Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

‘Freiras empreendedoras’: a criatividade de mulheres de Deus que ajuda a sustentar a missão

‘Freiras empreendedoras’: a criatividade de mulheres de Deus que ajuda a sustentar a missão - Jornal O São Paulo
Irmã Doris Engelhard, Mestra Cervejeira
Reprodução internet

Certas religiosas não estão necessariamente aban­donando o tradicional “ora et labora”; pelo contrário, estão trazendo o antigo princípio beneditino para o século XXI. Como “freiras empreendedoras”, elas estão se dedicando a lojas on-line, mídias sociais, marke­ting, agricultura sustentável, produtos artesanais e ges­tão de negócios, porém com um propósito distinto se comparado ao dos empreendimentos convencionais: em vez de focar o enriquecimento pessoal, buscam sustentar uma comunidade, preservar um patrimônio, financiar obras apostólicas e sociais e, assim, dar conti­nuidade a uma missão.

Na Espanha, a Irmã Marta González, religiosa be­neditina do Convento de Santa Cruz de Sahagún, em León, concilia a vida contemplativa com um empreen­dimento comercial moderno. Em seu convento, produ­zem-se doces artesanais, sabonetes, protetores labiais e cremes, que são vendidos – inclusive internacional­mente – por meio de sua loja on-line. Ela também uti­liza o YouTube e o TikTok para compartilhar o cotidiano do convento, tendo construído uma comunidade de quase 200 mil seguidores. É um exemplo mag­nífico de como uma freira enclausurada pode utilizar o comércio eletrônico e as mídias sociais sem abandonar sua identidade contemplativa.

Um dos casos mais surpreendentes é o da Irmã Doris Engelhard, uma freira franciscana da Abadia de Mallersdorf, na Baviera, Alemanha. Ela é uma mestra cervejeira que produz a bebida para o convento há dé­cadas; o jornal L’Osservatore Romano observou que ela atingiu uma produção anual de aproximadamente 300 mil litros. Para a freira, trabalhar e produzir cerveja também pode ser uma forma de servir a Deus.

Os mosteiros italianos também atuam nos setores de beleza, agricultura e produção de alimentos. As frei­ras trapistas de Vitorchiano administram uma ofici­na de cosméticos e se dedicam a atividades agrícolas, enquanto outras comunidades produzem pão, azeite, cereais e outros produtos. Algumas comunidades até criaram marcas compartilhadas para que produtos de diferentes conventos possam chegar ao mercado sob uma identidade unificada.

‘Freiras empreendedoras’: a criatividade de mulheres de Deus que ajuda a sustentar a missão - Jornal O São Paulo
Cerveja desenvolvida na Abadia de Meredret
Reprodução internet

Na Bélgica, as freiras da Abadia de Maredret de­senvolveram uma cerveja artesanal como forma de arrecadar fundos para os esforços de preservação do convento. No entanto, elas não se limitaram a sim­plesmente vender um produto; transformaram a his­tória e a identidade da abadia em parte da marca. As receitas incorporam plantas associadas ao jardim do convento, como zimbro, coentro e sálvia. Isso desta­ca um conceito muito moderno: o empreendedoris­mo como ferramenta para a preservação do patri­mônio religioso.

Esse fenômeno é ainda mais evidente na África. Iniciado há seis anos, o “Projeto de Valor Integrado das Irmãs” capacita religiosas católicas de cinco países (Maláui, Quênia, Tanzânia, Uganda e Zâmbia) em gestão de negócios, finanças, acesso a mercados e em­preendedorismo social. Há projetos agrícolas, que in­cluem fazendas, produção de alimentos e oficinas.

Um caso específico no Quênia começou com um grupo de religiosas que fabricava uniformes escola­res; após receber treinamento em gestão, elas vence­ram uma licitação e garantiram um contrato com uma universidade para produzir becas de formatura. Outro exemplo queniano vem das Irmãs de Nossa Senhora das Missões, que utilizaram módulos de reaproveita­mento de espaço para reformar salas vazias e trans­formá-las em uma clínica de internação com 34 leitos, gerando receita operacional estável para a construção de uma futura maternidade.

‘Freiras empreendedoras’: a criatividade de mulheres de Deus que ajuda a sustentar a missão - Jornal O São Paulo
Religiosas presentes em formação sobre empreendorismo
Escola de Negócios da Universidade de Strathmore

Na vila de Upendo, na Tânzania, religiosas lança­ram uma empresa comercial de purificação de água. Os lucros da venda da água engarrafada financiam di­retamente bolsas de estudo locais e microcréditos para o combate à pobreza.

Esses exemplos mostram que há religiosas em todo o mundo que, sem abandonar sua vocação contem­plativa, buscam colocar a criatividade, as habilidades organizacionais e os novos recursos para sustentar a missão que receberam. Para elas, o empreendedorismo torna-se um meio de cultivar a oração, a vida comuni­tária e o serviço a Deus e aos irmãos.

Fontes: Zenit News e Escola de Negócios da Universidade de Strathmore (Quênia)

Deixe um comentário