Hábitos individuais e coletivos são fundamentais para conter a dengue

São Paulo é o Estado com maior número de óbitos pela doença neste ano, com 29 das 79 mortes já confirmadas em todo o país

Hábitos individuais e coletivos são fundamentais para conter a dengue
Pixabay

Desde o começo do ano, já foram confirmados no Brasil 323,9 mil casos de dengue e 79 óbitos pela doença. Em comparação ao mesmo período de 2021, o número de casos subiu 85,6%, conforme mostra o boletim epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, divulgado no dia 11. 

Dos 79 óbitos pela doença já confirmados, 29 aconteceram no estado de São Paulo. Outras 150 mortes estão sendo investigadas em todo o Brasil. 

Consta ainda no boletim epidemiológico o aumento de 14,7% em casos de chikungunya e alta de 31,8% nos de zika vírus, doenças também transmitidas pelo Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue. 

SITUAÇÃO MUNICIPAL 

Na capital paulista, até o dia 5 de abril, foram registrados 1.439 casos de dengue, 400 a mais em comparação ao mesmo período do ano passado. O município contabiliza ainda 35 casos de chikungunya. Até o momento, nenhum óbito foi registrado relacionado a essas arboviroses, como são classificadas as doenças transmitidas por hospedeiros. 

“De uma forma geral, a dengue, assim como qualquer outra arbovirose, tem a sua sazonalidade. O número de casos aumenta substancialmente no período de primavera e verão, e a tendência é que haja um declínio com o início do outono. Portanto, entraremos no provável período de declínio no número de casos”, disse, ao O SÃO PAULO, Gladyston Carlos Vasconcelos Costa, biólogo e analista em saúde da Divisão de Vigilância de Zoonoses da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa) de São Paulo. 

O biólogo assegura que o crescimento de casos registrados na capital neste início de ano está dentro de uma margem confortável. “Está dentro da nossa capacidade operacional. É uma quantidade que conseguimos conter com as ações de bloqueio, como a aplicação de nebulização nos bairros e nas casas para evitar o espalhamento dos casos”, afirma. “Não estamos contando com uma explosão no número de casos. Pelos números que temos, não vai suplantar o que houve em 2021.” 

Costa enfatiza que só é possível manter as notificações sob controle porque ao longo de todo o ano são realizados trabalhos preventivos de combate aos criadouros do mosquito transmissor. 

“Temos 28 Unidades de Vigilância em Saúde (UVIS) distribuídas ao longo do território de São Paulo com contingente de 2,5 mil profissionais que vão a campo rotineiramente desenvolver ações de prevenção”, diz. 

DE PORTA A PORTA 

Entre as ações, ele lista o trabalho casa a casa em que as equipes da Vigilância passam nos imóveis, orientando os moradores sobre locais e recipientes que podem acumular água, como pratos de plantas, calhas entupidas e garrafas, além de aplicar produtos para matar as larvas do mosquito. 

Ele cita também que estabelecimentos como ferros-velhos e borracharias, que são locais com potencial para a proliferação desses mosquitos, são alvos estratégicos de ação para aplicação frequente de inseticida para eliminar criadouros. “Controlando a quantidade de mos- quito, sendo ele o transmissor da doença, a quantidade de pessoas doentes tende a diminuir”, diz.

Costa frisa que, quando há a identificação do aumento de número de casos, a preocupação passa a ser evitar que a doença se espalhe. 

“Um único mosquito infectado com o vírus da dengue é capaz de transmiti-lo para até 30 pessoas no mesmo quarteirão”, alerta Costa. “Para evitar isso, temos como estratégia o bloqueio por nebulização, que são os veículos que passam com equipamentos pesados de aplicação espacial de inseticida, que a população conhece como fumacê.” 

SEMPRE ALERTA 

O biólogo alerta que 90% dos locais onde os mosquitos procriam são calhas entupidas e garrafas, criadouros que estão dentro das casas. Por isso, ele aponta como fundamental o trabalho de conscientização da população para que sejam eliminados os criadouros do mosquito, evitando assim uma explosão de casos. 

Costa recorda que, durante a pandemia, as pessoas estavam mais tempo em casa e mais atentas aos hábitos de higiene. O que pode ter mudado, mas não significa que seja o fator determinante para o atual aumento de casos. 

“Podemos comentar vários motivos, inclusive esse de que as pessoas estão saindo mais e nesse momento estão com uma atenção um pouco menor em relação aos criadouros. Mas ficamos no campo das hipóteses, porque precisaríamos ter indicadores para saber se isso, de fato, acontece”, explica. 

Outro alerta feito por Costa é de que a atenção em relação aos pontos de acúmulo de água deve ser sempre redobrada. “Às vezes, a pessoa olha muito onde o olhar dela alcança. Ela elimina o vasinho de planta, aquela garrafa que está no fundo do quintal, porém pode haver criadouros que ela acaba não observando. Temos visto muitas calhas no telhado entupidas com folhas, acumulando água e cheio de larvas, por exemplo.” 

Costa lembra que, mesmo limpa, a água parada oferece perigo. “O mosquito Aedes aegypti tem preferência por água limpa e por recipientes artificiais. Se a água está parada em um recipiente no quintal, é ali que o mosquito vai se proliferar. Quem gosta de água suja, barrenta, é o pernilongo. Mas independentemente de ser limpa ou suja, a água parada deve ser eliminada.” 

EM COMUNIDADE 

Trabalhar de modo coletivo também é uma maneira eficiente de evitar a proliferação da dengue. É com esse foco que a Associação de Moradores do Alto da Vila Brasilândia (AMAVB), na zona Noroeste da cidade, disponibiliza informações e orientações para prevenir criadouros do mosquito da dengue. 

“No dia a dia, convidamos agentes de saúde para orientação sobre a dengue em assembleias”, conta Cláudio Rodrigues Melo, 49, fundador e coordenador de gestão e projetos da AMAVB. 

Melo afirma que o número de casos cresceu na região. “Acredito que desta vez foi menos agressivo que em anos anteriores. Acompanhamos os trabalhos de algumas UBS [Unidades Básicas de Saúde] e notamos a preocupação em aumentar as orientações aos moradores. Infelizmente, na Brasilândia o impacto sempre é muito maior devido à falta de estrutura e a carência da região.” 

Ele comenta que, embora a Prefeitura tenha as ações preventivas, “a geografia local não ajuda muito, tornando ações esporádicas ineficazes ou com pouca eficiência”. 

O link para acessar o canal de atendimento da Prefeitura para solicitações sobre mosquitos é: https://cutt.ly/nF32QiY

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