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Já é hora de voltar ao médico

Temor pelo contágio da COVID-19 levou à interrupção de tratamentos, com consequentes danos à saúde

A fim de evitar a proliferação do novo coronavírus e redimensionar os atendimentos para os pacientes com a COVID-19, muitos procedimentos de saúde eletivos, ou seja, que não são de urgência ou de emergência, foram suspensos nas redes pública e privada na cidade de São Paulo desde março.

O medo da pandemia também fez com que as pessoas em todo o mundo evitassem a ida aos hospitais. Na Itália, por exemplo, na primeira quinzena de março, a mortalidade por infarto saltou de 4,1% para 13,7%, motivada pela diminuição em 60% no número de hospitalizações e atrasos nos tratamentos, conforme informações da Sociedade Italiana de Cardiologia.

Uma retomada necessária

Já é hora de voltar ao médico
(crédito: Reprodução)

No Brasil, recentemente, a Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde) e a Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (Fehoesp) lançaram uma campanha para que os tratamentos de doenças que demandam terapias e outros acompanhamentos clínicos essenciais não sejam interrompidos.

As áreas de Cardiologia, Oncologia, Nefrologia e Obstetrícia são as que mais preocupam as entidades, assim como os cuidados pós-operatórios.

“Com o passar do tempo, as condições dos pacientes, mesmo os eletivos, podem ir piorando. Assim, essa campanha preconiza que as pessoas procurem os tratamentos, já que alguns, mesmo com a pandemia de COVID-19, não podem parar”, explicou ao O SÃO PAULO o médico Bruno Sobral, secretário-executivo da CNSaúde.

Sobral assegurou que os hospitais privados e clínicas de medicina diagnóstica estão preparados para receber os pacientes em alas separadas do atendimento de casos de COVID-19, o que diminui significativamente o risco de contágio pelo novo coronavírus.

Na capital paulista, por exemplo, o Hospital Santa Marcelina, que havia reduzido em quase 40% as consultas e demais atendimentos eletivos, tem voltado ao expediente normal.  

 “À medida que há a diminuição de casos de COVID-19 e a redução da mortalidade, temos liberado gradualmente as consultas eletivas. Estamos chamando as pessoas que já tinham consultas agendadas para o futuro, bem como cirurgias e outros procedimentos eletivos que tínhamos suspendido em um primeiro momento”, detalhou o cardiologista Jamil Cade, coordenador do serviço de hemodinâmica do Hospital Santa Marcelina.

Impacto das interrupções

Sobral destacou que a interrupção dos tratamentos representa riscos à saúde dos pacientes: “Na Oncologia, por exemplo, os medicamentos são pensados e desenvolvidos para serem usados em um determinado período de tempo; as hemodiálises também precisam ocorrer de maneira constante, e nos pacientes crônicos com diabetes ou hipertensão qualquer descompasso pode levar a uma internação”.

Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) e da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) mostrou que, entre março e maio, 70% das cirurgias de câncer no Brasil foram canceladas; e entre 50 mil e 90 mil brasileiros deixaram de receber o diagnóstico de câncer.

“O principal temor é que haja uma epidemia de casos avançados de câncer. Quanto mais agressiva for a doença no momento do diagnóstico, mais os casos são inoperáveis, dependem de abordagens mais agressivas e tóxicas e com menor chance de cura”, alertou o médico patologista Clóvis Klock, presidente do Conselho Consultivo da SBP.

Alerta na Psiquiatria

Da área da Psiquiatria vem o alerta sobre alguns dos impactos causados pelo prolongado tempo de isolamento social. Em maio, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) divulgou o resultado de uma pesquisa em que quase 48% dos psiquiatras informaram ter feito mais atendimentos desde o início da pandemia. Quase 68% desses médicos afirmaram ter novos pacientes, e mais de 69% relataram ter atendido pessoas que já haviam recebido alta médica. Por outro lado, entre os profissionais que perceberam queda no número de atendimentos, 44,6% do total, os motivos listados foram o medo dos pacientes em contrair a COVID-19 e as restrições de circulação impostas em algumas localidades.

“Essa pesquisa identificou dois cenários preocupantes como consequência de uma única possibilidade. O aumento dos atendimentos foi motivado, em sua maioria, pelo agravamento dos transtornos ou desenvolvimento de novas patologias psiquiátricas devido ao medo da COVID-19. Entretanto, a redução dos atendimentos àqueles que assim se identificaram também se deve ao medo da contaminação e às estratégias para evitar o contágio”, comentou Antônio Geraldo da Silva, médico psiquiatra e presidente da ABP.

Na rede pública

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(Crédito: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

No dia 1o deste mês, a Prefeitura de São Paulo retomou os atendimentos agendados para consultas presenciais de especialidades adulto e pediátrica, realização de exames e procedimentos ambulatoriais, que estavam suspensos desde março.Ospacientes com agendamento na época em que os atendimentos foram suspensos estão sendo informados por telefone sobre as novas datas de exames ou consultas.

No começo do mês, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou uma pesquisa na qual mostrou que os serviços de prevenção e tratamento de doenças não transmissíveis foram fortemente afetados desde o início da pandemia. Nos 155 países mapeados, constatou-se interrupção total ou parcial dos serviços de tratamento de hipertensão (53%), diabetes e complicações relacionadas (49%), tratamento de câncer (42%) e emergências cardiovasculares (31%).

“Muitas pessoas que fazem tratamento contra o câncer, doenças cardiovasculares e diabetes não têm recebido os serviços sanitários e os tratamentos de que necessitam, desde o começo da pandemia de COVID-19. É fundamental que os países encontrem formas inovadoras de garantir que os serviços essenciais contra as doenças não transmissíveis continuem, enquanto se luta contra a COVID-19”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

(Com informações da OMS, ABP e SBCO)

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