiosas, e não em artigos científicos.
Os jesuítas ocupam o centro do li-vro. Seus escritos pedagógicos e re-ligiosos, herdeiros da tradição aris-totélico-tomista, foram remodelados pelo contato com os povos indígenas e pela própria experiência da catequese nas Américas. O Padre Alexandre de Gusmão, autor de tratados de educa-ção amplamente lidos na colônia, ganha destaque especial nessa reconstrução. Mas Massimi não se limita ao clero: também investiga leigos que, por meio de romances alegóricos e relatos autobiográficos, refletiam sobre o que hoje chamaríamos de subjetividade.
O grande mérito do livro é justa-mente este: tratar o Brasil colonial não como simples receptor passivo de ideias europeias, mas como um laboratório próprio de reflexão sobre o humano – atravessado, é claro, pela violência da colonização e pelo choque entre cosmovisões diferentes. Nesse sentido, a obra conversa de forma natural com debates atuais sobre decolonialidade, sem precisar forçar o argumento.
Trata-se de uma leitura densa. As 504 páginas e a análise minuciosa de fontes do século XVI ao XVIII pedem familiaridade com a história da Psicologia e disposição para uma leitura mais acadêmica – o prefácio de Regina Helena de Freitas Campos (UFMG) ajuda a situar o leitor antes de entrar na argumentação principal. De qualquer forma, é um livro que muda a pergunta de partida: em vez de perguntar quando a Psicologia ‘‘chegou’’ ao Brasil, Massimi pergunta o que os brasileiros já pensavam sobre si mesmos muito antes de existir uma ciência com esse nome. O Jabuti Acadêmico, nesse caso, parece prêmio bem direcionado.


