Um inverno em Nova York

Há filmes cuja força reside na sua verossimilhança com a realidade. São filmes que o que procuramos neles é que se aproximem tanto da realidade que nos façam esquecer de que são filmes.

Um inverno em Nova York, Jornal O São Paulo
Um inverno em Nova York
Direção e roteiro: Lone Scherfig
Elenco: Zoe Kazan, Andrea Riseborough,
Tahar Rahim

E filmes cuja força reside precisamente em serem metáforas, símbolos, parábolas, como aquela, por exemplo, do bom samaritano do Evangelho ou, então, para não sair da filmografia, aquele inesquecível A felicidade não se compra, de Frank Capra, que ainda resiste ao tempo e que tantas famílias e tanta gente assistem de novo quando chega o Natal.

Cada um desses tipos de filmes tem a sua função. E talvez nesse momento não só porque o Natal se aproxima, mas também porque a confiança e a esperança na bondade e na generosidade e, mais ainda, na capacidade de perdoar e de ajudar gratuitamente aos outros estão como que se esvaindo, valha muito a pena, mais muito mesmo, assistir a essa bela parábola moderna, cujo nome faz mais sentido no título original, The kindness of strangers (A amabilidade dos estranhos) e não no título que lhe foi dado em português, Um inverno em Nova York.

Lone Scherfig (Educação, Um dia), a diretora dinamarquesa de cinema, escreveu e dirigiu esse filme para falar daquilo que nos torna e nos fortalece como humanos e que, às vezes, nos pode parecer tão difícil de encontrar se olharmos para este mundo nosso com um olhar triste ou decepcionado. O filme fala de três ou quatro histórias que se cruzam cujas personagens estão à beira do fracasso, do desespero, da solidão e, no entanto, acabam por se encontrar, por se compreender e, mais incrível ainda nestes tempos de cancelamentos, por se ajudar uns aos outros de forma delicada, gratuita e generosa.

Clara decide fugir para Nova York com seus dois filhos ainda crianças porque acredita que não será encontrada na megalópole pelo seu violento e despiedado marido. Fogem – as crianças acham que estão indo de férias – com o que podem carregar no carro, que é quase nada, e chegam a uma cidade fria, hostil e ainda por cima em pleno inverno. Para sobreviver, Clara começa a roubar comida no restaurante de um velho, tradicional e decadente hotel, cujo dono, um russo fake, responde ao nome, também fake, de Timofey. Lá se encontrarão de uma forma ou de outra todas as outras personagens, Marc, um ex-presidiário recém-saído da prisão, que teve de pagar por uma culpa que não merecia, o seu advogado, John Peter, Jeff, um jovem que não encontra o seu lugar em lugar algum daquela fria cidade, e Alice, uma jovem enfermeira, que coordena um grupo de terapia, onde todos precisam se sentir amados, perdoados e compreendidos, e que, ao mesmo tempo que se entrega a todos, se sente só e não encontra quem a entenda e a ame tal como ela é. Ela está no centro de todas as relações e todas as coincidências e todas as ajudas, simplesmente porque sabe amar e se dar a cada um com um coração que é maior do que o mundo.

Como disse no começo, é uma metáfora, mais ainda, uma parábola. De alguém que, talvez cansado de olhar para um mundo cada vez mais triste e desumano, quer nos dar um alento de vida e de esperança; quer nos mostrar que, mesmo sendo estranhos uns aos outros, é possível saber descobrir o que há de humano em cada pessoa e que nos torna irmãos uns dos outros.

Rafael Ruiz é professor adjunto de História da América na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do Núcleo de Estudos Ibéricos da mesma Instituição.

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