A Arquidiocese à luz do Concílio Vaticano II

Clero, religiosos e leigos foram chamados à maior participação na vida eclesial a partir da segunda metade dos anos 1960

Dom Paulo Evaristo Arns em visita a uma comunidade paroquial da Região Norte na época em que era Bispo Auxiliar, iniciativa que ele manteve também como Arcebispo entre 1970 e 1998 (foto: Arquivo O SÃO PAULO)

Nomeado Bispo Auxiliar de São Paulo por São Paulo VI em 1966, Dom Paulo Evaristo Arns, OFM, chegou à Arquidiocese no momento em que a Igreja Católica em todo o mundo começava a colocar em prática as deliberações do Concílio Ecumênico Vaticano II, entre as quais a de maior participação dos leigos na vida eclesial, a revitalização das práticas pastorais em diálogo com a sociedade, mas sem abdicar das verdades da fé nem deixar de anunciar que a humanidade é sempre chamada a encontrar Deus pelo caminho do amor fraterno (cf. Discurso de São Paulo VI, na última sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II, 1965).

Designado pelo Cardeal Agnelo Rossi, então Arcebispo Metropolitano, para Vigário Episcopal da Região Norte (atual Região Santana), Dom Paulo Evaristo ajudou na implementação dos ideais do Concílio. Para tal, três desafios iniciais se apresentavam, conforme relatou na autobiografia “D. Paulo Evaristo Arns – Da Esperança à Utopia”, editora Sextante: acolher fraternalmente os migrantes, motivar que os fiéis tivessem contato frequente com a Palavra de Deus – “em todas as comunidades e paróquias, costumávamos distribuir a Bíblia a preços módicos, que podia ser lida pelos alunos que iam à escola, enquanto os pais eram analfabetos” e fazer com que participassem das missas regularmente.

Padre José Arnaldo Juliano, pesquisador da história da Igreja, Capelão do Mosteiro da Luz e Pároco da Paróquia São Cristóvão, na Região Sé, morava na Região Episcopal Norte à época. Ele conta que Dom Paulo iniciou a Missão do Povo de Deus, por meio da qual “passava de comunidade em comunidade incentivando a leitura da Palavra de Deus, que respondesse às necessidades da fé e da vida do povo”. O Sacerdote destaca que o chamado a colocar os ideais do Concílio em prática se tornou ainda mais intenso após a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano de Medellín 1968, quando os bispos assumiram o compromisso de revitalização da Igreja no continente.

Ser Igreja na metrópole em expansão

“Minha preocupação pastoral voltava-se para o processo de revitalização da Igreja brotado no Concílio Vaticano II e lançado na Arquidiocese de São Paulo antes por Dom Agnelo Rossi. O amor aos paulistanos e aos imigrantes exigia que essa revitalização se alargas- se e aprofundasse, deitando raízes nos 1.905 km2 de nosso vasto território e, sobretudo, no coração de cada um dos 8 milhões de fiéis que compunham nossa Igreja particular. O povo de Deus não podia se acomodar ou desanimar numa cidade que ocupava todos os es- paços com seu dinamismo”, escreveu Dom Paulo na autobiografia, ao recordar os primeiros meses como Arcebispo, função para a qual foi nomeado por São Paulo VI em outubro de 1970.

Cônego Sergio Conrado, Professor Emérito e Doutor em Teologia Pastoral e Pároco da Paróquia São Miguel Arcanjo, na Região Sé, lembra que, ainda quando era Bispo Auxiliar, Dom Paulo formou na Região Episcopal Norte 16 grupos de estudos sobre os documentos concilia- res e com um grupo de biblistas e teólogos criou a Semana da Palavra, baseada no documento conciliar Dei Verbum.

“Foi um trabalho maravilhoso que foi adotado por grande parte da Arquidiocese: revitalizar a Igreja em São Paulo a partir da Palavra de Deus. Uma vez nomeado Arcebispo, a Palavra de Deus se tornou viga mestra do seu pastoreio. Dom Paulo encarnou o serviço do pastoreio a partir da práxis de libertação do povo. Além disso, era claro para Dom Paulo que a Igreja é o povo de Deus encarnando visivelmente a comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo em uma cidade transtornada e em conflitos”, avalia o Cônego.

