
Em um passo histórico para a Igreja Católica na maior nação católica da Ásia, a Conferência Episcopal Católica das Filipinas colocou a saúde mental no centro de sua preocupação pastoral, apelando tanto às comunidades da Igreja quanto à sociedade em geral para que abandonem concepções errôneas prejudiciais e criem uma cultura na qual buscar ajuda seja visto não como um sinal de fraqueza espiritual, mas como um ato de coragem.
A carta pastoral, aprovada durante a 132ª assembleia plenária dos bispos e divulgada no dia 13, marca a primeira vez que o episcopado filipino dedica um documento pastoral nacional especificamente à saúde mental. Mais do que uma simples declaração, ela reflete a crescente preocupação entre os bispos do país com o que muitos descrevem como uma crise cada vez mais visível, mas ainda amplamente negligenciada.
A mensagem dos bispos começa com o reconhecimento de que o sofrimento psicológico muitas vezes permanece oculto. Ansiedade, depressão, vícios, solidão, luto e desespero frequentemente se manifestam a portas fechadas, enquanto a incerteza econômica, a migração, a desestruturação familiar, o desemprego e as dívidas exorbitantes intensificam ainda mais os fardos emocionais. Em um país em que milhões de famílias vivenciaram a separação prolongada devido ao trabalho no exterior, a conexão entre as pressões sociais e o bem-estar mental é particularmente significativa.
Ao insistirem que a doença mental não é um castigo divino nem evidência de fé insuficiente, os bispos desafiam diretamente crenças que persistem há gerações em alguns setores da sociedade filipina. Essas ideias costumam florescer onde a religiosidade popular, as práticas folclóricas tradicionais e a superstição se cruzam, levando algumas famílias a buscar remédios exclusivamente espirituais ou tradicionais, enquanto adiam o tratamento profissional.
Os bispos apresentam uma visão distintamente católica que abrange tanto a fé quanto a ciência. Eles enfatizam que o cuidado médico e psicológico não são alternativas à assistência divina, mas podem ser os próprios meios pelos quais a cura de Deus alcança aqueles que sofrem. Médicos, psicólogos, terapeutas e outros profissionais de saúde merecem gratidão em vez de suspeita.
A intervenção eclesiástica ocorre em um contexto estatístico preocupante. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde Mental e Bem-Estar das Filipinas, de 2021, aproximadamente 14% dos adultos filipinos já vivenciaram pelo menos um transtorno mental ao longo da vida. Cerca de 8% relataram pensamentos suicidas e, entre esses indivíduos, mais de um em cada cinco tentou suicídio pelo menos uma vez. No entanto, apenas cerca de 5% das pessoas com transtornos mentais buscaram serviços profissionais de saúde mental, o que evidencia uma enorme lacuna entre a necessidade e o tratamento.
Notavelmente, os bispos estendem sua análise da saúde mental ao âmbito digital. Embora reconheçam as relevantes oportunidades criadas pela tecnologia e pela inteligência artificial, especialmente para os jovens, eles também alertam para as consequências mais sombrias de uma cultura digital acrítica. O cyberbullying, a comparação social, as bets, o vício, a ansiedade e o isolamento social são identificados como ameaças emergentes que exigem atenção pastoral e social.
Talvez a parte mais impactante do documento diga respeito às famílias que perderam entes queridos por suicídio. Em um gesto que provavelmente terá grande repercussão em todo o país e no mundo, os bispos reconhecem abertamente que alguns familiares enlutados se sentiram incompreendidos ou até mesmo rejeitados dentro da Igreja. Eles oferecem um pedido de desculpas explícito àqueles que sofreram tal tratamento e lembram ao clero que a disciplina católica atual permite ritos funerários para aqueles que tiraram a própria vida.
Este esclarecimento é importante porque as memórias de práticas antigas ainda persistem em algumas comunidades. Citando o Catecismo da Igreja Católica, os bispos enfatizam que o sofrimento psicológico intenso pode diminuir a responsabilidade pessoal e que os cristãos jamais devem perder a esperança na salvação eterna daqueles que morreram por suicídio. A ênfase não está no julgamento, mas na misericórdia, na consolação e na esperança.
Ao mesmo tempo, os bispos reafirmam o ensinamento consistente da Igreja sobre a santidade da vida humana, e sua abordagem pastoral busca, portanto, conciliar dois princípios frequentemente apresentados como opostos no debate público: uma defesa inabalável da vida e uma profunda compaixão por aqueles que lutam contra doenças mentais ou pensamentos suicidas.
Fonte: Conferência Episcopal Católica das Filipinas e Crux Now




