Há 25 anos, uma casa de oração aberta ao ‘povo da rua’

Espaço mantido pela Arquidiocese de São Paulo foi idealizado pelo Cardeal Arns a pedido dos irmãos de rua 

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Seja para receber uma refeição, seja para encontrar um ombro amigo ou para vivenciar momentos de espiritualidade e fé, há 25 anos quem chega ao portão da Rua Djalma Dutra, 3, no bairro da Luz, encontra acolhida na Casa de Oração do Povo da Rua. 

O espaço foi construído em 1997 com os recursos financeiros de um prêmio que Dom Paulo Evaristo Arns, então Arcebispo de São Paulo, recebeu da Fundação Niwano, no Japão, em reconhecimento por sua intensa colaboração inter-religiosa para promover o desenvolvimento, conservar o meio ambiente e criar um mundo de paz e justiça. 

No domingo, 31 de julho, o Padre Julio Lancellotti, Vigário Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua, presidiu missa em ação de graças pelo jubileu de prata, concelebrada pelos Padres Arlindo Pereira Dias, Verbita, e Paulo Leandro da Silva (Padre Paulão), Assessor da Pastoral do Povo da Rua da Diocese de Guarulhos (SP) e idealizador do trailer “Banho de Esperança”. 

Participaram da celebração voluntários da Pastoral do Povo de Rua e aproximadamente cem pessoas em situação de rua. Após a missa, foi servido um almoço neste espaço, que é mantido pela Arquidiocese de São Paulo, por meio do Vicariato Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua. 

A CASA DE QUEM NÃO TEM CASA 

Quem chega à Casa de Oração é recepcionado no salão “Nenuca” – uma homenagem à religiosa oblata beneditina uruguaia, pioneira no trabalho com as pessoas em situação de rua no Brasil. 

O espaço conta com dois andares e uma área construída de 950 metros quadrados. No pavimento térreo, há uma cozinha, uma padaria e uma sala com doações de roupas, cobertores e sacos de dormir, obtidos por doações. 

No andar superior fica a capela com um painel doado pelo artista plástico Cláudio Pastro (1948-2016). Já o altar, os bancos e demais itens do espaço foram produzidos pelos próprios moradores em situação de rua, com madeiras encontradas na rua. 

No local são celebradas missas e acontecem vivências e encontros bíblicos e orantes. Em noites de frio intenso, também há a possibilidade de acolher para o pernoite aproximadamente cem pessoas. 

“Este espaço é uma casa de acolhida para quem não tem casa. É uma casa de partilha do pão, da sopa que sacia a fome física e que alimenta o espírito com a partilha da Palavra de Deus”, disse Padre Julio. “Diariamente, vamos ao encontro de quem está à margem, para, como Jesus, dar-lhes de comer, de beber e resgatar-lhes um pouco da dignidade”, disse o Sacerdote, destacando a necessidade de políticas públicas eficazes. 

LUGAR DE ENCONTRO E PARTILHA 

Regina Maria Manoel, religiosa da Fraternidade Oblatas de São Bento, coordenadora nacional da Pastoral do Povo de Rua, e uma das pioneiras na Casa de Oração, recordou que, antes da sede atual inaugurada em 1997, houve espaços para atendimento na Rua Florêncio de Abreu e na Rua Riachuelo, na região central da capital. “São muitas histórias, muitos trabalhos realizados nos viadutos, nas ruas e becos da capital, muitas vidas transformadas por meio da atuação de sacerdotes, religiosas e leigos voluntários que dedicam suas vidas para resgatar a dignidade de pessoas que estão à margem da sociedade”, reforçou a religiosa. 

“Foram, e ainda são, tempos de grandes dificuldades, mas de frutos abundantes na celebração da fé e resgate da dignidade humana. Com a premiação recebida por Dom Paulo, o sonho do espaço permanente para o povo da rua se tornou realidade”, disse. 

AÇÕES CONCRETAS 

Diariamente, na Casa de Oração é servido o café da manhã e são feitas aproximadamente mil marmitas, que são distribuídas em ruas e praças da cidade. Todos os dias, são produzidas aproximadamente 1,4 mil unidades de pães, distribuídos à população de rua. No local, há também a entrega de roupas, cobertores e itens de higiene pessoal obtidos por meio de doações. 

Outras atividades que acontecem regularmente são os momentos de espiritualidade, ensaio de canto, às quintas-feiras, o estudo bíblico, promovido pelo Centro de Estudos Bíblicos (Cebi), e diariamente a oração da manhã. 

“É significativo oferecer o pão material que sacia a fome física e o pão da Palavra de Deus. Aprofundar o Evangelho e meditar sobre as experiências da vida é importante para enfrentar as dificuldades da vida cotidiana”, ressaltou Ana Maria Alexandre, coordenadora da Casa de Oração do Povo da Rua. 

“O aprofundamento bíblico segue os conteúdos de cada tempo litúrgico, aliado à experiência pessoal. Não podemos deixar a oração, a espiritualidade e a nossa fé de lado, senão todo o resto perde o sentido: o alimento do corpo é muito importante, mas o alimento da alma é também de suma importância”, ressaltou Ana Maria. 

A coordenadora reiterou ainda o gesto concreto realizado pela Casa de Oração de abrigar para o pernoite as pessoas em situação de rua nas noites mais frias: “É significativo acolher em nossa capela quem está na rua. É um gesto evangélico, humano e humanizador”, afirmou. 

ALÉM DA RUA 

Beatris Guarita Dotta, 31, é psicóloga e atua como voluntária na Casa de Oração do Povo da Rua desde 2014. Ela ressaltou a importância de atuar nesta frente de evangelização e ação que vai além dos paradigmas da rua e do assistencialismo. 

“A atuação da Casa de Oração é um compromisso com a pessoa humana, é um lugar que, por meio da convivência e da partilha, transforma a nossa vida como voluntários e a vida de quem vem em busca do básico, que é um prato de comida, uma roupa, um copo de água”, disse a jovem. 

Geane Aparecida, 28, está desempregada desde o início da pandemia. Na semana passada, foi despejada do quartinho em que morava e tem encontrado apoio na Casa de Oração. Enquanto comia a sua única refeição do dia, com lágrimas nos olhos, confidenciou que sonha em voltar a trabalhar e ter “um cantinho” para morar.

Fotos da inauguração da Casa de Oração em 1997

 

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