Em um mundo cheio de estímulos e ansiedade de ver e ser visto, a espiritualidade inaciana apresenta caminhos para um processo criativo de autenticidade e essencialidade que humaniza e dá sentido ao trabalho do comunicador

A lógica das redes sociais frequentemente estimula comparação, imediatismo e validação constante. A pressa em produzir, editar e postar para sair na frente acaba eliminando a etapa mais importante da comunicação pastoral: discernimento e escuta.
A Espiritualidade Inaciana, inspirada nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (1491-1556), se conecta intrinsecamente com esse conceito, no qual o silêncio não é vazio, mas espaço para a primeira e mais importante escuta que leva à reflexão antes da ação, e mantém o foco no que realmente importa na esfera comunicacional.
“A Espiritualidade Inaciana ensina a ir em busca do essencial, colocando o foco no testemunho, algo que na comunicação pastoral deve ser mais importante do que simplesmente aparecer”, afirma o Padre Laércio Lima, sacerdote da Companhia de Jesus, diretor espiritual, escritor e evangelizador digital à frente de canal no YouTube (@PadreLaercioLimaSJ), que conta com mais de 30 mil seguidores.
Santo Inácio de Loyola dizia que “não é o muito saber que sacia e satisfaz, mas o sentir e saborear internamente as coisas”, uma recomendação sempre válida no dia a dia da Pascom, que deve priorizar esse momento de reflexão antes da produção, a fim de evitar que se criem conteúdos somente para manter as redes sociais atualizadas, mas sem se atentar às dores de uma comunidade e, assim, sem gerar essa conexão entre os membros daquela paróquia e, muitas vezes, nem com o próprio sagrado.
Em um cenário no qual há a tentação de se comunicar apenas para manter presença, alimentar números ou corresponder às expectativas das plataformas digitais, o silêncio se torna uma forma de resistência.
“O silêncio é uma forma de resistir a uma cultura do barulho, da aparência do descarte, da fake news, da busca de likes, da violência e da velocidade que transforma todas as pessoas em máquinas: a gente esquece os sentimentos, a dor do outro, o toque, o abraço. Por isso, o silêncio, mais do que um esvaziamento por esvaziar, preenche-nos, faz resgatar em nós a profundidade e nos leva em direção ao essencial”, destaca Padre Laércio.
O SILÊNCIO PREPARA O TERRENO PARA A ESCUTA

Nesse sentido, reaprender a silenciar também é um exercício de liberdade interior, desaceleração do ego e preparação para uma escuta mais ativa que, primeiramente, aprofunda o relacionamento com Deus, dando mais clareza de Sua vontade e de como o trabalho do comunicador vai ao encontro desse querer, por meio dos apelos e emoções que mostram para onde o Espírito se movimenta e molda as ações do agente da Pascom.
Segundo o Padre Laércio, diferentemente dos grandes conglomerados televisivos e veículos de influência, a comunicação católica deve apresentar o Evangelho, vivido cotidianamente por meio dos trabalhos de uma comunidade, e não há como comunicar o Evangelho sem um encontro profundo e amizade verdadeira com Jesus. Isso é algo que nasce do silêncio, da escuta da Palavra e do discernimento. “Eu serei verdadeiramente comunicador quando descobrir que o que eu tenho que comunicar é Jesus”, reforça.
O silêncio prepara o terreno para a escuta. Silenciar nunca se tratou de vazio, mas sempre de comunicação. Jesus ia até o monte em silêncio para se comunicar com o Pai e levar a mensagem repassada pelos apóstolos, que ecoa até hoje, e atualmente conta com ferramentas amplas para a divulgação. “É fundamental que a Pastoral de Comunicação tenha uma vida de oração, silêncio, escuta, para que, por meio do discernimento, haja uma comunicação prévia que será replicada. Assim, esse comunicador não se perde nessa enxurrada de estímulos, mas mantém o foco no objetivo, o qual é o Evangelho de Jesus Cristo”, finaliza.
CONECTADO À VERDADE DO EVANGELHO

A comunicação, antes de tudo, precisa ser sentida, saboreada internamente para se tornar palavra e conexão. Não deve surgir do vazio, mas sim do silêncio, para que, antes que o comunicador seja ouvido, exista primeiro a voz daquele que ele comunica. Ao reaprender a silenciar e a escutar primeiramente a Deus, o agente da Pascom estará mais preparado para produzir conteúdos que transmitam a verdade do Evangelho por meio do trabalho da sua comunidade e estará menos pressionado a seguir “modinhas” e transformar os meios de comunicação da sua paróquia em mais um perfil de rede social sem sentido e acolhimento.
Talvez o grande desafio do comunicador católico contemporâneo seja justamente este: aprender a permanecer conectado sem perder a interioridade, comunicar sem cair na superficialidade. Por isso, experimente incluir estes passos no processo de comunicação pastoral:
✓ Silenciar, rezar e refletir antes de postar;
✓ Ir além das trends e produzir conteúdo com propósito pastoral;
✓ Desenvolver um trabalho voltado às necessidades reais da paróquia;
✓ Praticar a escuta e observar a comunidade com atenção;
✓ Identificar quais formatos funcionam melhor para a sua comunidade: vídeo, foto, cartaz, palestra, entre outros. E lembre-se: a arquitetura do silêncio não é ausência de comunicação; ela é o começo. É o alicerce para uma base mais humana, consciente e espiritual. Somente quem aprende a escutar profundamente consegue anunciar com verdade.
*Nathalia Santos, agente da Pascom na Paróquia Santo Antônio de Lisboa, na Vila Ede, Região Santana.


