A Igreja em tempos de epidemia: Alexandre VII e a Peste de Roma

POR GUSTAVO CATANIA RAMOS (Especial para O SÃO PAULO)

Tratamos em artigo anterior sobre a Peste Negra e de dois exemplos de santos que entregaram suas vidas para o cuidado físico e espiritual dos doentes. Entretanto, para compreender com mais profundidade a atitude da Igreja em tempos de peste seria-nos muito útil estudar como um Papa reagiu e tomou medidas para impedir o avanço da doença e para garantir o cuidado espiritual dos que morriam por ela.

Esse estudo se nos revela mais interessante se entendermos que, à época do surto da Peste do qual hoje falaremos, o Sumo Pontífice possuía não apenas a autoridade espiritual, mas também a autoridade política para tomar decisões de caráter sanitário que afetavam o comércio e a vida privada dos que viviam nos Estados Pontifícios.

O exemplo de Alexandre VII e da peste de Roma de 1656 poderá esclarecer muitas questões em discussão atualmente, principalmente no que se refere às medidas de quarentena e ao funcionamento dos templos.

Alexandre VII

Alexandre VII, nascido Fabio Chigi, foi papa do ano de 1655 a 1667. De uma família ilustre de Siena, antes de ser Papa, foi Vice-Legado papal na cidade de Ferrara, onde enfrentou um surto da peste, o que certamente lhe deu experiência para enfrentar a doença em seu pontificado.

Ele também foi responsável por acompanhar a assinatura da Paz de Westfália, que colocou fim à Guerra dos Trinta Anos. Depois, foi nomeado Secretário de Estado dos Estados Papais por Inocêncio X.

Eleito Papa no Conclave de 1655, que durou 80 dias, Alexandre VII tornou-se célebre por sua condenação à heresia jansenista e pela defesa da Imaculada Conceição, dogma que apenas viria ser declarado pelo Papa Pio IX, aproximadamente 240 anos depois.

Logo em seu segundo ano de pontificado, entretanto, a Peste chegou a Roma e lhe obrigou a tomar medidas duras para evitar a disseminação da doença.

A Peste em Roma e as medidas do Papa

A Peste, em 1656, chegou à península itálica por Nápoles. Atingiu de tal maneira a cidade que, no seu auge, morriam aproximadamente 2 mil pessoas diariamente. Ao fim do surto, metade da população foi dizimada pela doença. Em uma população de 150 mil pessoas, 75 mil morreram. Em Genova, foram 50 mil mortes numa população de 100 mil habitantes.

O primeiro caso da Peste em Roma naquele ano foi o de um pescador cujo cadáver carregava sinais da doença e que estava hospedado em um hotel em Trastevere, bairro de Roma. Um médico foi chamado para averiguar os sinais do corpo e verificar se se tratava de fato da peste. Apesar dos muitos testemunhos de pessoas próximas que afirmavam ser a peste, o médico negou. Entretanto, pouco tempo depois, a responsável do hotel e sua família foram mortos pela peste, o que ensejou o início das medidas tomadas por Alexandre VII.

Com a morte da família, o Papa determinou que se isolasse o bairro de Trastevere por meio da construção de um muro, como forma de evitar que a doença se espalhasse por toda a cidade. O muro foi construído com a máxima urgência, em menos de um dia, e as obras foram acompanhadas por três cardeais.

Apesar da agilidade no isolamento do bairro, a doença se espalhou. Uma das parentes da responsável do hotel, que fora cuidar da família doente, escapou do bairro por não querer se submeter às medidas de quarentena.

Foi decretado que todos os que estiveram no hotel se apresentassem para ser isolados. A parente não se apresentou, temendo mais os incômodos da quarentena do que a pena prevista no decreto. Depois de um tempo, essa parente e seus filhos foram vítimas da peste.

Logo de início, portanto, Alexandre VII, a partir de sua experiência anterior com a peste, decretou medidas de isolamento e quarentena para impedir a propagação da peste. Muitos, entretanto, aconselharam o Papa a não divulgar a gravidade da doença para não causar um medo desmedido na população. Com a divulgação, o comércio seria afetado, e a colheita prejudicada. O Papa não concordou com tal opinião e respondeu que não convinha ao governante esconder a gravidade da doença que poderia devastar províncias inteiras. Além disso, segundo o Papa, se acobertasse a doença, perderia a confiança dos súditos por verem o grande número de mortos.

O Cardeal Gregório Barbarigo, que depois seria canonizado, por sua vez, achou que as medidas restritivas do Papa poderiam causar “mais mortes do que a peste, pela fome e pelo medo”. Vê-se, claramente, que as discussões da época assemelham-se com as da atual pandemia.

No caso da Peste de Roma, as medidas tomadas pelo Papa surtiram efeito, e, numa cidade de 120 mil habitantes, morreram pela peste 9,5 mil, proporção muito menor que a de outras cidades.