Proximidade pastoral

Em um tempo no qual a divulgação das informações não ocorria de modo tão rápido como hoje e em que não havia tanta facilidade em se deslocar pela metrópole, Dom Paulo foi orientado por São Paulo VI a ter mais bispos auxiliares – houve ocasião em que havia dez bispos auxiliares na Arquidiocese –, “para que a Igreja se tornasse visível e os agentes de pastoral tivessem acesso fácil a uma autoridade capaz de decidir”, conta no já mencionado livro.

Cônego Sergio Conrado destaca que Dom Paulo Evaristo estruturou organismos para pensar e analisar a realidade do povo em São Paulo: “Para uma visão mais ampla, criou a Comissão de Ecumenismo e Diálogo Religioso da Arquidiocese (Cedra), tanto para o relacionamento entre as igrejas quanto para planejar a ação comum no campo sociopolítico, em seus aspectos éticos. A aquisição de terrenos na periferia para construção de centros comunitários foi uma marca nesta época com a ajuda da Adveniat da Alemanha”.

Ao longo do episcopado de Dom Paulo, foram feitos mais de 1,2 mil centros comunitários, como parte da Operação Periferia (leia mais na página 12). O Cônego ressalta que a maior presença da Igreja nas áreas periféricas levou ao contato com as necessidades do povo, o que resultou no surgimento de muitas pastorais sociais, “desde a Pastoral do Menor até à Mulher Marginalizada, a dos moradores de rua e outras criadas conforme as necessidades. Algumas regiões e setores também criaram diferentes pastorais sociais de acordo com a sua realidade”.

Padres, religiosos e leigos, em encontro sobre temas sociais na Região Episcopal Sul em 1976 (foto: Arquivo O SÃO PAULO)

Formação de lideranças

Uma das primeiras iniciativas do Arcebispo foi a de realizar, em 1971, um curso de animação conciliar, a partir do qual se formaram quatro grupos de aprofundamento dos diversos aspectos da evangelização, da teologia e da pastoral abordados pelo Concílio.

“Este trabalho bem distribuído e incentivado proporcionou a base estratégica para preparar sacerdotes, religiosas, religiosos e leigos. Todos estes, por sua vez, se comprometeram a refletir e a formar equipes de padres coordenadores em cada região da cidade, para despertar esta porção do povo de Deus que iria se transformar em sinal evangelizador para toda São Paulo e seus arredores”, escreve Dom Paulo na autobiografia.

Na avaliação do Padre José Arnaldo, “entre as iniciativas maiores de Dom Paulo estiveram a difusão da Palavra de Deus, por meio de grupos de reflexão, nos quais a Palavra de Deus era estudada e celebrada. Vivia-se a Comunhão e se atendia à necessidade da comunidade por meio caridade”. O Sacerdote ressalta, ainda, que todas as ações foram frutos do Concílio Vaticano II e das necessidades emergentes da Igreja em São Paulo. “Tudo agora toma um novo rosto, o rosto da Igreja do Concílio Vaticano II, não é mais o rosto apenas de uma Igreja devocional que foi envelhecendo e se fechando em si, mas sim uma ‘Igreja em saída’ como hoje fala o Papa Francisco, ou seja, a Igreja sai do centro, vai para as periferias. Tudo se realizava com o objetivo da transformação da vida eclesial e da vida social. É neste contexto que surgem as pastorais das necessidades urgentes, como as da moradia, saúde e educação”, destaca, mencionando, ainda a atuação de Dom Paulo pelo ecumenismo e o diálogo inter-religioso.

Prioridades pastorais

Ainda na primeira metade dos anos 1970, Dom Paulo conclamou o povo de Deus em São Paulo a refletir sobre as urgências para a evangelização na cidade.

O ponto de partida foi pensar a Igreja na metrópole pela Pastoral de Conjunto, que em seus eixos de ação, conforme explica o Cardeal Arns no livro autobiográfico, leva em conta a unidade dos cristãos; a formação permanente do clero, dos religiosos e do laicato; a missionariedade; um processo catequético permanente; a participação frequente na liturgia; o ecumenismo; e a dimensão social.

Em novembro de 1974, foi realizado o Ensaio de Abordagem dos Problemas de Evangelização em São Paulo. Posteriormente, um questionário de consulta foi enviado às comunidades paroquiais, e, a partir das respostas, delineou-se, no fim de 1975, as prioridades do Plano de Pastoral da Arquidiocese.

