
Ao publicar a encíclica Laudato si’ (LS), em 2015, o Papa Francisco conclamou toda a família humana a proteger a casa comum e almejar um desenvolvimento sustentável e integral, a partir de um renova-do diálogo sobre o futuro do planeta e de novos hábitos, em um processo permanente de educação ambiental (cf. LS 13, 14, 210 e 211).
Esse esforço de conscientização e ação é algo que “naturalmente compete também à Igreja. Todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar nesta educação. Espero que, nos nossos seminários e casas religiosas de formação, se eduque para uma austeridade responsável, a grata contemplação do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente” (LS 214).
Esta edição do Caderno Laudato si’ – Por uma Ecologia Integral se propõe a olhar para como a Igreja, em suas estruturas, tem adotado iniciativas de sustentabilidade. A este respeito, reportamos duas experiências recentes: a Usina de Triagem e Compostagem São Geraldo, do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, inaugurada em fevereiro; e o projeto “Festa Paroquial Mais Sustentável”, iniciado em 2025 em paróquias e santuários do estado do Paraná pela Pastoral da Ecologia Integral do Regional Sul 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
O cuidado com a casa comum também envolve zelar pelos ambientes naturais, uma vez que “prestar atenção à beleza e amá-la ajuda-nos a sair do pragmatismo utilitarista” (LS 215). Por essa razão, também reportamos nesta edição o Santuário Sião Jaraguá, mantido pelo Instituto Secular dos Padres de Schoenstatt em uma ampla área verde na capital paulista, no qual também se desenvolvem ações de sustentabilidade.
UM MODELO VIÁVEL DE SUSTENTABILIDADE

“Da contemplação da criação e do encontro com o Criador nasce a consciência do nosso lugar especial no maravilhoso plano de Deus e da nossa responsabilidade pessoal e coletiva no cuidado da harmonia original”, afirmou o Papa Leão XIV na missa pelo Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, em 1º de setembro, no Borgo Laudato Si’, em Castel Gandolfo.
O Borgo Laudato Si’, a propósito, foi pensado para promover a educação para a ecologia integral, a sustentabilidade ambiental e a economia circular. Ao anunciar sua criação, em fevereiro de 2023, o Papa Francisco disse que o local buscava ser uma contribuição da Igreja “para o desenvolvimento da educação ecológica”, aproveitando a beleza dos jardins de Villa Barberini e das Vilas Pontifícias de Castel Gandolfo, e que seria um “sinal concreto da aplicabilidade dos princípios” da encíclica por ele publicada sobre o cuidado da casa comum.
Na missa de inauguração do Borgo Laudato Si’, em 5 de setembro de 2025, o Papa Leão XIV sublinhou que o local “enquadra-se como uma das iniciativas da Igreja destinadas a cumprir esta ‘vocação de ser guardiões da obra de Deus’ (LS 217): uma tarefa exigente, mas bela, fascinante, que constitui um aspecto primordial da experiência cristã. O Borgo Laudato Si’ constitui uma semente de esperança que o Papa Francisco nos deixou como herança, uma ‘semente que pode dar frutos de justiça e paz’. E fá-lo-á, permanecendo fiel ao seu mandato: ser modelo tangível de pensamento, estrutura e ação, capaz de promover a conversão ecológica por meio da educação e da catequese”.
ESTRUTURAS E PROJETOS DO BORGO LAUDATO SI’

O Borgo Laudato Si’ (fotos acima) possui 55 hectares, 20 dos quais destinados à atividade agrícola: há produção de leite, vinhedos biodinâmicos desenvolvidos pela Universidade de Udine, uma grande estufa alimentada por energia fotovoltaica e um sistema de irrigação para as plantações.
Nos outros 35 hectares são mantidos jardins à moda italiana, com mais de 3 mil variedades de plantas, e está instalado um centro de alta formação voltado à educação ambiental, com cursos gratuitos de formação profissional em áreas como jardinagem, agricultura e gastronomia, alguns dos quais incluindo estágios e inserção no mercado de trabalho para jovens, migrantes, refugiados, mulheres sobreviventes de violência, desempregados, pessoas com deficiência e egressos do sistema prisional.
A experiência do Borgo Laudato Si’ e das outras iniciativas reportadas nesta edição resultam de detalhados planejamentos e do engajamento dos envolvidos. Entretanto, nem sempre as paróquias ou comunidades dispõem de pessoas e estruturas para grandes projetos. Apesar destas limitações, sempre é possível que façam algo em prol do meio ambiente: “Se tiver uma área ao ar livre, crie uma composteira ou um minhocário… Se tiver uma área ao ar livre (pode ser até uma sacada), plante espécies adequadas à situação. Inclua plantas nativas, plantas atrativas para polinizadores e plantas que não precisem de muita água”, lê-se em um dos trechos do documento ‘A Ecologia Integral na Vida da Família’, publicado este ano pelos Dicastérios para os Leigos, a Família e a Vida e para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Também os oratórios paroquiais ou espaços dos grupos de jovens “podem ser locais para implementar melhorias relacionadas ao cuidado da nossa casa comum”, consta no mesmo documento.
E por onde começar? Talvez pela conscientização sobre o uso responsável da água e da energia elétrica; também promovendo momentos formativos sobre os hábitos de consumo a fim de evitar desperdícios; ou ainda instalando lixeiras específicas para separar os resíduos orgânicos dos recicláveis; ou, quem sabe, valendo-se de técnicas de compostagem para adubar o jardim. Em sua paróquia, algumas dessas ações já estão sendo feitas? Se ainda não, sempre será boa hora para começar.

