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Um coração desarmado e desarmante na vida política é possível

A política, quando busca genuinamente o bem comum e não o poder pelo poder, é a mais elevada expressão do amor – capaz de superar discórdias e “desarmar” sociedades, como mostram exemplos de líderes que priorizaram o diálogo suprapartidário à disputa por cargos

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Imagem gerada por IA

Uma jovem universitária formada em relações internacionais me contou que uma vez participou de um encontro GEN (Geração Nova) do Movimento dos Focolares. Disse-me que era criança, mas ainda se lembra do palestrante que afirma: “A política é o amor dos amores”. Trata-se de uma bela e inesquecível frase que nos provoca no contexto em que vivemos, marcado por discórdias políticas que facilmente “se armam” e chegam à violência e à guerra.

A política como expressão do amor na verdade vai além do afeto entre casais, famílias e amigos. Ultrapassa as fronteiras das comunidades, cidades e nações. Isso ocorre quando a política tem como objetivo o bem comum, ou seja, as condições sociais e econômicas que permitem o desenvolvimento integral de cada pessoa, e de todas as pessoas, sem exclusões. Como ensina o Papa Leão XIV, na encíclica Magnifica humanitas (MH 60), o bem comum “não coincide com a soma dos benefícios dos indivíduos, nem com o entrecruzar-se dos seus interesses particulares: é um bem maior, que pertence a todos e só em conjunto se pode construir, aumentar e salvaguardar.”

Na encíclica, Leão XIV esclarece que a tarefa fundamental do Estado é garantir a coesão, a unidade e a organização justa da sociedade civil para que o “bem comum possa ser realmente alcançado com a contribuição de todos.” (MH 64). Trata-se de um ideal bem diferente do que se vê nos jornais que diariamente reportam a corrupção entre o setor público e privado, a sobreposição dos três poderes e a confusão de atribuições entre as esferas de governo.

O contágio psicofísico tornou-se um lugar comum na política e se expressa no medo das ameaças e na busca do poder pelo poder. Entre as armas mais utilizadas, vemos o pagamento de propinas e a nomeação para cargos. Tudo isso constitui o que São João Paulo II denominou de “estruturas de pecado que se opõem à vontade de Deus e exigem um empenho de conversão pessoal e social.” (MH 79) Como antídoto para tudo isso, é necessário humanizar a política, o que pode se dar com o (re)encontro entre corações e mentes abertas ao diálogo suprapartidário.

O Papa Francisco dizia que o tempo é superior ao espaço (Evangelii gaudium, EG 222ss). No contexto político, os processos democráticos são mais importantes do que os cargos e mandatos. O Brasil e muitos países estão desafiados a “desarmar” suas políticas nacionais e internacionais. Muitos são céticos sobre isso, mas há exemplos históricos que demonstram ser possível. Isso ocorreu após a II Guerra Mundial quando Konrad Adenauer, Alcide de Gasperi e Robert Schuman lançaram, pacificamente, os alicerces da União Europeia. No contexto brasileiro, frequentemente se recorda do governador Franco Montoro, que ergueu as bandeiras da descentralização e da participação democrática. Em nível municipal, o ex-prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, realizou a integração das políticas, que deixaram de ser setoriais para adotar uma visão integral do desenvolvimento humano. Afinal, a política é, de fato, o amor dos amores.

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