Abertas as comemorações do bicentenário da morte de Frei Galvão

O bicentenário foi aberto com uma missa presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, na Catedral da Sé, no domingo, 24

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Na segunda-feira, 25, foi celebrada a memória de Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, o Frade Franciscano que se tornou o primeiro santo brasileiro. Este ano, também começam as comemorações do bicentenário de sua morte.

As atividades que se seguirão até 23 de dezembro de 2022 envolverão a Arquidiocese de São Paulo, na qual Frei Galvão viveu boa parte de seu ministério e está sepultado, a Arquidiocese de Aparecida (SP), em cujo território está sua cidade natal, Guaratinguetá, e a Ordem dos Frades Menores, na qual o Santo brasileiro consagrou sua vida.

O bicentenário foi aberto com uma missa presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, na Catedral da Sé, no domingo, 24. “Queremos comemorar o bicentenário de sua morte e dele aprender novamente as lições que deixou, seus ensinamentos, exemplo e testemunho, que é muito atual”, afirmou Dom Odilo, durante a celebração.

Brasileiro

Entre os fiéis presentes na Catedral, estava o historiador, cineasta e produtor cultural Malcolm Forest, um dos articuladores das iniciativas do bicentenário. Devoto e pesquisador da vida de Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, ele produziu e dirigiu o filme documentário “Frei Galvão, o Arquiteto da Luz”, lançado em 2013, no qual também atuou como ator. Ele é, ainda, autor da canção “Meu Querido Frei Galvão”.

Para o cineasta, as comemorações do bicentenário de morte de Frei Galvão serão uma oportunidade de tornar o Santo mais conhecido pelos brasileiros, não apenas como alguém a quem os fiéis buscam a intercessão por graças e milagres, mas também como exemplo de um homem que viveu heroicamente as virtudes cristãs, trabalhou ardorosamente pela evangelização, foi uma grande testemunha da caridade e deixou um legado valioso para a Igreja no Brasil.

A programação do bicentenário, cujos detalhes serão divulgados em breve, prevê celebrações nos locais emblemáticos da vida de Frei Galvão, procissões, eventos culturais, lives, podcasts, um ciclo de palestras, homenagens cívicas e outras iniciativas.

Biografia

Nascido em Guaratinguetá (SP), em 1739, Frei Galvão cresceu em um ambiente profundamente religioso. Aos 13 anos, foi enviado para estudar no Seminário da Companhia de Jesus na cidade de Belém de Cachoeira (BA). Aos 21 anos, ingressou no noviciado da Ordem dos Frades Menores, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, fez a profissão solene dos votos religiosos, sendo ordenado sacerdote em 11 de julho de 1762.

Depois de ordenado, Frei Galvão foi enviado para o Convento de São Francisco, em São Paulo, para aperfeiçoar os estudos e praticar o apostolado. E foi no apostolado que o Franciscano começou a se destacar por suas virtudes e empenho pastoral, em um período em que a liberdade religiosa era muito ameaçada pela realeza.

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Arquiteto da Luz

Designado confessor do Recolhimento Santa Teresa, em 1770, o Franciscano conheceu a Irmã Helena Maria do Espírito Santo, religiosa de profunda oração e grande penitência, que afirmava ter visões pelas quais Jesus lhe pedia que fundasse um novo Recolhimento para mulheres viverem de maneira comunitária, dedicando-se à oração, sem, no entanto, professarem os votos religiosos, uma vez que o Marquês de Pombal não permitia a fundação de casas religiosas.

Em 2 de fevereiro de 1774, Frei Galvão fundou um Recolhimento, dedicando-o a Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência. Esse Recolhimento se tornou um mosteiro apenas em 1929, sendo incorporado à Ordem da Imaculada Conceição (Concepcionistas).

Durante 14 anos, o Franciscano se empenhou pessoalmente na ampliação das instalações do Recolhimento, cujas vocações não paravam de crescer. Por outros 14 anos, dedicou-se à construção da igreja, inaugurada em 1802.

Foi no Recolhimento da Luz que Frei Galvão passou os últimos anos de sua vida, depois de obter autorização de seus superiores, por não ter mais forças físicas para se deslocar diariamente para atender as religiosas. Ele passou a morar em um cômodo no fundo da igreja, atrás do sacrário, até sua morte, em 23 de dezembro de 1822.

Defensor da Imaculada

Como bom Franciscano, Frei Galvão era grande devoto de Nossa Senhora e propagador de sua Imaculada Conceição, que ainda não havia sido proclamada como dogma de fé, mas por séculos era difundida pelos frades.

Defensor da virgindade da Mãe de Jesus antes, durante e depois do parto, Frei Galvão difundiu essa convicção especialmente nas famosas pílulas confeccionadas e distribuídas pelas monjas do Mosteiro da Luz.