Além de medidas de isolamento dos doentes, com a instalação de diversos Lazaretos – lugares onde se cuidavam dos doentes -, o Papa proibiu qualquer reunião religiosa ou profana na cidade de Roma e determinou, com severas penas, que fosse denunciado qualquer indício da doença para que as medidas de isolamento pudessem ser tomadas.

O auxílio espiritual dos doentes também deveria seguir determinadas regras, pois não seria prudente expor todos os padres à peste, deixando a maioria saudável sem os sacramentos. Assim, o Papa tomou extremos cuidados para que tivessem contato com os doentes apenas sacerdotes designados, para não privar a cidade de padres, ao mesmo tempo garantindo sepultura cristã e o sufrágio da Igreja aos mortos. Os párocos tinham de cuidar do povo saudável, e os padres de ordens religiosas foram designados para cuidar dos doentes, mas, mesmo assim, apenas os mais saudáveis entre eles. Muitos destes faleceram pela peste.

O Papa também proibiu procissões e súplicas públicas em razão do contágio, mas incentivou a oração particular e familiar pelo fim da peste.

Pintura alusiva à grande peste na Itália no século XVII (Reprodução da internet)

A quarentena trouxe dificuldade ao comércio, pois Alexandre VII determinou seu fechamento em toda a cidade. No entanto, o Papa preocupou-se em garantir o comércio essencial para não que faltasse comida nem o necessário para o cuidado dos doentes. O povo, apesar de uma ou outra agitação, permaneceu calmo e a cidade não sofreu desabastecimento de itens básicos nem inflação. O Papa também estimulou a esmola e a caridade dos nobres para sustento dos mais pobres.

Concretamente, o Papa proibiu o comércio com lugares infectados do Reino de Nápoles. Os habitantes de Nápoles não podiam entrar em Roma, e para garantir a efetividade dessa ordem, o Papa determinou que as estradas vicinais fossem constantemente vigiadas e algumas, inclusive, foram desfeitas. Os navios tinham de ser inspecionados acerca de sua origem. Objetos tinham de ser desinfetados, como cartas e dinheiro. As ruas eram limpas constantemente. O bairro dos judeus, a pedido do próprios judeus, foi fechado para permanecer em estrita quarentena.

O Papa proibiu o comércio entre Roma e outras cidades dos Estados Pontifícios, como forma de evitar que a peste lá chegasse. O trabalho das Congregações e dos Tribunais foram suspensos, com exceção daquilo que era urgente. As visitas diplomáticas também foram suspensas.

A Congregação da Saúde, instituição responsável pela saúde em Roma, se reunia todos os dias para discutir o avanço da peste e tomar conhecimento de cada novo caso na cidade. O Papa designou novos membros à Congregação, que tinham experiência no combate à peste. Um prelado por bairro da cidade foi designado para supervisionar o avanço da doença e tinha de visitar todas as casas todos os dias para tomar conhecimento dos doentes.

As casas em que se averiguava a existência do doentes eram marcadas na porta, e ninguém poderia sair ou entrar nelas sob graves pena. O Papa determinou que se desse uma quantia em dinheiro para as pessoas responsáveis por cuidar dos doentes nessas casas, como forma de sustento durante a peste. Além disso, duas vezes por dia eram levados mantimentos para que as pessoas reclusas se mantivessem.

Parte do povo murmurou contra as decisões do Papa, e um médico espalhou que a peste esconderia interesses escusos do Papa. Pela calúnia difundida, esse médico foi condenado a trabalhar em um lazareto para cuidar dos doentes. A maioria do povo, entretanto, aceitou pacificamente as medidas de Alexandre VII.

Os médicos foram proibidos de sair da cidade. Como fez com os sacerdotes, o Papa separou um grupo para cuidar das outras doenças que não a peste, para que a população não empestada não ficasse privada de médicos. Estes, por sua vez, designados para os lazaretos, receberam uma maior remuneração e tinham de viver em um lugar separado, em quarentena.  

Depois de um ano e meio de luta contra a doença, a peste finalmente foi debelada e Roma pôde voltar à sua vida normal.

Aprendizados

A atitude do Papa Alexandre VII durante a peste alinhou uma fé sólida com o conhecimento que se tinha à época acerca da peste e do seu modo de proliferação. As medidas tomadas foram alvo de polêmica, entretanto, pode-se dizer que foram bem sucedidas pelo menor número de mortos na cidade de Roma em relação a outras cidades.

Suas medidas não se reduziram ao campo sanitário, mas se preocuparam pelo cuidado espiritual dos doentes e do resto do povo não atingido pela peste. Para tanto, designou sacerdotes para atender os empestados para que os outros pudessem continuar seu ministério, evitando, sempre, aglomerações que pudessem ocasionar contágios. Com prudência, o Papa demonstrou que é possível enfrentar qualquer epidemia com espírito de fé e com a razão, partindo da correta compreensão de que ambas devem andar juntas.

Fontes: Vita de Alessandro VII – Cardeal Sforza Pallavicino; Dicionário de erudição histórico-eclesiástica desde São Pedro até os dias atuais – Gaetano Moroni

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