Como a Igreja primitiva se expandiu?

A ação do Espírito Santo e da graça, unidas ao testemunho dos primeiros fiéis, foram as propulsoras do cristianismo nascente

Pintura na Catacumba de São Marcelino, em Roma, retrata a celebração do ágape (Eucaristia) nas primeiras comunidades cristãs

“A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (At 4,32). Assim, São Lucas descreve a vida dos primeiros cristãos no livro dos Atos dos Apóstolos. Essa obra, no Novo Testamento, é uma das poucas referências sobre a vida da Igreja nascente.

Aos ler esses textos, sobretudo durante o Tempo Pascal, é possível compreender como os seguidores de Jesus de Nazaré testemunhavam ao mundo sua Ressurreição e, assim, atraíam cada vez mais pessoas para essa grande família de fé.

O mesmo autor bíblico sublinha que os fiéis eram estimados por todos. “Entre eles, ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, levavam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um (At 4,34-35)”, completa.

Também pelo texto bíblico, é possível compreender como as comunidades dos primeiros séculos praticavam a fé, quando diz, por exemplo, que os cristãos “perseveravam na doutrina dos apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão e nas orações” (At 2,42).

Nesse e em outros textos do Novo Testamento, nota-se que a “fração do pão” era um momento central da vida dos primeiros cristãos. Eles se reuniam na grande “ação de graças” pela Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor para receber o seu Corpo e Sangue em sua memória, como Ele próprio havia pedido na Última Ceia.

Fiéis aos mandamentos

Além do texto bíblico, outra referência sobre a Igreja primitiva é um escrito do filósofo Aristides de Atenas, entregue ao imperador Adriano, no século II. O historiador eclesiástico Eusébio de Cesareia narrou que essa carta foi escrita por Aristides quando o imperador Adriano esteve na Grécia e houve uma violenta perseguição aos cristãos.

No escrito, Aristides não enfatizou tanto a defesa do conteúdo da fé cristã, mas a vivência moral dos seguidores de Cristo, ressaltando o caráter elevado da ética cristã, que contras tava com as práticas pagãs da época.

Em um trecho, o filósofo escreve que os cristãos traziam gravados em seus corações os mandamentos de Jesus Cristo e os praticavam. “Não cometem adultério, não fornicam, não levantam falso testemunho, não cobiçam os bens alheios, honram o pai e a mãe, amam aos seus próximos e julgam com justiça. O que não querem que se lhes façam, não fazem aos outros”, ressalta.

Irmãos

A carta assinala, ainda, que, aos que os ofendem, os cristãos exortam a tentarem ser amigos; empenham-se em fazer o bem aos seus inimigos, são mansos e modestos. “Afastam-se de toda união ilegítima e de toda impureza. Não desprezam a vida, não desam param o órfão. Os que têm, compartilham abundantemente com os que não têm. Se veem um forasteiro, acolhem-no sob seu teto e se alegram com ele como um verdadeiro irmão, pois não se chamam irmãos segundo a carne, mas segundo a alma…”, acrescenta.

Em síntese, o relato do filósofo descrevia para o imperador a essência do Cristianismo, não a partir de seus discursos ou pregações, mas dos testemunhos de vida que traduziam na prática os ensinamentos de Cristo.

“Estão dispostos a dar suas vidas por Cristo porque guardam com firmeza os seus mandamentos, vivendo santa e justamente segundo o que lhes ordenou o Senhor Deus. A Ele são dadas graças a todo momento, por toda comida e bebida, bem como pelos demais bens… Este é, portanto, verdadeiramente o caminho para o reino eterno, prometido por Cristo para a vida vindoura”, completa Aristides.

Pintura primitiva de Jesus Cristo na Catacumba de Comodila, em Roma

Carta a Diogneto

Outro texto que detalha a vida da Igreja primitiva é a chamada Carta a Diogneto, um manuscrito elabo- rado por volta do ano 120, que foi encontrado em 1436, em Constantinopla (atual Istambul, na Turquia).

Nessa carta, endereçada a um certo Diogneto, o autor desconhecido escreve que os cristãos viviam plenamente inseridos na realidade local e, portanto, não se distinguiam dos outros nem por sua terra, nem por sua língua, nem por seus costumes. “Eles não moram em cidades separadas, nem falam línguas estranhas, nem têm qualquer modo es- pecial de viver”, destaca.

“Sua doutrina não foi inventada por eles, nem se deve ao talento e à especulação de homens curiosos; eles não professam, como outros, nenhum ensinamento humano. Pelo contrário: mesmo vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes de cada lugar quanto à roupa, ao alimento e a todo o resto, eles testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal”, observa o texto.

Multiplicam-se

O autor da Carta a Diogneto ressalta, ainda, que os cristãos viviam em sua pátria “como se fossem forasteiros”. “Participam de tudo como cristãos, e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é sua pátria, e cada pátria é, para eles, estrangeira”, acrescenta.

“Assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo; os cristãos, por todas as partes do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não pertencem ao mundo”, reforça o texto.

Por fim, o autor desconhecido enfatiza que os cristãos habitam “em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus”. E, referindo-se à maneira como a Igreja crescia, usa a analogia: “Maltratada no comer e no beber, a alma se aprimora; também os cristãos, maltratados, se multiplicam mais a cada dia”.

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