Maternidade e trabalho: a busca de uma relação de equilíbrio para as famílias e as empresas

No mês de maio, comemoram-se o Dia do Trabalhador e o Dia das Mães. Embora essas datas tenham motivações distintas, são uma oportunidade para refletir sobre a relação entre a maternidade e o trabalho, realidade cada vez mais desafiadora para as famílias. 

Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de 2018, indica que a maioria das mães de baixa renda, mais de 50%, são demitidas quando retornam da licença-maternidade. 

Esses dados chamaram a atenção do Family Talks, um programa da Associação de Desenvolvimento da Família (Adef), voltado para a atuação na esfera pública, com o intuito de promover ações, trazer informações sobre a im- portância das relações familiares para o desenvolvimento social, o que implica a promoção de iniciativas de interesse público ou privado voltadas ao fortalecimento das relações familiares. 

Leticia Barbano, pesquisadora no Family Talks, formada em Terapia Ocupacional pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e doutoranda na mesma universidade, ressaltou ao O SÃO PAULO que, embora haja uma crescente tendência de inclusão de mulheres no mercado de trabalho, em especial nos cargos de liderança, aquelas que decidem ter um ou mais filhos encontram dificuldades para permanecer no trabalho, quando, na maioria dos casos, trabalhar não é apenas uma opção pessoal, mas uma necessidade da família. 

“O mercado de trabalho não está preparado para acolher as mulheres que são mães. É como se ter filhos as impedisse de alcançar seus objetivos. Podemos considerar uma espécie de preconceito social em relação à maternidade. Isso acaba fazendo com que as mulheres não tenham filhos ou tenham menos filhos do que gostariam”, opinou Leticia, acrescentando que, quando se comparam mulheres e homens, em termos de progressão de carreira, oportunidade de emprego, salário e inserção no mercado de trabalho, as mães são as que ficam por último em todos esses grupos. 

HABILIDADES 

Para enfrentar esse problema, a pesquisadora aponta que o primeiro passo é mudar a lógica cultural em relação às mães. “Muitas pessoas enxergam a ausência da mulher durante a licença-maternidade ou até o fato de ter um filho como um incômodo, mas, na verdade, o que se percebe cientificamente é que a maternidade torna as mulheres muito mais comprometidas e maduras”, observou Leticia, explicando que, em virtude da maternidade, as mulheres desenvolvem as chamadas soft skills, isto é, habilidades mais acuradas para lidar com as pessoas e situações, como gestão de conflitos, gerenciamento do tempo, criatividade, entre outros. 

MUDANÇA CULTURAL 

O Family Talks insiste na necessidade de uma mudança na cultura organizacional das empresas a fim de acolher mais as profissionais que são mães e, ao mesmo tempo, incentivar a participação dos pais nesse processo. 

Outro caminho para promover uma cultura empresarial mais favorável ao desenvolvimento das famílias é a redução das jornadas de trabalho. “Sabemos da dificuldade de tornar esse ideal concreto. Porém, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) já recomendou que as jornadas de trabalho sejam menores, pois, se homens e mulheres trabalharem menos, ambos terão mais tempo para se organizarem nos cuidados dos filhos, consequentemente, diminuindo a necessidade de ‘terceirizar’ o cuidado das crianças nos serviços do Estado, como escolas, creches etc.” 

Quanto à licença-maternidade, os estudos do Family Talks ressaltam que deve haver um planejamento de como será a ausência da profissional na empresa, assim como seu retorno gradual ao trabalho. “É possível planejar com a mulher se essa ausência será total ou se, dependendo da sua posição na empresa, ela gostaria de ser informada sobre o andamento de algum projeto, como ela deseja que seja a volta ao trabalho, se precisa de menos ou mais tempo”, comentou Leticia, reconhecendo a necessidade de maior flexibilidade na legislação para favorecer tanto a mãe quanto a empresa. 

DIFERENÇAS 

Considerando que metade dos trabalhadores formais no Brasil está nas pequenas e médias empresas, reconhece-se os impactos diferentes da licença-maternidade no mercado de trabalho. A pesquisadora do Family Talks, no entanto, chamou a atenção para vantagens das empresas menores que precisam ser mais valorizadas e estimuladas. 

“Observamos que, em geral, os gestores das pequenas e médias empresas estão muito mais próximos dos seus funcionários e, portanto, conhecem a realidade de cada um. Eles, portanto, podem usar isso como oportunidade de humanizar a relação trabalhista, procurando ver cada trabalhador como uma pessoa e não mais um número. Nesse sentido, diante da gestação de uma colaboradora, há condições de planejar antecipadamente como será essa ausência e seu retorno gradual. Assim, não haverá apenas uma substituição, pois a gestante participará ativamente do processo da sua licença”, disse. 

Willian Fortunato/Pexels

COMUNIDADE 

Para pensar em um ambiente que favoreça a família, é fundamental considerar o papel da comunidade, mais especificamente das redes de apoio. Isso envolve o âmbito mais próximo das redes de parentes e amigos próximos, como também daquelas constituídas por outros entes da sociedade, como a escola, a Igreja e outras organizações. “A maternidade não é uma questão individual, mas coletiva. Quando uma mulher tem um filho, ela necessita da ajuda de outras pessoas, de uma rede de suporte. Isso, porém, vai contra a lógica econômica, marcada por uma cultura muito individualista, que propaga a ideia de que ter um filho é um problema exclusivo da- quela família”, afirmou Leticia. 

No âmbito da comunidade, são muitas as alternativas, como empresas que se reúnem em torno de associações ou sindicatos para viabilizarem espaços comuns de cuidado dos filhos dos funcionários, como as creches, escolinhas ou berçários coletivos. 

Contudo, Leticia reforça a importância de os pais serem protagonistas na criação da rede de apoio. Existem, por exemplo, grupos de mães e pais que se reúnem para se revezar alternando seus dias de folga no cuidado dos filhos ao longo da semana, as chamadas creches parentais, ou para o cuidado das crianças no contraturno escolar. Há, ainda, casos em que os pais conseguem se alternar nas jornadas de trabalho e se revezam no cuidado dos filhos. 

PROJETOS 

Na busca de caminhos concretos para diminuir esses obstáculos, o Family Talks se empenha no debate sobre propostas legislativas que mudem esse cenário. Uma delas é o projeto de licença parental, que consiste na possibilidade de pai e mãe alternarem o período de pausa do trabalho para o cuidado dos recém-nascidos. Outra frente de debate é a que mundialmente é chamada de Family Supportive Workplaces, que, objetivamente significa a preocupação das empresas para que seus ambientes não sejam desfavoráveis a profissionais que tenham responsabilidades familiares.

Por fim, Leticia sublinhou a importância de pensar em alternativas que beneficiem a todos. “Não podemos pensar em algo que solucione apenas o problema da minha família, mas também das outras famílias que passam por situações semelhantes às minhas”, completou. 

Parta conhecer mais sobre os projetos e pesquisas do Family Talks, acesse: https://familytalks.org. 

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