Países liderados por mulheres têm mais eficácia na gestão da pandemia

É o que aponta um estudo conduzido por pesquisadoras das Universidades de Liverpool e de Reading, no Reino Unido

Países liderados por mulheres têm mais eficácia na gestão da pandemia
Jacinda Arden, primeira-ministra da Nova Zelândia, país com os melhores indicadores de gestão da pandemia de COVID-19 (foto: Governo da Nova Zelândia)

Somente 6,3% de todos os líderes internacionais são mulheres. Elas compõem 24% dos parlamentos nacionais, de acordo com a revista britânica The Economist. “E se as mulheres governassem o mundo?”, questionava a renomada publicação em março de 2019. É impossível saber com certeza. Mas ao menos no combate à pandemia da COVID-19, há evidências de que países governados por mulheres se saíram melhor nos primeiros três meses de pandemia.

Isso leva a crer que uma contribuição maior das mulheres em cargos estratégicos ajuda a equilibrar espaços e decisões atualmente mais dominadas por homens. É o que sinaliza um estudo das pesquisadoras Supriya Garikipati, especialista em política econômica na Universidade de Liverpool, e Uma Kambhampati, economista na Universidade de Reading, ambas no Reino Unido.

Buscando uma explicação que não seja simplista, elas foram além da mera afirmação de que “mulheres se saíram melhor” e compararam as políticas de líderes homens e mulheres.

UMA VISÃO GERAL

Após analisar 194 países, as pesquisadoras afirmam, em resumo, que as mulheres se saíram melhor porque “suas políticas foram proativas e coordenadas”. Em análise exploratória – e portanto preliminar, que requer mais investigações – elas dizem que a comparação entre os gêneros é válida. “Mesmo considerando os contextos institucionais e outros controles, ser um país liderado por uma mulher garantiu uma vantagem na crise atual”, dizem.

O ponto essencial, segundo elas, é a diferença de comportamentos entre líderes homens e mulheres nesta crise. “O impacto pode ter sido maior nos contextos onde a atitude diante do risco e da empatia importou mais, assim como a comunicação”, acrescentam.

Como exemplos, citam o caso da primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, que falou diretamente com crianças, respondendo suas dúvidas. E da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, que teve uma grande vitória nas urnas por sua liderança na pandemia. Ela se comunicava com os cidadãos em transmissões no Facebook.

A chanceler alemã, Angela Merkel, também é frequentemente vista como líder eficaz. Austrália e Cingapura são outros dois países que tiveram sucesso com líderes femininas, enquanto Nigéria, Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, República Tcheca, Peru e México são todos governados por homens. Um ranking da agência Bloomberg sobre os países que estão se saindo melhor reitera essa comparação.

VALE INVESTIGAR MAIS

As autoras ponderam que pesquisas em estudos organizacionais no geral não encontram diferenças entre estilos de liderança masculinos e femininos. Também citam literatura da psicologia, que observa a reação a situações negativas, e de outras áreas das ciências sociais – almejando uma análise livre de estereótipos.

Estudos de laboratório e também na área de políticas públicas, dizem elas, encontram evidências de que, relevando variações de personalidade individual, homens tendem a liderar em estilo mais focado em tarefas e objetivos, enquanto mulheres veem os problemas de maneira mais “interpessoal”.

“Consistente com essas descobertas [de estudos anteriores], as mulheres tendem a adotar um estilo mais democrático e participativo e menos autocrático ou diretivo que os homens [durante a pandemia]”, diz o estudo das pesquisadoras britânicas, que se propõem a iluminar as discussões sobre as diferenças entre os gêneros.

CARACTERÍSTICAS PRÓPRIAS

Países liderados por mulheres têm mais eficácia na gestão da pandemia
Arquitetura externa do Congresso Nacional com iluminação especial no Dia Internacional da Mulher (foto: Câmara Notícias)

Em entrevista à The Economist republicada em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a ex-presidente da Libéria e primeira mulher a ser eleita como chefe de Estado na África, Ellen Johnson Sirleaf, falou sobre a liderança feminina na política.

“As mulheres trazem para a liderança uma sensibilidade especial”, disse. “É preciso mudar o estereótipo de que mulheres são fracas. Uma mulher que é capaz de negociar, abrir mão de certas coisas, encontrar alternativas, é um exemplo de força”, completa.

Segundo ela, a única forma de garantir que mais mulheres cheguem a cargos de liderança é reorganizando as instituições públicas. “Precisamos fazer com que as instituições sejam superiores ao indivíduo, para que o indivíduo não use suas escolhas para ditar a participação das mulheres. Uma mulher no topo pode ter mais força, mas precisamos de mulheres em todos os níveis, e subindo na carreira. É uma rota irreversível”, avalia.

‘CAPACIDADES PARTICULARES’, TAMBÉM NO VATICANO

Vem aumentando também a presença de mulheres em cargos de liderança no Vaticano, por meio de nomeações do Papa Francisco. O caderno especial “Donne Chiesa Mondo” do jornal L’Osservatore Romano entrevistou a especialista em diplomacia e relações multilaterais Francesca Di Giovanni, que trabalha na Secretaria de Estado e recentemente foi promovida a subsecretária, na edição de 8 de março, liderando um dos departamentos.

Falando sobre seu papel, de coordenar ações de diálogo entre as nações e a Santa Sé, ela observou que “não podemos generalizar” sobre como a mulher deve se comportar em ambientes públicos e no trabalho. O estilo pode variar sem invalidar a ação. “Ela pode ter determinadas atitudes para encontrar pontos comuns para cuidar das relações, por exemplo, para intuir percursos de diálogo, intuir onde pode intervir e buscar unidade com criatividade, ou também com certa insistência!”, comentou.

No mesmo caderno especial, a jornalista francesa Romilda Ferrauto, que também é consultora especial do Dicastério para a Comunicação, comenta o fato de que, por terem “capacidades particulares”, nas palavras do Papa Francisco, mais mulheres vêm sendo chamadas a dar sua contribuição. Entre essas, as seis mulheres leigas que são membros do Conselho para a Economia, desde agosto de 2020: Leslie Jane Ferrar, Marija Kolak, Eva Castillo Sanz, Charlotte Kreuter-Kirchhof, Maria Concepción Osákar Garaicoechea e Ruth Maria Kelly.

São mulheres que, como Maria nas bodas de Caná, demonstram “liberdade e lucidez” naquilo que fazem, escreve Romilda Ferrauto. E “a lucidez é aquela capacidade de ver claramente a realidade, à luz da verdade, não raciocinando por meio de emoções nem sob o jugo de percepções erradas”, afirma.

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