‘Santo Antônio era um andarilho da fé, um pregador itinerante’

Conheça o livro “Santo Antônio – A história do intelectual português que se chamava Fernando, quase morreu na África, pregou por toda a Itália, ganhou fama de casamenteiro e se tornou o santo mais querido do Brasil” (Editora Planeta), do jornalista Edison Veiga

Mariana Veiga

Santo casamenteiro, Santo do pão dos pobres, Santo que encontra as coisas perdidas, dos portugueses, italianos, Santo dos brasileiros. Santo Antônio é um dos santos mais populares no Brasil, centro das mais diversas devoções. Mas como ele se tornou esse grande intercessor?

Nascido em Portugal, em 1195, Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa) foi um intelectual, missionário, professor, doutor da Igreja e autor de inúmeros sermões. Começou na vida religiosa em uma ordem agostiniana, mas ficou mais conhecido mesmo como frade franciscano. Famoso pregador, tem sua língua exposta até hoje na Basílica de Pádua, na Itália.

Dada sua grande fama de santidade, Santo Antônio foi canonizado rapidamente pelo Papa Gregório IX, em maio de 1232, pouco tempo após sua morte, em 13 de junho de 1231 – data na qual é celebrado em toda a Igreja.

No  recém-publicado  livro “Santo Antônio – A história do intelectual português que se chamava Fernando, quase morreu na África, pregou por toda a Itália, ganhou fama de casamenteiro e se tornou o santo mais querido do Brasil” (Editora Planeta), o jornalista Edison Veiga narra a história do Santo após pesquisas e viagens pela Europa.

Reprodução

Repórter para diversos veículos como O Estado de S. Paulo, Deutsche Welle e BBC, e curioso investigador das coisas da Igreja, ele fala nesta entrevista sobre o novo livro e, claro, de Santo Antônio.

O SÃO PAULO – Há tanta coisa escrita sobre Santo Antônio. Por que esse livro agora?

Edison Veiga – Acredito que faltava um relato com uma abordagem, digamos, mais jornalística. Como jornalista, meu interesse era mais biográfico do que hagiográfico – reconhecendo, desde o princípio, a dificuldade histórica em confirmar muitos dos fatos, em se tratando de uma figura que viveu há 800 anos e se tornou tão popular ao longo dos séculos.

Em 2018, vivi na Itália por um ano, na região de Milão. Um ano antes, ainda no Brasil, comecei a planejar esse trabalho. Percorri praticamente toda a Itália. Espero conseguir conduzir o leitor por essas andanças também, uma vez que Antônio era um andarilho da fé, um pregador itinerante.

No seu livro, você levou a sério as fontes históricas, mas também as “lendas” sobre o Santo. Por quê?

Confesso que, no começo, eu pensava em me ater apenas aos fatos com documentação. Contudo, a grandeza de Santo Antônio também está nas lendas populares, nos relatos que jamais serão confirmados e até naqueles milagres prosaicos que se tornaram parte do imaginário popular – como a comunicação dele com animais, entre outros.

Se essas histórias fantásticas sobreviveram ao crivo do tempo, muitas vezes sendo ampliadas ao longo dos séculos, acredito que também precisam ser consideradas – se não como fatos verdadeiros, como cultura geral e, para todos os que acreditam, manifestação divina.

Quando olhamos para a história, precisamos ter coração e cabeça abertos também para a construção narrativa: as histórias dizem muito sobre a mentalidade da época. E, quando resistem, sejam como entendimento de verdade, sejam por fé, sejam travestidas de folclo- re, adquirem significado cultural muito importante.

Talvez o milagre da bilocação seja o mais fantástico. A tradição diz que ele esteve ao mesmo tempo em dois lugares. É isso mesmo?

Há diversas versões desse relato. A mais documentada ao longo dos séculos é a que teria dado origem à expressão “tirar o pai da forca”. Antônio estava em Montpellier, na França, realizando uma homilia, quando teria aparecido em Lisboa para salvar seu pai, que estava sendo acusado pelo desvio de alguns tesouros reais.