Certo dia, Frei Galvão foi procurado por um senhor aflito, porque sua mulher estava em trabalho de parto e em perigo de morte. O Frade escreveu em três papeizinhos o versículo do Ofício da Santíssima Virgem – Pos partum Virgo, Inviolata permansisti: Dei Genitrix intercede pro nobis (Depois do parto, ó Virgem, permaneceste intacta: Mãe de Deus, intercedei por nós) – e entregou ao homem. Após a esposa dele ingerir as pílulas, o parto ocorreu normalmente. Um jovem que sentia fortes dores provocadas por cálculos na vesícula também relatou ter sido curado após ingerir as pílulas.

Beatificação

Com a aprovação de Dom Duarte Leopoldo e Silva, primeiro Arcebispo de São Paulo, em 1938, foi aberto o processo de beatificação de Frei Galvão. Ao todo, o processo levou 50 anos para ser concluído e reuniu inúmeros documentos, depoimentos e milhares de relatos de graças alcançadas por sua intercessão.

Entre as testemunhas que depuseram no primeiro inquérito, de 1938, havia uma ex-escrava: Lucrécia Cananeia de Deus, já muito idosa, que conheceu o Frade em 1822.

Nesse depoimento, a idosa relatou suas recordações de quando, ainda criança, acompanhava a mãe e sua senhora às missas no Mosteiro da Luz. Ela lembrou que Frei Galvão tocava o sino da igreja e, depois, ficava na entrada para receber os fiéis. Segundo Lucrécia, ele era alto, risonho e seu carisma cativava as pessoas.

Milagre

Em 1991, o Cardeal Paulo Evaristo Arns, então Arcebispo de São Paulo, nomeou a Irmã Célia Cadorin (1927-2017) para retomar o processo. Ainda era necessário o reconhecimento de um milagre atribuído à intercessão de Frei Galvão para que fosse declarado bem-aventurado.

O milagre que determinou a beatificação de Frei Galvão aconteceu em 1990, na Vila Brasilândia, zona Noroeste de São Paulo, com a menina Daniela Cristina da Silva, que aos 4 anos de idade teve complicações broncopulmonares e crises convulsivas. Foi então internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, com diagnóstico de encefalopatia hepática por consequência da hepatite causada pelo vírus A, insuficiência hepática grave, insuficiência renal aguda, intoxicação por causa de metocloropramida e hipertensão. Esses sintomas a levaram a uma parada cardiorrespiratória e outras complicações graves.

Após 13 dias na UTI, os familiares, amigos, vizinhos e religiosas do Mosteiro da Luz rezaram e deram à menina as pílulas de Frei Galvão. Em 13 de junho de 1990, a menina Daniela deixou a UTI e, em 21 de junho, teve alta do hospital, considerada curada. O pediatra que a acompanhou atestou perante o Tribunal Eclesiástico: “Atribuo à intervenção divina não só a cura da doença, mas a recuperação total dela”.

Frei Galvão foi canonizado pelo Papa Bento XVI em 11 de maio de 2007, em uma missa celebrada no Campo de Marte, em São Paulo, durante a visita do Pontífice ao Brasil.

Luciney Martins/O SÃO PAULO

A canonização aconteceu após o reconhecimento de um segundo milagre atribuído à intercessão do Frade brasileiro. Tratava-se do caso de Sandra Grossi de Almeida e de seu filho, Enzo de Almeida Gallafassi, ocorrido em 1999, também em São Paulo.

Sandra já havia sofrido três abortos espontâneos, devido à malformação do seu útero, que tornara impossível evar a termo qualquer gravidez. Em maio de 1999, ela ficou novamente grávida e sabia dos riscos de ter uma hemorragia e morrer.

Apesar do prognóstico médico ser de provável interrupção da gravidez ou de que esta chegasse, no máximo, ao quinto mês, a gestação evoluiu normalmente até a 32ª semana.

O parto ocorreu sem complicações no dia 11 de dezembro de 1999. “A criança nasceu pesando 1.995g e medindo 42cm, mas apresentou problemas respiratórios com uma doença das membranas hialinas classificada de 4º grau, o mais grave. Foi entubada, porém, teve um quadro de evolução muito rápido, sendo extubada no dia 12, à tarde. Recebeu alta hospitalar no dia 19 de dezembro de 1999”, relatou Irmã Célia Cadorin, em um documento que compõe o processo de canonização.

Realizado o processo diocesano, os peritos médicos da Congregação para as Causas dos Santos aprovaram, por unanimidade, o fato como “cientificamente inexplicável no seu conjunto, segundo os atuais conhecimentos científicos”.

Testemunhas

Sandra e o filho participaram da celebração de canonização. Naquela ocasião, Enzo, então com 7 anos, fez sua primeira Comunhão nas mãos do Papa Bento XVI.

Na homilia dessa celebração, o Pontífice afirmou que a fama da sua imensa caridade não tinha limites. “Pessoas de toda a geografia nacional iam ver Frei Galvão, que a todos acolhia paternalmente. Eram pobres, doentes no corpo e no espírito que lhe imploravam ajuda… Queridos amigos e amigas, que belo exemplo a seguir nos deixou Frei Galvão!”, disse o Pontífice, definindo-o como uma “alma apaixonada”, cujo testemunho deveria despertar em todos aqueles que o conhecem desejos de fidelidade a Deus.

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