A leitura da nota doutrinal Una Caro. Elogio à monogamia, sobre o valor do Matrimônio como união exclusiva e pertença recíproca, remeteu-me diretamente aos mosaicos da Fachada Leste do Santuário Nacional de Aparecida (SP), cujo tema é o Livro do Gênesis, criados pelo Centro Aletti, de Roma, e pelo Amacom, do Pará. Nessa fachada, pode-se vislumbrar a beleza da unidade na criação do Cosmo e do Homem, e em Cristo acolher as verdades da fé.

Todas as imagens foram concedidas pelo Santuário Nacional de Aparecida (SP).
Crédito: Thiago Leon, fotógrafo oficial do Santuário.
Deus, ao criar o homem e a mulher, já os havia criado um para o outro, mas em Cristo, houve uma elevação na dimensão sacramental. Um cônjuge está sempre relacionado ao outro: quando se fala “marido” já se subtende que há uma “mulher”, esposa. Um é relacionado ao outro, é uma unidade. Interessante que na arte sacra a Beleza está sempre na unidade!
A obra criadora de Deus se conclui com a criação do homem, feito à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26-27). Contudo, após a criação de Adão, Deus constata a solidão do homem como algo que “não era bom”. Então, retira de Adão uma costela, a sua alte-ridade, provocando uma espécie de desdobramento da natureza humana em masculino e feminino (cf. Gn 2,21-23), precisamente como ajuda para o homem viver segundo esta existência recebida do sopro, e das duas mãos com as quais tinha sido moldado.
Adão e Eva, colocados diante de sua alteridade, descobrem nesta posição o auxílio para viver uma vida sempre mais próxima daquela à qual João Evangelista chamou zoé – a vida típica de Deus. Eva é retirada de Adão como “ajuda” (cf. Gn 2,20) para existir segundo Deus, à maneira da relação, segundo a procura do outro. A vida que se exprime nesse desdobramento da natureza masculina e feminina é um chamamento contínuo à vida divina, destinada a realizar-se neles.
Adão já não pode existir sem a união com Eva, sem tender à unidade com ela. O homem não se realizará sozinho, porque a vida que recebeu delineou-o para uma existência relacional. O relato diz que o primeiro homem e a primeira mulher viviam em comunhão com o Criador, por isso habitavam no Jardim do Éden, símbolo dessa amizade. Os mosaicos da Fachada Leste do Santuário Nacional de Aparecida retratam a criação do homem e da mulher, mostrando o Criador entre eles, retratando a beleza dessa unidade relacional.
A ruptura. Os seres humanos, no entanto, não foram criados como autômatos, incapazes de decidir. Deus os criou livres para escolherem entre o bem e o mal, decisão que sempre tem consequências. O relato de Gênesis 3 mostra como essa unidade relacional é desfeita pela tragédia do pecado: a tentação de comer o fruto proibido, a conversa de Eva com a serpente sedutora, o consentimento de Adão, a expulsão do Paraíso.
Para os Santos Padres, a experiência de cada um confirma e prolonga na história o que o Gênesis conta nos primeiros capítulos. Cada um de nós tem um paraíso, ou seja, o coração criado por Deus em um estado de paz. E em cada um de nós vive a experiência da serpente, que penetra no coração para nos seduzir. A serpente assume a aparência de um pensamento ruim.
A árvore do conhecimento do Bem e do Mal é o mundo violado pela visão “autoidolátrica” do homem decaído, visão proveniente de uma separação e que desperta separações “em cadeia”. O terceiro capítulo do Gênesis mostra que, sem o relacionamento com Deus, a relação homem-mulher também se torna difícil. O pecado, precisamente porque cortou a relação com Deus, matou no homem a vida como comunhão, em consequência a vida matrimonial sem unidade traz sofrimentos.

O retorno. Há uma verdadeira novidade quando Deus chama Abraão e lhe pede para deixar sua pátria e sua família, se desapegar do vínculo de sangue. Não lhe diz para onde ir, mas diz que lhe indicará o caminho (cf. Gn 12,1-3).
É esse o primeiro passo da humanidade para recuperar uma existência baseada na relação com Deus. Abraão não dará passos se não em relação com Deus. Será Deus a lhe dizer e a indicar onde caminhar e ele escutará. Nasce de novo o diálogo e a palavra dirigida é aquela que faz voltar-se a quem a dirige.
Nos mosaicos da Fachada Leste, atrás de Abraão e Sara, vemos a tenda dos pais de Abraão e no manto de Abraão os povos que serão benditos por causa dele. Abraão está olhando para o alto, em direção a Deus, de quem receberá as indicações para a sua vida, e Sara está voltada para Abraão. Um no outro e um com o outro, como o casal primordial.
O sacramento. Dando um grande salto, a partir desses relatos do Gênesis, chegamos a Jesus Cristo, que eleva a união natural entre homem e mulher, criada por Deus no início da humanidade à dignidade de sacramento da Nova Aliança.
Jesus, questionado se é permitido ou não o homem pedir e dar o divórcio à sua esposa, responde: “Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher? E que por esta causa o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto o que o que Deus uniu, não separe o homem” (Mt 19,4-6)
O sacramento do Matrimônio foi instituído por Jesus Cristo, elevando a união natural entre homem e mulher – criada por Deus no início da humanidade (Gênesis) – à dignidade de sacramento da Nova Aliança. Ele é um sinal visível do amor de Cristo pela Igreja e da união indissolúvel entre ambos.


