
A cada ano, entre o final de julho e o começo de agosto, cerca de 150 mil pessoas vão ao Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, em Siqueira Campos (PR), Diocese de Jacarezinho, para participar da maior festa religiosa do estado do Paraná.
Antes de 2022, todos os resíduos gerados ao longo da festa tinham como destino o lixo comum. Desde aquele ano, porém, a Paróquia Divino Espírito Santo, à qual o Santuário é vinculado, tem feito a gestão responsável tanto dos resíduos orgânicos quanto das toneladas de plástico, papel, papelão, vidro e metais resultantes da festa, uma ação que foi potencializada em 2025, ao ser selecionada como uma das cinco participantes do primeiro edital do projeto “Festa Paroquial Mais Sustentável”, iniciativa da Pastoral da Ecologia Integral (PEI) do Regional Sul 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
ESTRUTURAÇÃO E METODOLOGIA


A meta do projeto é favorecer a correta separação e destinação dos resíduos e promover maior consciência ambiental.
A mentoria para as paróquias selecionadas é feita por etapas. Inicialmente, identifica-se a realidade de cada uma delas. Depois, as pessoas que se habilitam a ser voluntárias na festa sustentável são capacitadas para a separação dos resíduos, a divulgação da iniciativa e a sensibilização da comunidade local. Também é feito o levantamento dos materiais necessários para que se realize a coleta dos resíduos, e, ainda, o contato com cooperativas de reciclagem ou catadores autônomos que darão a correta destinação aos itens coletados.
Neste ano, no segundo edital da “Festa Paroquial Mais Sustentável”, estão contempladas seis paróquias: três em Curitiba e as demais em Mandaguari, Santa Terezinha de Itaipu e em Maringá, no Paraná.
De acordo com Fátima Langbeck, integrante da coordenação da PEI do Regional Sul 2, um dos desafios para a implantação do projeto é conscientizar as pessoas sobre o impacto ambiental do descarte incorreto dos resíduos.
“Costumamos dizer que depois que a comunidade ‘enxerga’ o problema, ela não consegue mais ignorá-lo. A partir disso, a Pastoral atua fortemente, ajudando-a a passar pelo processo do ver, julgar e agir, promovendo uma verdadeira conversão ecológica coletiva. Na prática, mostramos que as comunidades já possuem ótimas iniciativas estruturadas. Na maioria das nossas festas regionais, por exemplo, as pessoas já têm o hábito de levar seus próprios pratos e talheres, o que reduz drasticamente o uso de descartáveis de uso único. Agora, o nosso desafio cultural é incentivá-las a trazerem também os seus copos retornáveis”, detalha ao O SÃO PAULO.
Outro aspecto fundamental e igualmente desafiador é que a separação dos resíduos recicláveis e orgânicos seja feita já durante o evento. “Isso evita que o lixo se acumule de forma desordenada e torna a festa visivelmente mais limpa”, assegura Fátima.
RESULTADOS CONCRETOS


No Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, a efetivação da festa mais sustentável foi feita em parceria com o Comércio de Sucata Teixeira (CST).
“Essa indústria fez o treinamento da equipe que processava toda a reciclagem do material. Também ficou responsável pela organização e colocação dos tambores por todo o parque de festa. Fez, ainda, a conscientização das pessoas pelos meios de comunicação, e a logística de coleta e de reciclagem de todo o material”, explica o Frei Carlos Gonzaga Vieira, OFMCap., Pároco da Paróquia Divino Espírito Santo e Reitor do Santuário.
No parque de festa do Santuário foram instalados tambores para o descarte de itens recicláveis como plásticos, garrafas PET, vidros, papéis, sacolas e canudos limpos; e tambores para o descarte de orgânicos, como restos de alimentos, frutas, materiais úmidos, madeiras e embalagens com restos de comida.
Frei Carlos detalha que o incentivo para que as pessoas participassem da iniciativa ocorreu por meio de vídeos explicativos nas redes sociais e divulgações pelo sistema de som e pela rádio FM Bom Jesus.
Das mais de 6,85 toneladas de materiais coletados na festa de 2025, a maioria foi de resíduos plásticos (3,81 toneladas), seguida de papel e papelão (2,45 toneladas), vidro (257,6 kg), metais não ferrosos (205 kg) e metais ferrosos (120 kg). “Todo este material reciclado foi vendido, e, assim, até se tornou uma fonte de renda para a festa, que investimos em ações de conscientização e em materiais de limpeza”, explica o Frade.
Na festa do Santuário deste ano, novamente foram montadas as estruturas para o descarte dos resíduos e sua correta destinação.
MANUAL DA FESTA PAROQUIAL + SUSTENTÁVEL

Além da mentoria das festas, a PEI do Regional Sul 2 lançou em 2025 o “Manual da Festa Paroquial + Sustentável”, um subsídio no qual são apresenta-das as diretrizes para a organização deste modelo de festa nas paróquias.
“Poucos dias após a divulgação do Manual, co-meçamos a ser procurados por dioceses do Norte e do Nordeste do País, bem como de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Tem sido muito gratificante ver nossa iniciativa sendo mencionada como referência em eventos de outros regionais da CNBB. Esse retorno nos trouxe uma alegria profunda, pois sentimos que estamos vivendo, na prática, o conceito de ser uma ‘Igreja em saída’. Inclusive, já identificamos várias dioceses de fora do Paraná que estão aplicando dinâmicas e ações inspiradas diretamente no modelo do nosso Manual”, assegura Fátima Langbeck.
Ela detalha, ainda, que no ano passado, além das cinco paróquias que receberam a mentoria, outras aplicaram as orientações do Manual. “Com isso, fechamos o ano de 2025 com o registro de 18 festas paroquiais sustentáveis realizadas em oito cidades diferentes”, afirma, destacando o saldo do primeiro ano do projeto: mais de 26 toneladas de resíduos foram recolhidas e, desse total, 51% deixaram de ir para aterros sanitários. Além disso, foi evitada a geração de 980,68 kg de CO₂ graças ao processo de compostagem de resíduos orgânicos.
A experiência do projeto está relatada no artigo científico “Ecologia Integral em Prática: a experiência educativa do projeto Festa Paroquial Mais Sustentável no Paraná frente à crise climática”, de autoria de Fátima Langbeck, Rívea Medri Borges e Letícia Framesche, publicado na Conecte-se! – Revista Interdisciplinar de Extensão da PUC-Minas.
No Instagram da Pastoral da Ecologia Integral do Regional Sul 2 (@ecologiaintegralsul2) é possível fazer o download do “Manual da Festa Paroquial + Sustentável” e do referido artigo científico, bem como encomendar exemplares de duas cartilhas lançadas neste ano e que são voltadas ao público infantojuvenil na catequese: “Água: Dom da Criação e Fonte de Vida” e “Cartilha Laudato Si”.

