‘Irmãos de rua’ são convidados a celebrar e festejar a Ressurreição

Luciney Martins /O SÃO PAULO

Após celebrar o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, é tradição que muitas famílias se reúnam para festejar o Domingo de Páscoa. Para a maioria das pessoas em situação de rua, porém, comemorar com alegria essa data só é possível graças à caridade cristã materializada em iniciativas mantidas por pastorais, movimentos e comunidades.

No domingo, 17, o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) oferecerá um almoço de Páscoa no espaço conhecido como Chá do Padre, no centro, para cerca de 600 pessoas, e na Casa Franciscana, no bairro do Cambuci, para 500 atendidos que também poderão participar de atividades como gincana, leitura e música.

O almoço do Domingo de Páscoa também será especial para os acolhidos da Missão Belém, festejando que 22 deles, ao longo da Semana Santa, irão receber os sacramentos da iniciação cristã, após passarem por um retiro de seis meses para a restauração de suas vidas. “Este é o grande milagre da Páscoa: ex-moradores de rua, pessoas muitas vezes esquecidas, abandonadas, serão acolhidas como membros do corpo de Cristo e da Igreja”, manifesta a Missão Belém, por meio de sua assessoria de imprensa.

Na Casa de Oração do Povo da Rua, no bairro da Luz, mantida pela Arquidiocese por meio do Vicariato Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua, cujo Vigário é o Padre Júlio Lancellotti, o dia da Páscoa será iniciado com missa, às 8h, após a qual se servirá um reforçado café da manhã. “Jesus se faz presente entre a população em situação de rua. Como me disse uma vez o senhor Antonio, que viveu por mais de 20 anos na rua: ‘Eu morri, porque passei anos na dependência da bebida, jogado pelas calçadas, sujo, fedido. Um dia, eu cheguei aqui e vocês tiveram paciência comigo, e eu reencontrei Jesus. Eu passei por toda a ressurreição’. Esse é o nosso sonho para os que hoje estão nas ruas: que possam viver a ressurreição em vida”, comentou Ana Maria Alexandre, coordenadora da Casa de Oração.

No Arsenal da Esperança, no bairro da Mooca, mantido pelo SERMIG – Fraternidade da Esperança, os 1,2 mil homens acolhidos participarão de toda a programação do Tríduo Pascal e do Domingo de Páscoa, e no jantar do dia 17 receberão de presente chocolates, obtidos por doações de grupos que apoiam o Arsenal.

No bairro do Brás, a confraternização de Páscoa na Casa Restaura-me, da Aliança de Misericórdia, será na segunda-feira, 18, para cerca de 500 “irmãos de rua”, a maioria frequentadora deste espaço, em que, além das refeições, podem tomar banho, lavar roupas e obter encaminhamentos para serviços sociais. “Depois de dois anos de pandemia, será uma Páscoa diferente, para contemplar a vida, essa graça que Deus nos dá de podermos estar bem, de ter vida nova em Cristo”, afirma Vanessa dos Santos, missionária da Aliança de Misericórdia e uma das responsáveis pelos projetos sociais.

MAIS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA

Durante todo o ano, essas instituições católicas atuam em favor dos que vivem em situação de rua, realidade de quase 32 mil de pessoas na cidade, conforme dados da Prefeitura de São Paulo. Esse número, porém, tende a ser ainda maior, pois, de acordo com os entrevistados é crescente a demanda dos que têm procurado ajuda.

Na Casa Restaura-me, Vanessa afirma que a maior urgência de itens é por cobertores e roupas masculinas. “Quando começou a pandemia, nós recebíamos muitas doações, mas de um tempo para cá diminuíram. O número dos que precisam de ajuda, porém, só cresce.”

Na Casa de Oração do Povo da Rua, são feitas e distribuídas cerca de 700 marmitas por dia. “Além dos alimentos, sempre precisamos de kits de higiene, roupas e calçados. Muitas pessoas batem no portão pedindo um chinelo, pois chegam descalças ou já com o chinelo arrebentado”, detalha Ana Maria.

