Migrantes brasileiros relatam como vivem a fé em meio à pandemia no exterior

No Brasil, os católicos se adaptaram em meio a restrições e flexibilizações que afetaram diretamente sua prática religiosa

Reprodução da internet

Que a pandemia que perdura por mais de um ano trouxe desafios em vários âmbitos, inclusive para a vivência da fé, não é novidade. No Brasil, os católicos se adaptaram em meio a restrições e flexibilizações que afetaram diretamente sua prática religiosa, o que exigiu muita criatividade, paciência e perseverança.

Essa situação, obviamente, não se limitou ao Brasil. Por isso, O SÃO PAULO ouviu brasileiros que vivem no exterior. Eles relataram como têm enfrentado tais desafios em outras terras. Um desses grupos é o dos brasileiros nos Estados Unidos, onde há grandes comunidades organizadas em apostolados ligados a paróquias locais. Outro país é o Japão, que possui uma pequena comunidade católica protagonizada em grande parte pelos brasileiros.

REDE DE APOIO

Rosana Szvarca mora há mais de 20 anos nos Estados Unidos e atualmente participa da comunidade brasileira ligada à Paróquia São Judas, na Arquidiocese de Atlanta, na Geórgia. Além de assistente administrativa, ela é catequista e responsável pelo ensino religioso na comunidade.

“Quando houve a restrição total das atividades, em meados de março do ano passado, nós nos dividimos em grupos e começamos a entrar em contato com todos os paroquianos, a começar pelos mais idosos, que estariam possivelmente mais sozinhos, e nos colocamos à disposição para conversar, rezar ou até para fazer uma compra no mercado”, contou.

A partir de junho, houve a retomada gradual das atividades presenciais nas igrejas, seguindo os protocolos sanitários e a capacidade limitada de fiéis e missas campais.

“Estamos criando caminhos para passar por este tempo. Nossa esperança é que, no próximo ano letivo, que aqui começa em setembro, possamos retomar a Catequese de crianças e adultos de forma presencial ou, ao menos, de forma híbrida, integrando encontros presenciais e on-line”, acrescentou Rosana.

APOSTOLADO VIRTUAL

O construtor Márcio Anderson André, 49, vive na cidade de Holliston, em Massachusetts. Ele e a esposa, Laiane André, coordenam o apostolado da Capela das Santas Chagas, na Paróquia Santa Brígida, pertencente à Arquidiocese de Boston, que realiza um intenso trabalho pastoral com os imigrantes brasileiros. “Com as igrejas fechadas, passamos a rezar o Terço on-line e continuamos com essa prática todas as terças-feiras”, relatou.

Ao contrário do ano passado, a comunidade pôde celebrar o Tríduo Pascal presencialmente na igreja. No Domingo de Páscoa, houve uma missa campal diante do Santuário de Nossa Senhora de Fátima da cidade. “Desde que reabriram as igrejas, não abrimos mãos das missas dominicais”, disse Márcio André, reconhecendo que a atual situação só é possível porque foram respeitadas as recomendações na fase mais crítica da pandemia.

IMPACTO ECONÔMICO

Padre Raphael Colvara Pinto, 42, chegou aos Estados Unidos em fevereiro de 2020, um mês antes do agravamento da pandemia no país. Ele atua na Paróquia São Carlos Borromeu, em Woburn, Massachusetts, e relatou que a situação na região de Boston foi bastante dramática no ano passado.

“Por ser uma comunidade de imigrantes, as pessoas foram muito afetadas pelos impactos da pandemia, especialmente com a falta de trabalho. A vida, aqui, é extremamente cara e, como muitos imigrantes não possuem documentação regularizada, não dispõem do amparo social que o governo deu aos residentes documentados.”

Ainda de acordo com o Padre, a Arquidiocese de Boston tem seguido rigorosamente as orientações do governo. “Há uma rede de apoio que trabalha de maneira integrada. É verdade que isso não se deu em todo o país. Boston se distingue por ter as principais universidades dos Estados Unidos (Harvard, MIT, Boston University, Boston College…), sendo um centro de pesquisa e de saúde internacional”, frisou.

WEB RÁDIO

Na Paróquia São Tarcísio, em Framingham, Massachusetts, o Pároco, Padre Volmar Scaravelli, teve a iniciativa de criar uma web rádio voltada para os imigrantes, ao perceber a necessidade de estreitar o contato com a comunidade em meio ao isolamento social.

Com uma programação de 24 horas diárias, o canal é mantido pelos membros do apostolado brasileiro da comunidade. “O principal objetivo é levar um pouco da fé, da esperança e da caridade, por meio do anúncio da Palavra de Deus, num momento tão difícil”, afirmou Juliana Campos, 37, diretora da web rádio.

DO OUTRO LADO DO MUNDO

A dona de casa Kelly Takahashi, 43, frequenta a Paróquia dos 26 Mártires do Japão, na cidade de Sano, que pertence à Diocese de Saitama. Ela contou que, em alguns estados, há um aumento de casos, sobretudo nos locais mais turísticos. No entanto, os japoneses estão conseguindo controlar a situação.

“Já estão acostumados, são bem organizados, respeitam as regras do uso de máscaras, higienização das mãos, temperatura corporal, nas escolas, hospitais, fábricas, lojas. Em todo local que recebem pessoas, são obrigatórias essas regras, inclusive nas igrejas”, disse.

“Na Diocese de Saitama, as missas presenciais retornaram no dia 21 de abril. Foi uma alegria muito grande”, afirmou, enfatizando que a celebração da Páscoa este ano foi marcada por muitas emoções. “Celebramos a Ressurreição de Jesus em meio a essa pandemia, as perdas de amigos, parentes. Foi um convite ao nosso renascimento e para que a nossa fé em Jesus seja grandiosa, que possamos confiar sempre Nele”, manifestou.

ESPERANÇA

O operador de máquina Renan Yudi Fukuyama, 28, relatou que, este ano, a Solenidade da Páscoa teve um sentido especial, pois celebraram a Ressurreição do Senhor após um período marcado por sofrimento e angústia.

“Eu tenho fé que se estamos aqui, agora, lutando contra a pandemia, é porque Deus quer que superemos essa tribulação e nos aproximemos cada vez mais da santidade eterna”, disse Fukuyama.

Assim como em outros lugares, os católicos brasileiros no Japão recorreram às plataformas digitais para cultivar a fé e deram ênfase maior à oração em casa, em família. Para Kelly, a conexão estreitou ainda mais os laços da comunidade de imigrantes brasileira dispersa, que pôde solidificar sua identidade católica em um país onde, além de serem estrangeiros, são uma minoria religiosa.

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