Livro convida à imersão na história da arte religiosa dos templos da cidade

‘Igrejas de São Paulo: Arte e Fé’ é fruto de um projeto coletivo organizado pelo casal Percival Tirapeli, professor da UNESP, e Laura Carneiro, jornalista

Foto: Luciney Martins /O SÃO PAULO

Setenta templos da cidade de São Paulo são apresentados cronologicamente e por estilos – barroco, rococó, eclético e moderno –, no detalhado livro organizado pelo professor Percival Tirapeli e pela jornalista Laura Carneiro.

“Igrejas de São Paulo: Arte e Fé” é o resultado de um trabalho coletivo de 40 autores que integram o grupo de pesquisa Barroco Memória Viva, do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e convidados.

A obra permite que o leitor, por meio de fotos e artigos, saiba mais sobre arte de igrejas e capelas da cidade, datadas de 1592 a 2003.

O texto introdutório da edição é assinado pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, no qual reforça que os artigos da atual obra nasceram de uma vasta pesquisa histórica, artística e iconográfica.

Dom Odilo destaca ainda que “na arte das igrejas também se expressam, de alguma maneira, as relações sociais e a vida comunitária que se estabeleceu a partir e ao redor de cada uma dessas construções”.

O livro, que é uma coedição da Editora Unesp, Edições Loyola e Arte Integrada Comunicação, foi lançado na sexta-feira, 28 de janeiro, no Pateo do Collegio, em comemoração dos 468 anos da cidade. 

A OBRA

São 420 páginas recheadas com 330 fotografias e 80 artigos, fruto de pesquisas que tiveram por base o livro de Leonardo Arroyo, “Igrejas de São Paulo”, publicado em 1954.

Ao O SÃO PAULO, Tirapeli explicou que o leitor encontrará variadas abordagens sobre as igrejas. “Em alguns articulistas, o histórico das igrejas é a base para mostrar a arte nelas existente”, destacou. “Outros têm uma base do momento social da construção do templo e de como a ornamentação se insere nos movimentos artísticos dos períodos colonial, imperial ou republicano.”

Para Tirapeli, que é autor de outros 25 livros e professor titular em História da Arte Brasileira na Unesp, o leitor ficará admirado ao “se deparar com o plano de expansão da Igreja Romanizada – ou seja, liberta do Padroado, quando o Imperador tinha autoridade sobre a Igreja – e com o trabalho do então Arcebispo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, que criou 37 paróquias e construiu igrejas em várias direções da cidade, prevendo o desenvolvimento da metrópole”O autor também mencionou que, além de elucidar a quantidade de artistas europeus e brasileiros que arquitetaram, esculpiram e pintaram os templos, a obra poderá surpreender “com as novas ordens religiosas – além daquelas tradicionais dos franciscanos, jesuítas, carmelitas e beneditinos – que trouxeram inovações com seus templos modernos”.

Tirapeli acredita ainda que, em relação às igrejas modernas, o título “seja o primeiro livro de arquitetura eclesiástica que aponta o estilo modernista com obras do arquiteto Hans Broos, com imponentes e significativos templos como a Igreja de São Bonifácio, na Vila Mariana, e a capela da Abadia de Santa Maria, no Jardim do Tremembé”.

ORGANIZAÇÃO

Foram cinco anos de produção. A jornalista Laura Carneiro, diretora e editora da Arte Integrada Comunicação, coordenou todos os processos para que o livro seguisse um padrão.

“A organização foi superdifícil. São 40 autores, 40 estilos diferentes, e passamos por momentos diferentes ao longo dos cinco anos. Houve vaivem de textos, correções, atualizações de obras e de artigos”, compartilhou Laura. “Mesmo assim, o livro tem unidade.”

Tirapeli mencionou que, embora a produção geral do livro tenha se dado em cinco anos, a obra é resultado de seminários realizados no auditório do Mosteiro de São Bento. “Para parte dos artigos sobre as igrejas coloniais, o trabalho começou com a realização de três seminários internacionais em 2013”, contou o professor. “Das igrejas ecléticas em 2015, as modernas em 2017 e, em 2018, só sobre as igrejas de São Paulo.”

AUTORES

Tirapeli comentou que ficou muito feliz por contar com a participação de tantos pesquisadores. Apesar de a maioria integrar o grupo do Barroco Memória Viva da Unesp, alguns são membros do Barroco Cifrado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP): “No geral, os 40 autores são pesquisadores jovens, tudo ‘moçada’. É isso que mais importa para o mestre: ter os discípulos que vão continuar o trabalho.”

Leonardo Caetano de Almeida, 37, é um dos colaboradores do livro. Ele escreveu sobre a Basílica de Nossa Senhora da Penha e afirmou ter sido uma grande honra participar do projeto.

“Acredito que a arte está presente em tudo, mas a Igreja é uma grande produtora e responsável pela arte, mesmo pela monumentalidade das igrejas, que chama muito a atenção; e também nos seu interiores, sempre repletos de muita beleza”, salientou o pesquisador.

Outra colaboradora, Alecsandra Matias de Oliveira, 49, falou sobre o processo de produção para a obra. Seu artigo foi sobre a Igreja Mãe do Salvador (Cruz Torta), no Alto de Pinheiros. “Apesar de fazer parte da minha área de pesquisa, o Percival Tirapeli ‘puxou’ um lado que eu ainda não tinha explorado. Foi instigante.”

Tirapeli lembrou que, para a organização do livro em um único volume, os 40 articulistas se dedicaram a novas pesquisas no âmbito de regras preestabelecidas, como por exemplo o número de laudas. “Os pesquisadores que tinham defendido teses de mais de 300 páginas sobre aquela igreja tiveram que sintetizar os conteúdos em apenas cinco ou seis folhas escritas. Um desafio muito grande.”

Lina Bandiera, 71, autora de dois artigos da publicação, um referente à Igreja Imaculada Conceição e outro sobre a Capela do Hospital Santa Catarina, ambas na Bela Vista, define o alinhamento da escrita do livro como “um trabalho fabuloso” e “de muita competência e conhecimento”.

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