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Das parábolas às redes sociais: o que a pedagogia de Jesus ensina à comunicação pastoral?

Das parábolas às redes sociais: o que a pedagogia de Jesus ensina à comunicação pastoral? - Jornal O São Paulo
The Sermon on the Mount/ Carl Bloch, 1890 (Reprodução)

Sementes, moedas, redes, traba­lhadores, festas e pastores. Elementos simples do cotidiano foram utilizados por Jesus para anunciar uma realida­de muito maior: o Reino de Deus. Nas parábolas, o Mestre partia de situações conhecidas por seus ouvintes para conduzi-los a uma compreensão mais profunda da fé. Séculos depois, essa pedagogia continua oferecendo pistas para quem tem a missão de comuni­car o Evangelho, inclusive nas redes sociais.

Mais do que histórias utilizadas apenas para facilitar a compreensão de um ensinamento, as parábolas pos­suem uma dimensão de revelação. “A parábola é uma forma de ensinamen­to que utiliza uma realidade concreta, uma história ou uma situação conhe­cida pelos ouvintes para conduzi-los a uma realidade mais profunda”, explica Márcio Matos, professor de Teologia e Estudos Bíblicos no Centro Cristão de Estudos Judaicos. Segundo ele, Jesus utilizava elementos visíveis para reve­lar realidades invisíveis, falando sobre Deus, o ser humano, o pecado, a graça e o Reino.

Essa comunicação, entretanto, não entregava respostas prontas. Muitas vezes, o ouvinte precisava se reconhe­cer na narrativa e tomar uma posição. “Jesus não apenas transmite uma in­formação; Ele provoca uma transfor­mação interior”, afirma Márcio.

É justamente nessa dinâmica que aparece uma primeira inspiração para a comunicação pastoral: falar a partir da realidade das pessoas. Jesus conhe­cia o cotidiano daqueles a quem anun­ciava e utilizava referências que faziam parte de sua experiência.

Padre Lucas Gobbo, CR, Assessor Eclesiástico da Pascom da Região San­tana, comenta que essa proximidade continua sendo essencial para a Igreja: “Antes de pensarmos no que quere-mos dizer, precisamos pensar em quem está nos ouvindo”.

Para o Sacerdote, o comunicador pastoral precisa conhecer a comunida­de, suas alegrias, feridas, perguntas e desafios. Uma mensagem pode ter um conteúdo importante, mas não cum­prirá sua missão se for apresentada de uma forma pela qual o público não consiga compreendê-la.

FALAR A LINGUAGEM DAS PESSOAS

A lição não significa substituir o tema da fé por aquilo que agrada ao público. A comunicação de Jesus de­monstra que é possível utilizar uma linguagem acessível sem diminuir a profundidade da mensagem.

“Partir da realidade das pesso­as não significa adaptar a verdade ao gosto delas. Jesus parte do contexto humano para conduzir o homem a uma existência superior”, explica Már­cio Matos. Para ele, a Igreja precisa conhecer a linguagem e os ambientes nos quais o homem vive, sem transfor­mar o Evangelho em uma confirmação daquilo que ele já pensa.

Esse equilíbrio ganha ainda mais importância nas redes sociais, am­biente em que a Pascom disputa a atenção com uma quantidade enorme de informações. Para o Padre Lucas, estar nesses espaços é necessário, mas a presença digital da Igreja não pode se reduzir à busca por visualizações: “Temos poucos segundos para desper­tar a atenção de alguém, mas atenção não significa fazer qualquer coisa para conseguir visualização. A comunica­ção da Igreja precisa ter conteúdo, ver­dade e propósito”.

O desafio do agente da Pascom é, portanto, semelhante ao de quem contava uma parábola: encontrar uma porta de entrada para uma mensa­gem que precisa chegar ao coração do interlocutor.

SIMPLICIDADE NÃO É SUPERFICIALIDADE

Uma das grandes lições das parábo­las está na capacidade de Jesus de falar de coisas simples sem oferecer uma fé simplificada. “Uma criança pode com­preender a imagem do semeador, mas um teólogo pode passar a vida inteira meditando sobre aquilo que significa a semente da Palavra”, observou Márcio.

O professor de Teologia e Estudos Bíblicos recordou que o problema não está em facilitar a linguagem, mas em “simplificar a própria fé”. Assim, o co­municador pastoral precisa traduzir o modo de falar teológico sem retirar a densidade da mensagem.

Padre Lucas resume o desafio: “Ser simples não significa ser superficial”. Para ele, o comunicador precisa estu­dar, rezar, conhecer a Palavra de Deus e a doutrina da Igreja, mas também conhecer a realidade daqueles a quem deseja comunicar. “A simplicidade ver­dadeira nasce da profundidade. Quem conhece bem aquilo que anuncia não precisa complicar para demonstrar que sabe”, assegura.

DE CONTEÚDO PARA ENCONTRO

A inspiração das parábolas tam­bém pode ajudar a Pascom a repensar a finalidade de sua produção de conteúdo. Uma comunicação evan­gelizadora deve revelar às pessoas as histórias de fé que existem por trás da vida comunitária.

Para o Padre Lucas, isso começa pela escuta. “Jesus não apenas falava. Ele encontrava pessoas. Olhava, es­cutava, perguntava, entrava nas casas, caminhava com elas. Portanto, antes de pensar em produzir conteúdo, o comunicador pastoral precisa estar próximo da comunidade.” A partir dessa proximidade, surgem histórias de conversão, serviço, superação, so­frimento esperança e fé. “As pessoas se conectam porque histórias falam da vida”, afirma.

O objetivo, portanto, não é produ­zir apenas posts que gerem números, mas aqueles que possam criar cone­xões e encontros. “Nem sempre a pu­blicação mais importante será aquela que terá mais curtidas. Às vezes, uma pequena mensagem pode alcançar uma pessoa que estava sofrendo, uma família que precisava de esperança ou alguém que estava distante da Igreja”, ressalta Padre Lucas.

Se Jesus utilizava referências do cotidiano de sua época para falar do Reino de Deus, a Pascom de hoje pode utilizar fotografias, vídeos, podcasts e tantas outras linguagens para fazer o mesmo movimento. Para Márcio Ma­tos, essa missão pode ser resumida em três palavras: clareza, profundidade e fidelidade: “Não precisamos tornar a verdade menor para torná-la compre­ensível. Precisamos aprender a comu­nicá-la melhor.”

Mais do que perguntar “o que va­mos publicar hoje?”, o agente da Pas­com pode se perguntar: “Como po­demos contar essa história de modo que alguém consiga se reconhecer nela e, assim, encontrar uma porta para o Evangelho?”

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