
Nunca foi tão fácil ter acesso a conteúdos sobre a fé. Missas, homilias, formações e explicações sobre a doutrina católica circulam diariamente pelas redes sociais. Paróquias e comunidades ampliaram sua presença no ambiente digital, enquanto padres, re-ligiosos e leigos encontraram novas formas de anunciar o Evangelho. Diante de tanto conteúdo, surge uma questão para quem assume a missão de comunicar a fé: transmitir uma informação é o mesmo que transmitir o Evangelho?
Informar faz parte da comunicação da Igreja. Divulgar o horário de uma celebração, explicar uma festa litúrgi-ca ou apresentar um ensinamento ajuda o fiel a conhecer aquilo em que crê. A evangelização, porém, busca favorecer o encontro com Jesus Cristo e fazer com que a mensagem tenha espaço na vida de quem a recebe.
HOMILIAS NO RITMO DO FEED
Essa diferença muda a maneira de pensar a comunicação. Um conteúdo pode estar correto do ponto de vista doutrinal, ter boa produção e alcançar muitas pessoas e, ainda assim, permanecer apenas no campo da informação.
Para evangelizar, é preciso considerar o que se comunica, por que se comunica e, sobretudo, quem está do outro lado da tela. Essa é uma reflexão que atravessa a missão do Padre Claudiano Avelino dos Santos, Superior Provincial dos Padres e Irmãos Paulinos, congregação religiosa que tem a comunicação como parte de seu carisma e que leva o Evangelho às redes sociais diariamente, nas chamadas “homilias de um minuto”.
Na experiência do Provincial, comunicar em pouco tempo não significa simplesmente reduzir uma reflexão maior. O trabalho começa antes, na identificação do núcleo da mensagem. Para preparar as homilias de um minuto publicadas diariamente nas redes sociais da Paulus Editora, o Sacerdote faz a leitura orante do Evangelho do dia, procura reconhecer a afirmação central daquele texto e pensa em como traduzi-la para a vida de quem vai ouvi-lo.
“A homilia não é um resumo do Evangelho, mas a comunicação de uma ideia que toca a vida de quem ouve”, explica o Padre. Para ele, o próprio Jesus já oferece essa referência ao apresentar amor a Deus e ao próximo como síntese da Lei e dos Profe-tas. A partir daí, o desafio está em chegar a uma aplicação concreta da Palavra, com clareza e sem dispersões.
EVANGELIZAR TAMBÉM É ENTRAR NA TREND
Nas redes, adaptar formatos e linguagens também faz parte desse trabalho, desde que a busca por alcance não determine a mensagem. Vídeos curtos, legendas diretas, memes e trends podem servir à evangelização quando ajudam a tornar o conteúdo mais claro.
“O algoritmo é o canal, não o mestre”, afirma Padre Claudiano. Curtidas, visualizações e compartilhamentos ajudam a dimensionar o alcance, mas não determinam se a finalidade foi cumprida. “O que se mede no curto prazo pode até ser o engajamento, mas o que se avalia, no fim, é a conversão, e essa escapa às estatísticas.”
Essa adaptação encontra respaldo na própria história da Igreja. O Padre recorda o Beato Tiago Alberione, fundador da Congregação dos Padres e Irmãos Paulinos e da Família Paulina, que incentivou o uso dos meios de comunicação disponíveis em sua época para anunciar a Palavra.
“A cultura digital é a cultura de hoje; ignorá-la seria recusar a missão que Padre Alberione abraçou”, afirma. O princípio também orienta o uso de linguagens atuais: “Se a trend torna a mensagem mais clara, é um recurso a ser aproveitado com inteligência; se ela causa divisão ou confusão, deve ser abandonada.”
Conhecer as ferramentas é parte do trabalho, mas isso precisa caminhar de mãos dadas com a formação e a vida de fé. Isso passa por estudar a Palavra e o magistério da Igreja sobre comunicação e por conhecer de perto a comunidade antes de produzir qualquer conteúdo – afinal, cada grupo tem seu jeito próprio de escutar e ser tocado. Passa, ainda, por entender a linguagem de cada plataforma: Instagram, WhatsApp e TikTok pedem abordagens diferentes, e repetir o mesmo conteúdo em todas as redes pode acabar limitando o diálogo com quem está do outro lado, ansioso por ser alcançado de verdade.
“A Pascom é pastoral, não agência de marketing: usa as técnicas, mas tem alma pastoral”, resume Padre Claudiano Avelino.
A missão da Pascom além das redes

Se nas redes sociais o desafio da Pascom passa pela escolha de linguagens e formatos, dentro da paróquia a comunicação também ajuda a aproximar pessoas e fortalecer a vida em comunidade. É a partir dessa experiência que o Padre Deivid Rodrigo dos Santos Tavares, SSP, Administrador Paroquial da Paróquia Santo Inácio de Loyola e São Paulo Apóstolo, na Região Sé, entende a comunicação pastoral. Para ele, comunicar deve favorecer a evangelização, a comunhão e a participação: “A Palavra precisa encontrar espaço concreto na vida das pessoas”.
Nesse cotidiano, a Pascom pode ir além dos avisos de horários, celebrações e atividades. A comunicação ajuda os fiéis a compreender por que celebram, o que vivem e como aquela experiência dialoga com sua vida. Por isso, Padre Deivid destaca a importância de “cultivar o dom da escuta”, bem como conhecer as pessoas, suas necessidades e sua linguagem para comunicar o Evangelho de forma próxima e compreensível: “A mensagem é sempre a mesma, mas a maneira de comunicá-la precisa dialogar com a vida e com as pessoas.”
Esse trabalho também pede proximidade entre a pastoral e quem constrói diariamente a vida paroquial. Padre Deivid defende o diálogo constante com sacerdotes, pastorais e movimentos, para que a comunicação acompanhe a ação pastoral e respeite a identidade de cada grupo.
Neste Mês da Bíblia, esse cuidado ganha um significado ainda mais concreto. Em vez de limitar a presença da Palavra nas redes a versículos isolados ou trechos de homilias, o desafio é oferecer contexto e ajudar o fiel a se aproximar das Escrituras. “A comunicação deve despertar nas pessoas o desejo de ler, compreender, rezar e viver a Palavra de Deus”, afirma. É nesse movimento que o trabalho dos “pasconeiros” deixa de se limitar ao registro do que acontece na comunidade e assume sua dimensão evangelizadora: ajudar aquilo que é anunciado a encontrar lugar na vida das pessoas.
Cada publicação, transmissão ou aviso, portanto, tem como meta comunicar a Palavra com fidelidade, clareza e atenção a quem a recebe. É nesse cuidado que a informação pode abrir espaço para algo maior: a compreensão, a participação e a vivência da fé no dia a dia.


