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A pandemia afeta mais as crianças em fase de alfabetização?

Estudo realizado por grupo ligado ao Ministério da Saúde e à Fundação Oswaldo Cruz, aponta que, no Brasil, o fechamento das unidades escolares dificulta a continuidade do aprendizado e aumenta as desigualdades, afetando, de modo especial, os estudantes em situação de vulnerabilidade social

A pandemia afeta mais as crianças em fase de alfabetização?

A crise provocada pelo novo coronavírus na área da Educação afetou cerca de 1,3 bilhão de crianças e jovens, o que representa quase 80% dos estudantes do mundo. No Brasil, a maior parte dos estados continua com aulas a distância, com exceção do Amazonas, em sua capital, Manaus, que retomou o ensino presencial no dia 11 deste mês.

Um estudo realizado pela Rede CoVida (Ciência, Informação e Solidariedade) e publicado no site https://covid19br.org, ligado ao Ministério da Saúde e à Fundação Oswaldo Cruz, aponta que, no Brasil, o fechamento das unidades escolares dificulta a continuidade do aprendizado e aumenta as desigualdades, afetando de forma desproporcional os estudantes em situação de vulnerabilidade social.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), desde o início da pandemia de COVID-19, 188 países já fecharam totalmente os seus sistemas educacionais.

No Brasil, de acordo com o último Censo Escolar da Educação Básica, do Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em 2019 estavam matriculados cerca de 47,8 milhões de estudantes nas 180,6 mil escolas de educação básica. Os estudantes matriculados em escolas públicas eram cerca de 38,7 milhões, o que representava 80,9% do total de matriculados, concentrados principalmente na área urbana (88,7%).

O mesmo estudo mostra que apenas 63,4% das escolas públicas no Brasil possuem acesso à internet, enquanto que entre as instituições de ensino particulares o percentual chega a 96%.

Em entrevista ao site UOL, publicada em 5 de abril, Lucia Delagnello, diretora-presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), afirmou que os países que conseguiram se adaptar da melhor forma foram aqueles que já tinham experiência no uso de tecnologia na Educação, como China, Cingapura e Estônia.

Para ela, uma das formas de recuperar o ano letivo na pós-pandemia é flexibilizar o currículo estabelecido para cada ano escolar, e, “em vez de cumpri-lo à risca, identificar e selecionar quais conteúdos e habilidades são mais essenciais e trabalhar com eles”, disse Lucia.

Corrida desigual

Carolina Moreira Felicori, professora de Língua Portuguesa e psicopedagoga clínica, atende crianças, adolescentes e adultos com dificuldade de aprendizagem em leitura e escrita. Em entrevista ao O SÃO PAULO, ela falou sobre a dificuldade que as crianças em fase de alfabetização – por volta dos 6 anos de idade – terão para superar todo o ano perdido em 2020.

“Cresceu significativamente o número de pais que buscam atendimento durante a pandemia. A maior parte deles não sabe como ajudar os filhos nesta fase. O meu trabalho tem sido de auxílio com técnicas personalizadas, para que as crianças possam evoluir no processo de alfabetização, mas também tranquilizar os pais”, disse Carolina.

Ao ser perguntada sobre o tempo médio que uma criança pode demorar para recuperar o ano escolar e se esse tempo costuma chegar a até três anos, a psicopedagoga disse que sim. “Claro que tudo vai depender da rede de apoio que essas crianças terão e se as escolas serão capazes de adaptar os currículos”, explicou.

Para ela, crianças menos favorecidas economicamente, e, ainda, com menos acesso a livros e recursos tecnológicos, terão, sim, mais dificuldades. “Se as crianças forem aprovadas e o currículo não mudar, ou seja, se uma criança que está no 1º ano do Ensino Fundamental em 2020 for para o 2º ano, em 2021, sem retomar atividades do 1º ano, as dificuldades e o tempo para alfabetização irão se prolongar por anos.

“As famílias com dificuldades financeiras estão preocupadas em manter a alimentação e as contas em dia. Infelizmente, para muitas famílias, a educação dos filhos não é prioridade. Além disso, algumas não têm internet, ou, se têm, é apenas por redes móveis, o que não é suficiente para acessar, de forma satisfatória, as plataformas como Google Classroom ou Google Meet.

Mudança no dia a dia

E a experiência de Carolina vai além do atendimento às famílias que a procuram. Ela decidiu tirar o filho, de 6 anos, de uma escola particular para matriculá-lo em uma escola pública e ser, ela mesma, a responsável por sua alfabetização.

“Não estávamos conseguindo conciliar nosso trabalho com a realização das atividades propostas pela escola. Meu filho ficava nervoso e não estava evoluindo nada no processo de alfabetização. Então, percebi que, dedicando 50 minutos por dia a ele, com atividades personalizadas, surtia mais resultado. Então, resolvi tirá-lo da escola particular”, explicou.

A professora, porém, disse também que, mesmo com boa vontade e tempo disponível, nem todos os pais estão aptos para esse processo. “Para que uma criança aprenda a ler, vários fatores precisam estar associados. Além da técnica, a personalização e, sobretudo, o contato”, avaliou.

DICAS para os pais!

  • * Leia sempre com seu filho (ler ajuda as crianças a adquirir palavras novas, e a aquisição do vocabulário é o primeiro passo para a alfabetização);
  • * Não tenha pressa (uma criança de 4 ou 5 anos não precisa, necessariamente, reconhecer todas as letras do alfabeto);
  • * Peça ajuda (ao perceber que seu filho não evolui no processo de aprendizagem, não tenha vergonha de pedir ajuda; muitas vezes, a qualidade é mais importante do que a quantidade de atividades realizadas);
  • * Não confie em qualquer um (a pandemia fez nascer vários canais de YouTube e perfis do Instagram com dicas para pais, mas muitos deles mais atrapalham do que ajudam);
  • * Não se desespere (cada criança tem seu tempo e vive um processo diferente);
  • * Não ceda às pressões sociais (comparações entre crianças da mesma idade não são benéficas e podem até atrapalhar).

Dicas elaboradas a partir da entrevista com Carolina Moreira Felicori

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