As inspiradoras vivências da Catequese Diferenciada

Na Arquidiocese do Rio de Janeiro existem grupos de Catequese Diferenciada em diversas paróquias; a atual coordenadora é Rosali Bastos
Fotos: Acervo da catequista Rosali Bastos

Após mais de dois anos de preparação, era chegado o grande dia. Igor (nome fictício), 14, acompanhado de seu cuidador, encaminha-se em direção ao altar. A catequista já havia mostrado a ele o passo a passo do que iria acontecer e o mais importante: de que naquele momento, receberia o amigo Jesus, de quem tanto ouvira falar.

“Ele tinha um comportamento muito agressivo, tanto que até ia com um cuidador aos encontros. No dia da primeira Comunhão, o padre olhou para a catequista e para ele e perguntou se podia dar a Comunhão. Este catequizando, então, olhou para o Cristo no altar, cruzou os braços na altura do peito e balançou a cabeça. Ele queria e sabia que estava recebendo Jesus”.

Histórias como essas são contadas de modo entusiasmado por Rosali Villa Real da Costa Bastos, 73, que desde 1993 dedica-se à Catequese para pessoas com deficiência, inicialmente chamada de Catequese Especial, e anos depois renomeada por ela para Catequese Diferenciada, com vistas a atender a todas as pessoas com deficiências, sejam cognitivas, sensoriais ou psíquicas.

Por 20 anos, Rosali trabalhou como professora no Instituto Helena Antipoff, o centro de referência em educação especial na cidade do Rio de Janeiro. Aos 15 meses de vida, seu filho, Nielsen, teve uma grave infecção, que resultou em uma significativa perda cognitiva e afetou seu desenvolvimento motor. Passados alguns anos, ela foi convidada a ser a catequista do próprio filho e de outras crianças com deficiência na Paróquia São Francisco de Paula, na Barra da Tijuca. Hoje, ela é a coordenadora arquidiocesana da Catequese Diferenciada.

TODO MUNDO JUNTO, MAS EM RITMO PRÓPRIO

Rosali recorda que as primeiras turmas de Catequese para as pessoas com deficiência intelectual ocorriam em grupos separados dos demais. Com o tempo, percebeu-se que seria possível que elas participassem com os outros catequizandos, desde que houvesse catequistas de apoio para explicar e exemplificar os conceitos.

“Hoje, a depender do número de catequizandos em uma turma, esta poderá ter de dois a cinco inclusos”, detalha. Nessas turmas, os encontros têm duração 50 minutos. “É sempre um encontro alegre, em um ambiente vibrante, no qual as crianças se abraçam e brincam”, conta Rosali, destacando que são utilizados recursos como cartazes explicativos, filmes, músicas e dramatização.

Pouco a pouco, os catequizandos também vão conhecendo a dinâmica pastoral da paróquia em que estão e aprendem as orações e outros aspectos da fé católica, como o sacramento da Reconciliação. “Nós mostramos para eles que a Confissão é como que um filtro, e que depois que a gente conversa com o padre o nosso coração fica limpo”, exemplifica.

Rosali destaca que a base da Catequese Diferenciada é fazer com que o catequizando veja Jesus como seu grande amigo, em todas as situações. “Eles têm paixão por Jesus, sabem do horário da missa, acompanham tudo respeitosamente”, assegura, recordando que a Catequese leva de dois anos e meio a três anos para ser concluída.

Enquanto as crianças estão nos encontros, as mães são convidadas a participar do “Clubinho de Mães”, no qual conversam entre si e leem textos sobre religião e ética. “Sabemos que cada uma dessas famílias já suportou tanta porta fechada, tanta gente mudando de banco na igreja quando chegam com o filho ou perguntando ‘o que é que ele tem?’. Elas também precisam de apoio”, afirma Rosali.

SUBSÍDIOS E A FORMAÇÃO DOS CATEQUISTAS

Na Arquidiocese do Rio de Janeiro, a formação para a Catequese Diferenciada acontece em um dia, com oito horas de duração, e pode incluir visitas a núcleos onde já ocorra.

