Gestão do lixo: O que aprender com a comunidade internacional

Gestão do lixo: O que aprender com a comunidade internacional, Jornal O São Paulo
UNEP GRID Arendal/Lawrence Wislop

Embora a correta destinação de todos os resíduos sólidos produzidos no Brasil ainda se apresente como um objetivo a ser alcançado, a experiência internacional tem demonstrado que algumas ideias podem se tornar soluções aplicáveis por aqui. A seguir, o jornal O SÃO PAULO apresenta algumas dessas iniciativas bem-sucedidas, divulgadas pelas agências da Organização das Nações Unidas (ONU), imprensa especializada e pela empresa Ouro Verde, que atua no tratamento de resíduos sólidos no Distrito Federal. 

ALEMANHA 

Líder mundial em tecnologias e políticas de resíduos sólidos, a Alemanha quer alcançar, até o fim desta década, a recuperação completa dos resíduos sólidos urbanos, zerando a necessidade de envio aos aterros sanitários (hoje, o índice já é inferior a 1%). Desde junho de 2005, a remessa de lixo doméstico sem tratamento ou da indústria em geral para os aterros está proibida. 

Entre 2002 e 2010, o total de resíduos urbanos domésticos produzidos pela Alemanha caiu de 52,8 milhões para 49,2 milhões de toneladas. Em 2011, de acordo com o Eurostat, órgão de estatísticas da União Europeia, 63% de todos os resíduos urbanos foram reciclados na Alemanha (46% por reciclagem e 17% por compostagem), contra uma média continental de 25%. Se entre seus vizinhos, 38% do lixo acaba em aterros sanitários, na Alemanha a taxa é virtualmente zero, graças, em grande parte, ao fato de que oito a cada dez quilos do lixo não reaproveitado são incinerados, gerando energia. 

Em 1970, a Alemanha tinha cerca de 50 mil lixões e aterros sanitários. Hoje, são menos de 200. A cadeia produtiva de resíduos emprega mais de 250 mil pessoas. Estima-se que 13% dos produtos comprados pela indústria alemã sejam feitos a partir de matérias-primas recicladas. Várias universidades oferecem formação em gestão de resíduos, além de cursos técnicos profissionalizantes. 

CINGAPURA 

Em pouco mais de 50 anos, após passar por um processo de intensa modernização, Cingapura teve que encarar as consequências desse rápido progresso: a demanda por recursos fez com que a poluição e o lixo produzidos alcançassem níveis alarmantes. 

A quantidade de resíduos sólidos gerados aumentou consideravelmente de 460 mil toneladas, na década de 1970, para 3,125 milhões de toneladas em 2016. Em 2021, a quantidade total desses resíduos – que incluem papel, plástico, vidro e têxteis – aumentou 18% em relação ao ano anterior, atingindo 6,944 milhões de toneladas, o que representa mais de 19 mil toneladas de lixo sólido por dia. 

A adoção de mecanismos para contornar o problema com o lixo começou com o trabalho de conscientização que abrangeu tanto a população quanto as empresas, indústrias e comércio, fazendo com que o país inteiro aprendesse a separar o lixo produzido, que depois é coletado e reciclado. Os resíduos provenientes desse processo são levados a usinas para incineração, reduzindo 90% o volume de lixo sólido, produzindo-se energia capaz de acionar turbinas que geram eletricidade. 

As cinzas provenientes do lixo sólido incinerado e até mesmo os dejetos não incineráveis são levados a estações de transformação e, depois, a uma ilha artificial sobre o mar, que, de tão ecológica, se tornou o lar de mais de 700 espécies de plantas e animais em perigo de extinção. 

JAPÃO 

Junto com o crescimento econômico, a partir da década de 1960, o Japão se viu diante do desafio de encontrar um destino para o lixo. Graças a uma série de iniciativas, tornou-se um dos países mais avançados nesse campo. 

Em 1970, entrou em vigor a Lei de Gestão de Resíduos, primeiro passo em direção ao atual sistema, que envolve toda a cadeia da produção e destinação do lixo, encarada a partir dos conceitos de reduzir, reciclar e reaproveitar. O transporte foi aperfeiçoado, com um sistema de estações de transferência, em que o lixo passa de caminhões pequenos ou médios para veículos coletores maiores, após ser comprimido. 

Desde 1997, as emissões de dioxinas e outros poluidores de usinas de incineração foram reduzidas 98%. São mais de 1,2 mil usinas em atividade, a maioria adaptada ao conceito de alto controle de poluição e alta eficiência energética. Uma dessas usinas, por exemplo, fica no populoso distrito de Shibuya, em Tóquio, e processa 200 toneladas diárias de lixo, gerando energia usada na própria cidade. 

Garrafas PET são produzidas no Japão a partir de 100% de resina reciclada, reduzindo 90% o uso de novos plásticos e 60% as emissões de dióxido de carbono. A resina é usada também em material de construção, móveis, equipamentos e utensílios. 

PERU 

Há 14 anos, a Ciudad Saludable (Cidade Saudável) – uma organização peruana voltada à preservação do meio ambiente por meio da gestão de resíduos sólidos –, consegue excelentes resultados a partir de soluções que se adaptam às necessidades de cada localidade. 

A organização aplica alguns parâmetros básicos, como assegurar que, mesmo quando terceirizados, os serviços de remoção sejam coordenados por funcionários públicos; combater o despejo ilegal de lixo; promover campanhas educativas para pessoas e instituições; fixar rotinas de coletas organizadas pelas comunidades em microempresas de reciclagem; e criar fazendas orgânicas nas quais agricultores são treinados no uso de compostagem. 

Um dos grandes problemas do país é não aproveitar bem o resíduo orgânico. Lima, capital peruana, produz 8 mil toneladas diárias de lixo doméstico (um terço do total nacional), das quais 55% são matéria orgânica; e concentra quatro dos nove aterros sanitários do Peru, ainda assim insuficientes para acomodar os resíduos produzidos. Por isso, a reciclagem tem sido muito incentivada, e cerca de 300 municípios já adotam a coleta seletiva, graças a incentivos federais. Com isso, no ano passado foram recuperadas mais de 10 mil toneladas de recicláveis por mês no país, mais que o triplo do alcançado apenas três anos antes. 

SUÉCIA 

A Suécia tem uma geração relativamente alta de lixo (1,6kg por dia per capita) e, por isso, a gestão de resíduos sólidos vem sendo encarada, há décadas, como prioridade. 

Uma das mais inovadoras iniciativas começou em 1961. Em Estocolmo, a capital, em que 100% dos domicílios contam com coleta seletiva, as residências dispõem de lixeiras conectadas a uma rede de tubos que conduzem os resíduos a uma área de coleta. Um sensor instalado detecta quando a lixeira está cheia e, por meio de um sistema a vácuo, o lixo é sugado e transportado para o local de acumulação de resíduos, onde é realizado a coleta seletiva. 

Sacos de lixo podem ser depositados, a qualquer momento, nos coletores de recicláveis e não recicláveis. Pela sucção, os sacos viajam a uma velocidade de 70 km/h pela rede subterrânea de tubos. Ao chegarem à central, são separados e compactados em contêineres, de onde seguirão para reaproveitamento, compostagem, incineração, entre outros. O ar que circula no sistema de tubos passa por filtros antes de retornar à atmosfera. 

As vantagens são evidentes: os diferentes tipos de resíduos não são misturados durante a coleta; o número de caminhões de lixo em circulação é menor; a poluição sonora e atmosférica é reduzida; e, finalmente, há uma economia de 30% a 40% dos gastos municipais com o serviço de coleta. 

Deixe um comentário