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A contemplação do Evangelho pelo método inaciano de leitura da Bíblia

Descrito por Santo Inácio de Loyola em seus Exercícios Espirituais, o método tem sido uma rica fonte de oração a todos os que desejam entrar no mistério de Cristo

A contemplação do Evangelho pelo método inaciano de leitura da Bíblia
Foto: Luciney Martins/ O SÃO PAULO

No mês de setembro, a Igreja convida os fiéis a uma maior intimidade com a Bíblia e recorda a rica tradição espiritual cristã sobre as diversas formas para nos aproximar frutuosamente do texto bíblico. Na semana passada, O SÃO PAULO publicou artigo em que explicava o passo a passo da Lectio Divina, método de leitura e meditação bíblica que remonta aos primeiros padres da Igreja.

Entretanto, a Lectio Divina não é o único método de meditação das Sagradas Escrituras. Entre as outras muitas formas de sua leitura e meditação, certamente uma das mais importantes para a espiritualidade cristã é o método inaciano, descrito por Santo Inácio de Loyola em seus Exercícios Espirituais.

No centro dos Exercícios inacianos está a contemplação do Evangelho, especialmente dos mistérios da vida de Cristo, porque, dessa forma, aquele que reza se aproxima de Jesus para segui-Lo mais de perto. Os Exercícios têm sido, por esse motivo, uma rica fonte de oração a todos os que desejam entrar no mistério de Cristo.

O método inaciano de leitura da Bíblia pode ser dividido em três grandes partes: Oração Preparatória, Contemplação e Colóquio com Deus.

Oração Preparatória

Na definição de Santo Inácio, a Oração Preparatória “é pedir graça a Deus Nosso Senhor para que todas as minhas intenções, ações e operações sejam puramente ordenadas para serviço e louvor de sua divina majestade”.

Dessa forma, quem reza, antes de iniciar a leitura de um texto bíblico, deve se colocar na presença de Deus e Lhe pedir que a oração que fará seja frutífera e com a única intenção de louvar a Deus.

A Oração Preparatória previne que a meditação seja uma busca egoísta do próprio eu e permite que o orante se abra à ação do Espírito Santo. Ela pode ser realizada com palavras espontâneas ou com orações prontas. Não importa a forma, mas, sim, o objetivo de entrar na contemplação com o coração bem disposto.

Contemplação

A meditação inaciana possui características marcantes e, por isso, é o passo que mais caracteriza a espiritualidade jesuítica. Para meditar, Santo Inácio pedia que o orante se colocasse dentro da cena bíblica por meio da imaginação, usando todos os sentidos humanos: audição, visão, tato, paladar e olfato. Além disso, o orante deve se valer dos sentimentos que a cena bíblica lhe causam: alegria, tristeza, repulsa, paz etc. A cena da Encarnação, por exemplo, no método inaciano, deve ser meditada da seguinte maneira, conformeexplica Santo Inácio nos Exercícios: depois de feita a Oração Preparatória, lê-se o texto da Escritura referente à Encarnação. Inácio, então, conduz o orante a contemplar a história da Encarnação, desde sua origem na Santíssima Trindade: “Como as três pessoas divinas observavam toda a planície ou redondeza de todo o mundo, cheia de homens, e como vendo que todos desciam ao inferno, determina-se, na sua eternidade, que a Segunda Pessoa se faça homem, para salvar o gênero humano. E, assim, chegada a plenitude dos tempos, é enviado o anjo Gabriel a Nossa Senhora”.

Depois, quem reza deve ver com a imaginação a quantidade de pessoas do mundo para compreender como Nossa Senhora foi agraciada ao ser a única a receber em seu seio o Criador.

A imaginação dessas cenas move o coração a amar a providência de Deus em vir à terra e escolher a Virgem como Sua Mãe. Mas essa cena pode ser contemplada, também, sob outrosaspectos. Pode-se imaginar o mundo imerso em pecado, e Nossa Senhora em seu quarto, recebendo a visita do Anjo, para a remissão dos pecados de todo o mundo.

Assim, a meditação inaciana não se reduz a um reproduzir na imaginação a mera cena bíblica descrita, mas consiste em expandi-la, para que possamos entender a profundidade e grandeza de cada uma delas. Dessa maneira, Santo Inácio previne o orante de cair em uma oração subjetivista e permite que ele se abra ao mistério da Encarnação por inteiro.

Outras cenas do Evangelhos também podem ser meditadas com o mesmo método, como o Natal, a Transfiguração, a Paixão de Cristo, a sua Ressurreição e Ascensão e tantas outras.

Colóquio com Deus

O Colóquio com Deus consiste em pedir a Deus o que se deseja a partir da contemplação realizada. “Se a contemplação é de ressurreição, pedir gozo com Cristo gozoso; se é de Paixão, pedir pena, lágrimas e tormento com Cristo atormentado”, escreveu Santo Inácio. Assim com todas as outras cenas. Na Encarnação, podemos pedir uma profunda gratidão a Nossa Senhora por ter aceitado ser a Mãe de Deus. No Natal, um desapego dos bens terrenos.

O diálogo deve ocorrer dentro da cena imaginada no passo anterior. Caso contemplemos a cena da Paixão, no Colóquio, recomenda Santo Inácio, devemos imaginar Jesus crucificado diante de nós e falar com Ele dessa maneira.

Nesse passo, o orante deve interrogar-se sobre como tem vivido a sua vida em relação à cena contemplada e, caso perceba que precisa mudar em algum ponto, tomar a firme resolução de fazê-lo.

“O Colóquio se faz, propriamente falando, assim como um amigo fala a outro, ou um servo a seu senhor: ora pedindo alguma graça, ora se confessando culpado por algum mal que foi feito, ora comunicando as suas coisas e querendo conselho nelas”, escreveu Santo Inácio.

Recomenda-se que o orante anote as inspirações e os sentimentos que lhe vieram durante a oração, além dos propósitos tomados, para que se recorde sempre o que foi contemplado e a oração tenha frutos em sua vida.

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