‘Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso’

A práticas das obras de misericórdia espirituais e corporais devem fazer parte da rotina de vida dos cristãos

‘Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso’, Jornal O São Paulo
Luciney Martins /O SÃO PAULO

A celebração do Domingo da Divina Misericórdia, no 2o Domingo da Páscoa, 24, foi ocasião para que os católicos se recordassem de um permanente compromisso: a realização das obras de misericórdia. 

Conforme o Catecismo da Igreja Católica (CIC), “as obras de misericórdia são as ações caritativas pelas quais socorremos o próximo em suas necessidades corporais e espirituais. Instruir, aconselhar, consolar, confortar são obras de misericórdia espiritual, como também perdoar e suportar com paciência. As obras de misericórdia corporal consistem, sobretudo, em dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar moradia aos desabrigados, vestir os maltrapilhos, visitar os doentes e prisioneiros, sepultar os mortos” (CIC, §2447).

A prática da misericórdia foi algo constante na vida de Jesus e nas recomendações que deu a seus discípulos. No Evangelho segundo Lucas, Cristo é enfático: “Sejam misericordiosos, assim como o Pai de vocês é misericordioso” (Lc 6,36). Também o evangelista Mateus lembra que Jesus, diante das multidões, afirmou que são “bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão a misericórdia” (Mt 5,7); e mais adiante, no anúncio do Juízo Final, assegurou que os justos serão salvos, terão a vida eterna, pois deram de comer a quem estava com fome; de beber a quem tinha sede; acolheram o estrangeiro, vestiram quem estava nu, cuidaram dos doentes e visitaram os que estavam presos (cf. Mt 25,31-46).

“Hoje, no Domingo da Misericórdia, lembrando que todos nós fomos agraciados com a misericórdia de Deus, somos convidados a ser misericordiosos e abrir o nosso coração às necessidades dos próximos e a todos socorrermos com bondade”, disse o Cardeal Odilo Pedro Scherer, na homilia da missa que presidiu na Catedral da Sé.

Dom Odilo ressaltou que Jesus ressuscitado está presente no mundo de diversas maneiras: por sua Palavra; na Eucaristia; quando os cristãos se reúnem em seu nome; e nos irmãos, de maneira especial naqueles que mais sofrem.

A FÉ TRADUZIDA EM OBRAS

Na Carta de São Tiago, é recordado que de nada adianta alguém dizer que tem fé se não a traduz em obras em favor do próximo: “Por exemplo: se um irmão ou irmã não têm o que vestir e lhes falta o necessário para a subsistência de cada dia, e alguém dentre vós lhes disser ‘Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos bastante’, no entanto, não lhes der o necessário para manutenção, que proveito haverá nisso? Assim também é a fé: sem obras, ela está completamente morta” (Tg 2,15-17).

Em artigo publicado no O SÃO PAULO, em 15 de setembro de 2009, o Cardeal Scherer, ao comentar esta passagem bíblica, lembrou que nela está o critério de autenticidade da religião.

“Tiago refere-se às ‘obras da fé’, que traduzem a fé em vida e comportamentos coerentes; sobretudo as atitudes de amor a Deus e ao próximo, o respeito à verdade e à honestidade”, afirmou, comentando, ainda, que “a fé católica, sem a caridade, não é autêntica. Por isso, ela precisa ser traduzida nas práticas cotidianas de caridade para com o próximo; ‘se alguém possui riquezas neste mundo e vê seu irmão em necessidade, mas diante dele fecha o coração, como pode o amor de Deus permanecer nele? Filhinhos, não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade’ (1Jo 3,17-18). A esmola, a ajuda concreta aos necessitados, o alívio das dores de quem sofre, o empenho pela justiça social e a defesa da dignidade da pessoa e de seus direitos, tudo isso são expressões concretas da fé, que opera pela caridade”, escreveu na ocasião.  

POR ELAS SEREMOS JULGADOS

Na bula Misericordiae vultus (MV), de 2015, por meio da qual proclamou o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, o Papa Francisco afirma que a misericórdia “é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (MV, 2).

O Pontífice também alertou: “Não podemos escapar às palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados: se demos de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede; se acolhemos o estrangeiro e vestimos quem está nu; se reservamos tempo para visitar quem está doente e preso (cf. Mt 25,31-45). De igual modo ser-nos-á perguntado se ajudamos a tirar da dúvida, que faz cair no medo e muitas vezes é fonte de solidão; se fomos capazes de vencer a ignorância em que vivem milhões de pessoas, sobretudo as crianças desprovidas da ajuda necessária para se resgatarem da pobreza; se nos detivemos junto de quem está sozinho e aflito; se perdoamos a quem nos ofende e rejeitamos todas as formas de ressentimento e ódio que levam à violência; se tivemos paciência, a exemplo de Deus que é tão paciente conosco; enfim se, na oração, confiamos ao Senhor os nossos irmãos e irmãs” (MV, 15).

TEMA ATUAL

Na encíclica Dives in misericordia (DM), publicada em 1980, São João Paulo II já alertava que o tema da misericórdia parecia estar em esquecimento: “A mentalidade contemporânea, talvez mais do que a do homem do passado, parece opor-se ao Deus de misericórdia e, além disso, tende a separar da vida e a tirar do coração humano a própria ideia da misericórdia. A palavra e o conceito de misericórdia parecem causar mal-estar ao homem, o qual, graças ao enorme desenvolvimento da ciência e da técnica, nunca antes verificado na história, se tornou senhor da terra, a subjugou e a dominou (cf. Gn 1,28). Tal domínio sobre a terra, entendido por vezes unilateral e superficialmente, parece não deixar espaço para a misericórdia” (DM, 2). No entanto, o compromisso de cada cristão com as obras de misericórdia continua atual; afinal, a todo tempo, “a caridade tem como frutos a alegria, a paz e a misericórdia […] e a finalidade de todas as nossas obras é o amor” (CIC, 1829).

‘Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso’, Jornal O São Paulo
Moisés Becerra /Cathopic

PRATIQUE!

Conheça e realize as 14 obras de misericórdia.

Obras de misericórdia corporais:

  • Dar de comer a quem tem fome
  • Dar de beber a quem tem sede
  • Vestir os nus
  • Acolher os peregrinos
  • Visitar os enfermos
  • Visitar os encarcerados
  • Enterrar os mortos

Obras de misericórdia espirituais:

  • Dar bom conselho
  • Ensinar os ignorantes
  • Admoestar os pecadores (corrigir os que erram)
  • Consolar os aflitos
  • Perdoar as ofensas
  • Suportar com paciência as fraquezas do próximo
  • Rezar a Deus pelos vivos e defunto

Deixe um comentário