Ladainha de Nossa Senhora: expressão de amor e devoção à mãe do salvador

Ao longo dos séculos, os cristãos têm manifestado, de inúmeras formas, seu carinho e admiração pela Virgem Maria. Embora a mais conhecida delas seja o Rosário, muitas outras devoções ajudam a transmitir as verdades de fé sobre a Mãe de Deus, de geração em geração. Uma delas sintetiza todas as dimensões que podem ser contempladas em Nossa Senhora: a ladainha.

Também conhecidas como litania, que, em grego significa “súplica”, as ladainhas são uma forma antiga de oração dos cristãos que consiste no conjunto de invocações feitas pelos fiéis, sobretudo durante as procissões.

São várias as ladainhas existentes na tradição católica: as mais famosas delas são as de Nossa Senhora e a de Todos os Santos, rezadas durante liturgias, como a do Batismo, ordenações e na Vigília Pascal.

LAURETANA

A Ladainha de Nossa Senhora mais popular é a chamada Lauretana ou Loretana, por ter se popularizado a partir do Santuário de Loreto, na Itália, onde ela foi entoada solenemente pela primeira vez no dia 10 de dezembro de 1531. Acredita-se que sua origem, contudo, seja mais antiga.

Loreto é o lugar onde existe a chamada Casa de Nossa Senhora. Segundo uma antiga tradição, no século III, Santa Helena, mãe do imperador romano Constantino, trouxe da Terra Santa uma série de relíquias relacionadas à vida de Jesus Cristo, dentre as quais as pedras da casa onde a Virgem Maria viveu em Nazaré e onde recebeu a anunciação do Anjo Gabriel. Em 1291, foi encontrada na Itália uma casa construída com pedras do mesmo tipo das que existiam nas ruínas do local original da casa de Nossa Senhora. A partir de então, o lugar começou a atrair inúmeros peregrinos.

Com o passar do tempo, os peregrinos compuseram diversas súplicas e invocações à Virgem Maria, que deram origem à famosa ladainha.

A Ladainha de Nossa Senhora foi aprovada oficialmente pelo Papa Clemente VIII em 1601. Ao longo dos séculos, algumas invocações foram acrescentadas pelos pontífices, como, por exemplo: “Rainha concebida sem pecado original”, em 1854; “Mãe do bom conselho”, em 1903; “Rainha da paz”, em 1917; “Rainha assunta ao céu”, em 1950; “Mãe da Igreja”, em 1964 e, a mais recente, “Rainha da família”, incluída por São João Paulo II, em 1995.

ESTRUTURA

Nessa litania, a Mãe de Deus é invocada 51 vezes com os mais variados títulos. Após uma introdução dirigida à Santíssima Trindade, como se dá em todas as ladainhas, é feita a primeira invocação do próprio nome da Virgem, Santa Maria, seguida de duas invocações que lembram seus principais privilégios: “Mãe de Deus” e “Virgem das virgens”.

As invocações seguintes são divididas em vários grupos: 13 invocações que honram sua maternidade; seis referentes à sua virgindade; 13 figuras simbólicas; quatro invocações da sua misericórdia; e 12 invocações de Maria como Rainha.

A ladainha termina com uma súplica penitencial ao “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

INVOCAÇÕES CURIOSAS

Algumas dessas invocações, especialmente as do grupo das figuras simbólicas, são de difícil compreensão para os fiéis. Padre André Damino, no livro “Na Escola de Maria” (1962), explicou de maneira sintética cada uma dessas invocações marianas. A seguir, O SÃO PAULO destaca algumas delas:

Espelho de justiça – Costuma também ser compreendida como “espelho da perfeição cristã”, por meio do qual todas as virtudes cristãs podem ser admira- das, “como se admiram as belezas da natureza refletidas numa fonte límpida ou num cristal puro”.

Sede da sabedoria – Indica que o corpo puríssimo de Maria foi, durante nove meses, o lugar onde habitou a sabedoria divina, Jesus Cristo.

Causa da nossa alegria – Maria deu ao mundo aquele que reabriu as portas do céu e alegra a humanidade com graças e favores.

Vaso espiritual e Vaso honorífico – Como vaso precioso, conservou intacto o tesouro dos dons espirituais; como vaso nobre, guardou cuidadosamente na alma a graça santificante, e seu seio foi a morada de Jesus Cristo.

Vaso insigne de devoção – O empenho constante e pressuroso de Maria, em cumprir com amor os de- veres religiosos para com Deus, superou muito o dos antigos justos e o dos santos do Novo Testamento.

Rosa mística – “Formada pelas pétalas das mais excelentes virtudes, espalha o aroma de Jesus Cristo.”

Torre de Davi – No Antigo Testamento, o Rei Davi tomou a fortaleza de Jerusalém dos jebuseus e edificou a cidade santa em seu entorno. Maria é a torre que nenhum inimigo pode destruir e em torno da qual a Igreja, nova Jerusalém, foi edificada.

Torre de marfim – Maria é comparada a uma torre que tem a consistência e é clara como o marfim, por- que é amada por Deus por sua pureza e é a defesa invencível da Igreja.

Casa de ouro – Maria é comparada a uma casa de ouro, porque abrigou em seu seio o Verbo Encarna- do “e o seu coração ardeu com a divina chama da caridade, a mais nobre e preciosa das virtudes, assim como o ouro é o mais valioso dos metais”.

Arca da aliança – Na antiga Lei, a Arca da Aliança era o penhor das promessas e da proteção divina. Maria, mediadora entre o novo povo eleito e Deus, é a nova Arca da Aliança, cujo nome “afugenta os demônios com maior eficiência do que a Arca que desbaratava os inimigos do povo nas batalhas”.

Porta do céu – Maria é chamada assim porque por ela veio Jesus Cristo à terra e por ela os cristãos recebem as graças que favorecem sua entrada na morada celeste.

Estrela da manhã – Assim como a estrela luminosa é vista no horizonte pouco antes do nascer do sol, Nossa Senhora é o astro que antecede o nascimento do “Sol da Justiça”, Jesus Cristo.

OBRA-PRIMA

Em outro livro, “Ladainha de Nossa Senhora – O Sentido de cada Invocação”, o Padre João Carlos Almeida (Joãozinho), cantor, compositor e escritor, ressaltou que a Ladainha Lauretana é uma obra-prima da oração popular.

“Sua versão em latim tem uma belíssima sonoridade e cadência poética. Muitos músicos compuseram belas melodias para a ladainha. Um deles foi Mozart (1756- 1791). Ele compôs a Ladainha pela primeira vez em 1771, após sua peregrinação ao Santuário de Loreto. Em 1774, voltou a compor outra melodia para coro em quatro vozes”, destacou o Padre.

A cadência poética dessa Ladainha de Nossa Senhora também atraiu muitos outros compositores de renome, como Nicolau Zingarelli (1752-1837), que compôs 16 melodias diferentes para a mesma ladainha.

No Brasil, destaca-se a obra do Padre João Baptista Lehmann (1873-1955), que compôs várias melodias.

Nas Artes Plásticas, também foram muitas as obras que ilustram títulos relacionados às invocações da Ladainha de Nossa Senhora. Com a ajuda da pesquisadora e doutora em Ciências da Religião, Wilma Steagall De Tommaso, O SÃO PAULO ilustra esta reportagem com algumas dessas obras.

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Graduado em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção; tem pós-graduação em Jornalismo Multimídia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo Digital e gestão de mídias digitais.

É repórter do jornal O SÃO PAULO e professor no Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL).

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