O histórico encontro com o dalai-lama na Catedral da Sé

Dom Cláudio: ‘Nós nos respeitamos e queremos que nossas religiões cultivem a tolerância e o respeito mútuos’

Luciney Martins/O SÃO PAULO

O líder espiritual e temporal do povo tibetano, o dalai-lama Tenzin Gyatso, foi recebido em 29 de abril de 2006 na Catedral da Sé por autoridades de diferentes credos religiosos. O Cardeal Cláudio Hummes, Arcebispo de São Paulo, participou do encontro inter-religioso. 

A celebração foi o último compromisso público do dalai-lama na terceira visita ao Brasil e reuniu, de acordo com a Policia Militar, aproximadamente 5,1 mil pessoas. Com a Catedral lotada, um telão foi colocado em frente à escadaria, na Praça da Sé, para que o ato pudesse ser acompanhado por quem não conseguiu entrar.

Às 15h10, o dalai-lama chegou. Com as ruas fechadas com segurança necessária para receber um chefe de Estado, o carro com Tenzin Gyatso estacionou nos fundos da Catedral e, ali mesmo, o monge tibetano foi saudado com palmas por uma multidão que o aguardava no limite das grades da igreja. Recebido por Dom Cláudio, o dalai-lama se esforçou para expressar sua gratidão por “tão bonita acolhida”.

Às 15h26, com as mãos dadas, o dalai-lama subiu altar com outras autoridades religiosas. Durante mais de um minuto, o monge foi aclamado de pé pelas pessoas que havia na nave da Catedral. Abrindo a celebração, Dom Cláudio ressaltou o “forte simbolismo” daquele encontro. Para o Cardeal, aquele ato era a manifestação “de que nos respeitamos e queremos que nossas religiões cultivem a tolerância e o respeito mútuos”.

O Arcebispo de São Paulo falou sobre os benefícios da globalização, mas lembrou que ela também “traz consigo uma grande pluralidade de culturas, religiões, ideias e teorias éticas que, muitas vezes, confunde as pessoas”. Essa confusão faz com que as pessoas percam a vontade de buscar a verdade e se decepcionem com aqueles que querem impô-la com violência. “A verdade deve ser proposta e não imposta”.

Dom Cláudio lembrou que “consideramos sua Santidade dalai-lama como alguém mundialmente reconhecido como construtor da paz e da tolerância entre os povos e religiões” e que, “nós, cristãos, por nossa própria fé, estamos comprometidos com a construção da paz, do amor, da solidariedade”.

Encerrando, Dom Cláudio pediu a Deus “que abençoe esse nosso encontro e o faça frutificar”. “Caro, dalai-lama, Vossa Santidade é muito bem-vinda entre nós”.

Em seguida, representações de diferentes confissões religiosas fizeram preces de paz. Em inglês, dalai-lama falou por cerca de meia hora sobre “a importância da harmonia entre as religiões”. Para o monge, “apesar de todo o processo, sinto que a religião e a espiritualidade são muito necessárias”. 

O líder tibetano ressaltou que não queria dizer que todos deveriam adotar uma crença religiosa, mas que lhe parecia que, “em momentos de desespero, as pessoas que acreditam nem valores mais profundos são mais bem amparadas pela própria fé”.

O dalai-lama reconheceu que, “por vezes a religião aparece como fator de conflito”, mas ressaltou que “a humanidade precisa de uma diversidade de culturas”. “Diante disso -  prosseguiu - é importante que haja reconhecimento estreito entre as tradições religiosas para que elas possam cumprir de maneira mais plena seu papel”, afinal, “de perto todas elas vinculam a mesma mensagem de amor e solidariedade”. Nesse sentido, ele lembrou um encontro promovido pelo Papa João Paulo II na década de 1970, “em que reuniu líderes de diferentes credos”. Para o monge, “ali ficou claro como as diferentes religiões têm a mesma mensagem”.

Fonte: Jornal O SÃO PAULO, 2 de maio de 2006

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