
Cinco anos após manchetes em todo o mundo anunciarem a descoberta de restos mortais de 215 crianças indígenas na antiga Escola Residencial de Kamloops, administrada pela Igreja Católica entre 1890 e 1969, o Canadá se depara com uma questão incômoda: o que acontece quando uma narrativa adotada por políticos, veículos de comunicação e instituições públicas avança mais rápido do que as evidências?
A questão voltou à tona depois que o The Globe and Mail, um dos jornais mais influentes do país, publicou um editorial notável, reconhecendo o que descreveu como uma falha jornalística na cobertura do caso Kamloops. O jornal admitiu que organizações de mídia, incluindo sua própria redação, falharam em grande parte ao examinar criticamente as alegações iniciais de que levantamentos com radar de penetração no solo haviam confirmado a presença de restos mortais de crianças.
Segundo o veículo, o anúncio inicial da Primeira Nação Tk’emlúps te Secwépemc, em 2021, referia-se à “confirmação” dos restos mortais de 215 crianças com base em anomalias subterrâneas detectadas por tecnologia de radar. No entanto, cinco anos depois, nenhuma confirmação pública com tal teor foi apresentada no local em Kamloops.

A admissão é significativa porque os relatos originais rapidamente se tornaram uma das histórias mais influentes na vida pública canadense moderna. Na ocasião, além da imprensa, os líderes políticos reagiram imediatamente. O então primeiro-ministro Justin Trudeau descreveu a descoberta como uma ‘‘lembrança dolorosa’’ de um ‘‘capítulo sombrio e vergonhoso’’ da história canadense.
‘‘Nosso país falhou com as centenas de crianças que estão enterradas no terreno de uma antiga escola residencial em Kamloops. Essa é a verdade. Não podemos fechar os olhos e fingir que isso nunca aconteceu’’, afirmou ao Parlamento canadense.
O discurso público passou a adotar termos como “valas comuns” e “sepulturas sem identificação”, antes mesmo de qualquer verificação forense ter sido realizada, e o primeiro-ministro pediu publicamente à Igreja Católica que assumisse a responsabilidade, solicitando aos católicos de todo o país que a pressionassem a divulgar os registros das escolas residenciais.
Em 2022, em visita ao país, o Papa Francisco fez um pedido formal de perdão aos sobreviventes dos supostos abusos cometidos contra crianças indígenas em internatos católicos e considerou a necessidade de haver uma “investigação séria” para o caso.
No entanto, à medida que as investigações subsequentes avançavam, a certeza gradualmente deu lugar à ambiguidade. Em 2025, após cerca de 8 milhões de dólares canadenses terem sido gastos em investigações e buscas, as autoridades ainda não haviam confirmado publicamente a descoberta de restos mortais em Kamloops.

As consequências da reportagem original foram muito além do jornalismo. A partir de 2021, uma onda de ataques teve como alvo locais de culto cristãos em todo o Canadá. Mais de 120 igrejas – a maioria católicas, embora algumas igrejas protestantes e sinagogas também tenham sido afetadas – foram incendiadas, vandalizadas ou profanadas. Muitas das igrejas destruídas serviam às próprias comunidades indígenas, criando uma dolorosa ironia: instituições que se tornaram parte da vida espiritual e cultural indígena local estavam entre as vítimas da reação violenta.
Vários desses crimes permanecem sem solução. Um dos exemplos mais dramáticos recentes ocorreu em fevereiro deste ano, quando a histórica Igreja Católica de São Paulo, em Montreal, foi praticamente destruída por um incêndio. Os investigadores ainda não determinaram a causa.
A frustração com a falta de respostas levou a ações fora dos círculos governamentais. O Democracy Fund, uma organização jurídica canadense focada em liberdades civis e responsabilidade democrática, lançou o que descreve como a primeira investigação forense independente sobre mais de 120 ataques a igrejas e sinagogas desde 2021. Espera-se que os peritos revisem aproximadamente cem relatórios de investigação de incêndio e, por fim, publiquem suas conclusões.
O maior desafio que o Canadá enfrenta hoje não é se ocorreram injustiças históricas. O debate emergente, na verdade, diz respeito a como as sociedades democráticas buscam a verdade e a reconciliação. Como o próprio título do editorial do jornal The Globe and Mail afirma, sem verdade não há reconciliação.
Fontes: Zenit News, The Catholic Register, BBC News Brasil e Yahoo News Canada