Ocorre que essas joias teriam sido embolsadas, na realidade, por um guarda da Corte. No julgamento, conta-se que Antônio apareceu para restabelecer a verdade, salvando a pele do pai. Mas, após o julgamento, ele foi seguido pelo pai e desapareceu na multidão – ou seja, com uma dose de ceticismo, podemos também imaginar que se tratava de outra pessoa, talvez confundida na escuridão de um tribunal do século XIII.

Quais outros milagres são os mais aclamados pelo povo?

Santo Antônio foi canonizado – no processo mais rápido da história da Igreja, com apenas 11 meses! – com o reconhecimento, pelos peritos do Vaticano, de 53 milagres. Todos tinham a ver com curas milagrosas. Eu detalho um a um no livro, baseando-me na Legenda Assidua, primeiro documento biográfico sobre o religioso.

No imaginário popular, contudo, Santo Antônio se tornou o Santo casamenteiro, sobretudo para os portugueses e brasileiros, e o Santo das coisas perdidas, sobretudo para os italianos. Em vida, ele teria sido um comunicador fácil, acessível, carismático, que gostava e sabia estar em meio ao povo simples.

Sempre se apresentava como um amigo próximo. Essa vocação acabou prosseguindo nos altares: quando, pela tradição popular, alguém ousa pendurar sua imagem de cabeça para baixo até que a causa seja atendida, por exemplo, se isso pode soar um tanto desrespeitoso, também denota uma proximidade como não há com outros santos do cânone. No fundo, é como se só nos sentíssemos íntimos o suficiente de Antônio.

Como Santo Antônio ganhou fama de casamenteiro?

Não há como precisar, infelizmente. Não existe nenhum registro objetivo de que ele teria ajudado alguma moça casadoira, da maneira conforme o imaginário popular consagrou  a ideia. Há relatos, porém, de que ele pregava contra os casamentos arranjados, comuns à época, defendendo a importância do amor para unir os casais. E registros antigos, mas não comprovados, dizem que ele teria, certa vez, desviado dinheiro de doações à Igreja para ajudar uma jovem cuja família não tinha condições de pagar odote do casamento.

Por que em alguns países rezam para ele encontrar coisas perdidas?

Isso é forte principalmente na Itália.  Remonta ao período em que ele morou na França.  Uma de suas atribuições ali era ensinar, ajudando a formar novos religiosos. Para tanto, ele utilizava um saltério. Certa vez, a obra se perdeu, deixando-o muito chateado.

Ele rezou para encontrar o livro. No dia seguinte, um noviço veio procurá-lo, afobado e nervoso, com o saltério na mão. Começou pedindo desculpas. Disse que estava decidido a abandonar a vida religiosa. E, por pura maldade, havia afanado o livro de predileção do Pa- dre. Durante a fuga, entretanto, um animal estranho, em chamas, o impedira de cruzar a ponte. E o teria ameaçado: ele seria arremessado no rio, caso não devolvesse o saltério. O religioso perdoou o jovem e o readmitiu ao noviciado, feliz pelo livro recuperado.

Por que ele se tornou o Santo mais popular no Brasil?

Quando as caravelas portuguesas aportaram em nosso litoral, em abril de 1500, compunham a comitiva oito religiosos franciscanos. Sendo eles portugueses e franciscanos, trouxeram também a devoção a Antônio. Acredito que esteja aí a origem da fama antoniana em terras brasileiras, amplificada, é claro, com o passar do tempo.

O que, na sua visão, diferencia Santo Antônio?

Algumas características fizeram dele um homem diferenciado, com erudição acima da média para aquele tempo e a facilidade comunicativa. Conseguia pregar em diversos idiomas e o fazia de forma fácil e acessível; era, portanto, compreendido. Por fim, era um homem que andarilhava. Irrequieto. Numa época em que as distâncias eram maiores, ele vencia os quilômetros de uma maneira impressionante.

Ele acabou se tornando um intercessor íntimo, próximo dos fiéis. Sua história transcendeu a religião, virou também folclore, motivou simpatias. É como se fosse um santo que desce dos altares e se senta no banco, ao lado do fiel, na hora da missa. Não fica no pedestal.

Comentários

  1. Ainda não tenho o livro,mas vou adquirir essa semana,Pela introdução vai ser muito interessante fazer essa viagem pelos caminhos percorridos por Ant:onioum santo pelo qual sempre tive muito afeto.

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