No Arsenal da Esperança, os jovens e adultos sem trabalho, habitação e em dificuldade de saúde encontram um ambiente acolhedor, mantido principalmente por meio de doações, sendo sempre necessários itens como alimentos não perecíveis, talheres descartáveis, papel interfolhado, papel higiênico, máscaras e luvas descartáveis, itens de limpeza e kits de higiene pessoal, incluindo aparelhos de barbear descartáveis. Outro modo de colaboração é que as pessoas participem do bazar beneficente realizado sempre no segundo sábado de cada mês, das 8h15 às 12h30, na sede do Arsenal (Rua Doutor Almeida Lima, 900, Mooca). Uma demanda crescente por roupas e alimentos também tem sido verificada pelo Sefras. “Tanto na Casa Franciscana quanto no Chá do Padre, o atendimento diário quase dobrou: no Chá são mil pessoas por dia, e, na Casa Franciscana, cerca de 500. Um dado importante não é só em relação ao crescimento quantitativo, mas do aumento de famílias, mulheres e pessoas em situação recente de rua que perderam emprego e condições de moradia”, pontua o Frei José Francisco, diretor-presidente do Sefras.

ATENÇÃO AOS ENFERMOS

No centro da cidade, a Missão Belém mantém o Edifício Nazaré, onde são acolhidos cerca de 50 “irmãos de rua” por dia e convivem aproximadamente cem pessoas. Em todas as suas casas, a Missão Belém acompanha diariamente 2,3 mil pessoas, a maioria em recuperação para se livrar do vício das drogas.

“Nossas maiores necessidades são de cunho financeiro, para arcar com as despesas das casas, como contas de água, luz, entre outras”, detalha a assessoria. “Além disso, existem as necessidades diárias como roupas, sobretudo masculinas. Especialmente no tempo que se aproxima, o inverno, a acolhida dobra; também aceita- mos doações de alimentos, de produtos de higiene e limpeza.”

Também a Missão Eucarística Voz dos Pobres, fundada em 1996 por Claudio Luiz Vaz, acolhe pessoas com a saúde debilitada que vivem nas ruas ou que tenham sido abandonadas por familiares em hospitais e em suas próprias casas. O foco dos trabalhos, porém, é a realização da pastoral de rua, em que missionários consagrados e voluntários levam refeições e escutam as angústias, histórias e clamores das pessoas.

“Nós prezamos muito por esse contato com os irmãos, esse olhar nos olhos, essa partilha, o sentar e ouvi-los”, assegura a irmã celibatária Maria Madalena da Cruz, ministra-geral da vida celibatária da Voz dos Pobres e responsável pela Casa São José Moscati, localizada no Jardim Bonfiglioli, na zona Oeste.

“Acreditamos que, se cuidarmos dos pobres, Deus cuida da obra, ou seja, do aluguel e das outras contas. Assim, os re- cursos para tudo isso vêm de doações, rifas e eventos de arrecadação. Quando alguém quer nos ajudar, passamos nossa conta bancária, mas pedimos especialmente que venha e conheça a realidade, nos ajude nos cuidados com os irmãos. Para nós, a Pás- coa acontece todos os dias, porque vemos a liturgia da Ressurreição no olhar de um irmão que conversa conosco e naqueles que acolhemos.”

COLABORE COM DOAÇÕES
ARSENAL DA ESPERANÇA 
Rua Doutor Almeida Lima, 900, Mooca
Facebook: @arsenaldaesperanca 
Para doações financeiras 
Santander – Ag. 0144 
CC: 13.003147-6
CNPJ: 62.459.409/0001-28 (também é a chave PIX.) 

CASA DE ORAÇÃO DO POVO DA RUA 
Rua Djalma Dutra, 3, Luz 
Facebook: @Casa-de-Oração-do-Povo-da-Rua 
Para doações financeiras: 
Bradesco 
Ag: 0124 
CC: 053148-0 
CNPJ: 63.089.825.0001/44 

CASA RESTAURA-ME 
Rua Monsenhor Andrade, 746, Brás 
Facebook: @casarestauramesp 
Para doações financeiras: 
Bradesco 
Ag: 3137 
CC: 48021-5 
CNPJ: 04.186.468/0001-73 

MISSÃO BELÉM 
Edifício Nazaré (Praça da Sé, 47) 
www.missaobelem.org
* No site, há o endereço de outras casas de acolhida 

SEFRAS 
Chá do Padre (Rua Riachuelo, 268, Centro)
Casa Franciscana (Rua Otto de Alencar, 270, Cambuci) 
www.doesefras.org.br 
Central de atendimento em SP: (11) 3795-5220 

VOZ DOS POBRES 
Facebook: @vozdospobres.ofc 
Para doações financeiras:
Itaú 
Ag: 0786 
CC: 12345-5
CNPJ: 16.610.771/0001-30 (também é a chave PIX.) 

PARTICIPE DA VIA-SACRA DO POVO DA RUA 
Sexta-feira Santa, 15 
Concentração no Largo São Bento, a partir das 8h, seguida de oração e procissão pelas ruas do centro, sendo concluída no interior da Catedral da Sé. 

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