De acordo com o Cônego Sergio Conrado, este 1º Plano, que vigorou ente 1976-1978, “foi uma resposta aos anseios pastorais, sociais e políticos da população. Antes da escolha das quatro prioridades, foi feita uma enorme consulta em toda a Arquidiocese sob a seguinte pergunta: ‘O que o povo de São Paulo deseja da Igreja? Em que eu posso colaborar?’. Esta questão correu por meses com panfletos e cartazes em todas as paróquias e comunidades e diversos ambientes. No final, em grandes assembleias com o clero, religiosos e religiosas, leigos e leigas, não católicos, pessoas de diferentes níveis sociais, foram determinadas as grandes quatro prioridades: CEBs, Periferia, Mundo do Trabalho e Direitos Humanos. Esses quatro pontos envolviam muitíssimos outros e iriam ser desenvolvidos pelos planos posteriores”.

CEBs, periferia, trabalho e direitos humanos

Na seção “Encontro com o Pastor” do jornal O SÃO PAULO, entre janeiro e fevereiro de 1976, o Cardeal Arns escreveu detalhes sobre as prioridades do 1º Plano de Pastoral.

Ao falar sobre as CEBs, Dom Paulo pediu que as lideranças paroquiais pesquisassem locais onde poderiam ser instaladas e exortou que nelas se aproveitasse todas as ocasiões para o aprofundamento da fé e a formação dos agentes pastorais: “Tais comunidades de base acompanharão o ritmo da vida diária e da convivência na grande metrópole, buscando sua força no Evangelho, no Espírito, na Eucaristia, nos serviços comunitários, na relação com os pastores, num testemunho contínuo”.

Sobre a atenção com a periferia, Dom Paulo recordou que 30% da população urbana de São Paulo vivia em precárias condições de higiene, alimentação, educação e de trabalho, além de alheia às iniciativas da Igreja, razões pelas quais criou os centros comunitários. “Mesmo aqueles que pensam nada poder fazer, queiram se dispor a amar esse bom povo e a rezar por ele e, quem sabe, com ele, o programa para a periferia de São Paulo.”

No artigo a respeito do mundo do trabalho, o Arcebispo pontuou que nas empresas havia muita preocupação com o lucro e pouca atenção à dignidade do trabalhador, situação à qual a Igreja não podia estar indiferente, o que não significava resolver as causas operárias. “O que ela pode e deve fazer é aceitar o desafio de falar às consciências, de levar os homens a modificar as estruturas e de sugerir caminhos ou pistas para novos modelos de colaboração fraterna [entre patrões e empregados].”

Em relação aos direitos humanos, Dom Paulo recordou que todas as pessoas têm igual direito à saúde, educação, casa e vida comunitária dignas; e que o agir pastoral neste campo deveria ser de oposição a quaisquer violações. “Pedimos a todos os nossos colaboradores que se orientem estrita e decididamente pela Palavra de Deus e pela voz autorizada da Igreja. Assim, não agirão de maneira isolada, mas em comunidade. […] Ao pensarmos no homem, só seremos justos para com ele, se nos voltarmos para Deus. Dele é que derivam, em última análise, os direitos essenciais do homem”, escreveu.

Um olhar para a cidade do novo milênio

O 7º Plano de Pastoral, o último de Dom Paulo à frente da Arquidiocese, já na primeira metade dos anos 1990, destacava a necessidade de evangelizar a cidade por meio da Pastoral Urbana, procurando atingir, pela força do Evangelho, não só territórios geográficos, mas os critérios, os valores, centros de decisão e modelos de vida na cidade.

Cônego Sergio Conrado lembra que Dom Paulo jamais dissociou a comunidade eclesial do conjunto da cidade, “pois a Igreja está inserida na cidade com todas as suas riquezas e misérias. A reflexão sobre a Pastoral Urbana iniciada pela CNBB serviu de base para que a Arquidiocese, depois de muitas consultas às comunidades e diferentes grupos da sociedade, iniciasse o seu trabalho de missão na cidade como um todo. Teve como uma de suas motivações a renovação da vida das comunidades eclesiais por ocasião da comemoração dos 250 anos de existência da Arquidiocese (1745-1995)”, explica.

“Não há dúvida de que a Arquidiocese de hoje muito deve a Dom Paulo Evaristo, homem de fé, pastor incansável e de uma visão de futuro e de crença nos homens e nas mulheres, filhos e filhas de Deus”, conclui o Cônego.

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