Milhões de africanos migram todos os anos; a Igreja vai ao encontro dos que sofrem

Milhões de africanos migram todos os anos; a Igreja vai ao encontro dos que sofrem
UNHCR

Todos os anos, milhões de africanos deixam seus países e partem para regiões vizinhas. Os principais motivos são a pobreza, os conflitos armados e os desastres naturais, como as secas. Somente em 2019, mais de 33,4 milhões de pessoas tiveram que migrar, de acordo com os dados mais recentes do Centro de Monitoramento do Deslocamento Interno (IDMC, na sigla em inglês).

A pandemia de COVID-19 mudou bastante esse cenário, mas ele permanece dramático. No ano passado, 43 dos 54 países da África fecharam suas fronteiras por causa do coronavírus, colocando grande pressão sobre os migrantes e refugiados, que ficaram limitados em sua capacidade de locomoção.

Muitos foram forçados a tomar rotas mais perigosas ou, simplesmente, a suportar uma situação de sofrimento ou carência. Segundo o Centro Africano para Estudos Estratégicos (African Center), aumentou o risco de tráfico de pessoas – pois os migrantes ficam sem saídas regulares –, o número de pessoas em centros de detenção e a deportação nos países que recebem mais migrantes.

Os conflitos armados em 50 países da África levaram ao deslocamento de 8,5 milhões de pessoas em 2019. Entre os líderes nesta lista estão a República Democrática do Congo, com 1,7 milhão de pessoas, e a Etiópia, com mais de 1 milhão. Somente a África Subsaariana registrou 4,6 milhões de novos deslocamentos naquele ano.

Diferença entre migrantes e refugiados

Nem sempre é fácil determinar o motivo exato que leva um grupo de pessoas a migrar. No vocabulário das Relações Internacionais, no entanto, há diferenças entre os conceitos de “migrantes” e “refugiados”. Os migrantes se movem, em grande parte, na busca de um trabalho ou de uma situação de vida melhor – uma busca que a Igreja considera legítima no princípio de “desenvolvimento humano integral”.

Os refugiados, porém, são precisamente pessoas que fogem de conflitos armados e da perseguição. São obrigados a migrar por causa de uma situação intolerável – esse status é reconhecido pelas Nações Unidas. Eles devem ser protegidos, conforme a lei internacional, por qualquer um que os receba, onde quer que seja.

Muitas instituições da Igreja trabalham nesse sentido, o de garantir os direitos dos refugiados de um acolhimento digno e proteção. Na maioria das vezes, eles não podem voltar para casa e precisam de asilo.

No caso do continente africano, por exemplo, a Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN) apoia diversas iniciativas. Uma delas é em Uganda, o Centro Emaús, que acolhe refugiados do Sudão do Sul.

“Mais de 1 milhão de refugiados do Sudão do Sul hoje vivem em Uganda”, diz Gabriel Oriohod, coordenador de programas do Centro Emaús. “Cerca de 270 mil estão no campo Bidbidi. Muitos estão traumatizados. Dar-lhes comida e cuidados de saúde não é suficiente: nosso programa busca curar as feridas, trazer cura às suas almas e partilhar com eles o amor de Deus”, afirma.

Mal-entendido sobre a migração na África

A maioria dos migrantes africanos fica dentro do continente e tem planos de voltar para o país de origem. Um artigo no “Africa Mig r a t i o n  R e p or t” publicado em 2020 pela O r g a n i z a ç ã o Internacional para Migração (IOM), aponta que há alguns grandes mal-entendidos no Ocidente quando se fala do fenômeno no continente africano.

O primeiro deles é o fato de que a maioria dos africanos não está atravessando mares e oceanos – como nas fortes cenas de embarcações superlotadas que viajam no Mediterrâneo rumo à Europa. Em vez disso, eles viajam longos percursos por terra, dentro da própria África. “Eles se movem em busca de oportunidades e, às vezes, em busca de segurança”, diz o texto, assinado por Maureen Achieng (IOM) e Amira El Fadil (African Union Commission).

Esse deslocamento é histórico e típico das culturas africanas – de onde, aliás, se entende que saíram os primeiros seres humanos. Outra informação muito desconhecida é a de que mais de 90% dos migrantes que deixam o continente africano são legais no país que os acolhe e têm planos de retornar a seus países de orígem.

Em muitos casos, fala-se da migração voluntária, motivada por oportunidades econômicas em outros países. “Muitos destes são mulheres que simplesmente estão buscando ganhar a vida”, diz o documento. Além disso, a África corresponde a somente 14% da população migrante do mundo, enquanto a Ásia atende por 41% e a Europa, 24%.

Compartilhar a viagem

Há quatro anos, a Cáritas Internacional lançou a campanha “Comp a r t i l h e a viagem”, que buscou h u m a n i z a r a jornada de migrantes e refugiados de todo o mundo.

Precisamos superar a fronteira do medo”, disse o Cardeal Luis Antonio Tagle, Presidente da Cáritas, na terça-feira, 15. “Temos que tratá-los com a convicção de que não são só números, mas pessoas com nomes, histórias e sonhos, e ver neles Jesus que, quando criança, se tornou um refugiado no Egito com seus pais.”

No evento de conclusão da campanha, a Irmã Maria de Lurdes Lodi Rissini, Coordenadora Nacional da Cáritas África do Sul, recordou que o país é um dos principais destinos de migrantes de toda a África. “Recebemos migrantes do Lesoto, Zimbábue, Moçambique, Zâmbia, Angola, Malawi, Essatíni (antiga Suazilândia), além de milhares de refugiados da República Democrática do Congo e da Somália”, disse.

Segundo ela, muitos entram e saem da África do Sul por motivos de trabalho, estudo ou de saúde. “O país também encontra dificuldades com milhares de pessoas sem documentos e sem um estado”, acrescentou. A maioria dos migrantes e refugiados tem trabalhos informais e ainda sofre com a xenofobia e o medo dos sul-africanos, que pensam ter seus empregos ameaçados pela chegada de estrangeiros.

“Trabalhamos para integrá-los à sociedade”, conta a religiosa. Por exemplo, oferecem-lhes casas temporárias para os que procuram emprego, ensinam a língua inglesa e ajudam mulheres que são abandonadas pelo marido – muitos formam novas famílias após migrar.

Como explicou o Monsenhor Bruno- -Marie Duffé, Secretário do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, a visão da Igreja sobre a migração é de que essas pessoas têm “uma história, uma memória, uma terra e uma dignidade inalienável”.

Compartilhar a viagem é, portanto, entender “o que temos em comum com eles” nas quatro palavras que o Papa Francisco usa para promover os direitos dos migrantes e refugiados, que são “acolher, proteger, promover e integrar”.

Segundo Monsenhor Duffé, é preciso combater as causas que obrigam as pessoas a migrar: a guerra, a pobreza, a desigualdade, a corrupção, o tráfico, o abuso e a negligência política. Além disso, deve-se proteger o “direito primário de ser acolhidos”, que está ligado ao “direito de voltar para a própria terra, para ali viver em paz”.

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