Com Maria, cristãos recordam a encarnação e a ressurreição de Jesus ao longo do dia

Pintura “Anunciação”, de Fra Angelico (1435), no Museu do Prado, em Madri, Espanha

A espiritualidade cristã sempre foi marcada pela santificação do tempo. Desde a influência da tradição judaica de entoar salmos e preces ao longo do dia, são muitas as práticas de oração que sinalizam a presença de Deus durante a jornada cotidiana. Uma das mais populares é a oração do Angelus.

Essa oração faz referência à anunciação do Senhor feita pelo Anjo Gabriel a Nossa Senhora. Por isso, seu nome de refere às primeiras palavras da oração em latim:  “Angelus Domini nuntiávit Mariæ…” (O anjo do Senhor anunciou a Maria…), seguida da oração de três Ave-Marias. 

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Segundo antigo costume, o Angelus é recitado ao nascer do sol (6h), no auge do dia (12h), e ao pôr do sol (18h), como uma forma de honrar o mistério da encarnação do Salvador no seio da Virgem Maria no curso do dia.

No Tempo Pascal, essa saudação mariana é substituída pela antífona Regina Coeli (Rainha do Céu), por meio da qual se recorda o mistério da ressureição do Senhor ao saudar a Virgem Maria.  

SAUDAÇÃO DO ANJO

O relato mais difundido sobre a origem da oração do Angelus atribui sua autoria ao Papa Urbano II (1042-1099). Há também versões de que a prática teria nascido na Alemanha no início do século XIII, baseada em expressões marianas escritas nos sinos das igrejas. Outros, ainda, atribuem ao Papa Gregório IX, por volta de 1241.

O certo é que a primeira notícia concreta sobre a difusão do Angelus remonta a 1269, período em que São Boaventura foi Superior-Geral dos franciscanos. Durante o capítulo geral da Ordem dos Frades Menores, realizado em Pisa, na Itália, foi prescrito aos frades a saudação a Nossa Senhora todas as noites, com o som dos sinos e a recitação de algumas Ave-Marias, recordando o mistério da encarnação do Senhor.

A tradição de rezá-lo três vezes ao dia é atribuída a Luiz XI, rei da França, em 1472. Curiosamente, o Angelus do meio-dia, mais difundido por arcar a pausa no cansaço do dia para a elevação do pensamento à Mãe de Deus, foi o último a se popularizar entre os fiéis. 

Papa Francisco reza o Angelus na janela do Palácio Apostólico, seguindo costume iniciado pelo Papa Pio XII (Foto: Vatican Media)

PAPAS

Foi o Papa Pio XII, em 1954, que inaugurou a tradição de saudar os fiéis da janela do Palácio Apostólico, dirigindo-lhes algumas palavras de fé, concluídas com a oração do Angelus e a bênção, o que foi seguido por seus sucessores, especialmente São João Paulo II, que constituiu, aos domingos, esse momento permanente de encontro com os fiéis de todo o mundo.

Na Exortação Apostólica Marialis cultus (1974), São Paulo VI motivou os cristãos  a manterem vivo o costume de recitar o Angelus todos os dias. 

O Pontífice ressaltou que a estrutura simples, o caráter bíblico, a origem histórica, “o ritmo quase litúrgico que santifica momentos diversos do dia, a abertura para o mistério pascal, em virtude da qual, ao mesmo tempo que comemoramos a Encarnação do Filho de Deus, pedimos para ser conduzidos, ‘pela sua paixão e morte na Cruz, a glória da ressurreição’, fazem com que ele, à distância de séculos, conserve inalterado o seu valor e intacto o seu frescor”.

RAINHA DO CÉU

A antífona Regina Coeli tem uma origem muito mais antiga. No ano de 590, Roma havia sido devastada pelo transbordamento do rio Tibre, que alagou toda a cidade, causando grandes danos e sobretudo, a fome. Quando as águas baixaram, os romanos foram atingidos por uma grande peste que causou muitas mortes.

Ícone da Virgem que Chora, na Igreja Ara Coeli, em Roma, Itália (Reprodução da internet)

Para implorar a Deus o fim da calamidade e a conversão dos pecadores, São Gregório Magno, pontífice na época, convocou a realização de uma procissão pelas ruas de Roma com todo o clero e fiéis, levando consigo um ícone da Virgem que Chora, que ficava na Igreja Ara Coeli (Altar do Céu) e, segundo uma tradição, teria sido pintado por São Lucas Evangelista.

Quando a multidão em procissão chegou à ponte que liga a cidade ao castelo erguido sobre o mausoléu do imperador Adriano, ouviu-se um coro entoar “Regina coeli, laetare, Alleluia!” (Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia!), ao qual São Gregório prontamente respondeu: “Ora pro nobis Deum, Alleluia!” (Rogai a Deus por nós, aleluia!).

TRADIÇÕES

A autoria do canto em meio à multidão é desconhecida. Com o passar dos anos, popularizou-se uma tradição que atribuiu o refrão aos anjos, assim como o fim daquela peste é atribuído à proteção de São Miguel Arcanjo. Tanto que o castelo diante do qual o episódio aconteceu passou a ser chamado de Castel Sant’Angelo e no alto de sua torre foi colocada uma grande imagem de São Miguel.

A partir daí, esse pequeno refrão foi se popularizando como uma antífona mariana pascal, sendo acrescidos outros versos e uma oração conclusiva, chegando à versão entoada atualmente. 

Foi o Papa Bento XIV que, em 1742, estabeleceu que o Regina Coeli substituiria o Angelus desde o Domingo da Páscoa até Pentecostes. Ela também é entoada ao término da oração da noite do Ofício Divino (Completas), durante o Tempo Pascal. 

Nessa antífona, é ressaltada a intrínseca relação entre o mistério da encarnação e da ressurreição de Jesus, ao recordar que aquele que Maria mereceu trazer eu seu ventre ressuscitou verdadeiramente, motivo esse de grande júbilo para todos os cristãos.

COMO REZAR

ANGELUS

O Anjo do Senhor anunciou a Maria.

R: E ela concebeu do Espírito Santo.

Ave Maria…

Eis aqui a serva do Senhor.

R: Faça-se em mim segundo a vossa palavra.

Ave Maria…

E o Verbo se fez carne.

R: E habitou entre nós.

Ave Maria…

Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.

R: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oremos:

Derramai, ó Deus, a vossa graça em nossos corações, para que, conhecendo, pela mensagem do Anjo, a encarnação do Cristo, vosso Filho, cheguemos, por sua paixão e cruz, à glória da ressurreição, pela intercessão da Virgem Maria. Pelo mesmo Cristo, Senhor Nosso. Amém.

Glória ao Pai… (Três vezes)

REGINA COELI

Rainha do Céu, alegrai-vos, Aleluia!

R: Porque Aquele que merecestes trazer em Vosso ventre, Aleluia!

Ressuscitou como disse, Aleluia!

R: Rogai por nós a Deus, Aleluia!

Exultai e alegrai-vos, ó Virgem Maria, Aleluia!

R. Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente, Aleluia!

Oremos:

Ó Deus, que Vos dignastes alegrar o mundo com a Ressurreição do Vosso Filho Jesus Cristo, Senhor Nosso, concedei-nos, Vos suplicamos, que por sua Mãe, a Virgem Maria, alcancemos as alegrias da vida eterna. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém.

Glória ao Pai… (Três vezes).

Graduado em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção; tem pós-graduação em Jornalismo Multimídia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo Digital e gestão de mídias digitais.

É repórter do jornal O SÃO PAULO e professor no Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL).

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