“Nas visitas ou durante a formação, na parte da tarde, nós montamos um encontro para treinamento e daí surgem as dificuldades, e eventualmente se marca outro dia de formação para continuar daquele ponto em que ficou alguma dúvida”, detalha a catequista.

Nestas ocasiões, também são apresentados os principais livros para a Catequese Diferenciada, entre os quais “Psicopedagogia Catequética – Reflexões e vivências para uma Catequese Inclusiva – Vol. 5 – Pessoas com deficiência”, da Paulus Editora; “Eu encontro Jesus”, de Jean Vanier, fundador do Movimento Fé e Luz; “Eu caminho com Jesus”, das Edições Loyola; e “Deus, verdade e vida”, editado em 1976 pelo Padre José Marques, redentorista, que à época atuava no Rio de Janeiro e pediu autorização ao Padre Osvaldo Napoli para traduzir o conteúdo e as metodologias criadas por este sacerdote na Argentina com vistas à Iniciação à Vida Cristã das pessoas com deficiência cognitiva.

A IGREJA É PARA TODOS

Rosali avalia ser fundamental que os católicos tenham uma cultura de observação das múltiplas realidades de seu território paroquial, a fim de que possam acolher melhor as pessoas com deficiência intelectual.

“É importante que a comunidade procure saber quem são as pessoas das famílias e se todas vão à missa. Ainda temos muitas realidades cruéis, de famílias que têm vergonha de seus filhos, que não os levam à igreja, pois ao chegarem outros perguntam coisas demais ou mudam de banco. Temos, sim, que observar o outro, mas saber como falar. Não se trata de ir com curiosidade, mas de se aproximar com carinho”, ressalta, lembrando, ainda, que aqueles que já receberam os sacramentos podem ser convidados a participar das atividades paroquiais conforme os limites de sua condição.

Rosali está à disposição para difundir a Catequese Diferenciada. Seus contatos são: rosalicbastos@gmail.com e (21) 97199-1520 (WhatsApp).

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O QUE DIZ O DIRETÓRIO PARA A CATEQUESE?

Publicado em junho de 2020 pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização (atual Dicastério para a Evangelização), o mais recente Diretório para a Catequese trata, nos parágrafos 271 e 272, das peculiaridades da Catequese para pessoas com deficiência intelectual:

“As pessoas com deficiências intelectuais vivem a relação com Deus no imediatismo da sua intuição e é necessário e condigno acompanhá-las na vida de fé”;

“Que os catequistas procurem novos canais de comunicação e métodos mais adequados para favorecer o encontro delas com Jesus. Por isso, são úteis as dinâmicas e linguagens de tipo experiencial que impliquem os cinco sentidos e percursos narrativos capazes de envolver todos os sujeitos de maneira pessoal e significativa”;

“Em vista deste serviço, é bom que alguns catequistas recebam uma formação específica”;

“Os catequistas devem estar próximos também das famílias de pessoas com deficiência, acompanhando-as e favorecendo a sua plena inserção na comunidade. A abertura destas famílias à vida é um testemunho que merece grande respeito e admiração”;

“As pessoas com deficiência são chamadas à plenitude da vida sacramental, mesmo quando se trata de distúrbios graves. Os sacramentos são dons de Deus e a liturgia, ainda antes de ser compreendida racionalmente, pede para ser vivida: portanto, ninguém pode recusar os sacramentos às pessoas com deficiências”;

“As pessoas com deficiência podem realizar a dimensão elevada da fé que compreende a vida sacramental, a oração e o anúncio da Palavra. Efetivamente, elas não são apenas destinatárias de catequese, mas protagonistas de evangelização”.

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Jaqueline José de Mello
Jaqueline José de Mello
9 meses atrás

Rosalinda é uma pessoa fantástica, parabéns por chegar até aqui, vamos juntas a diante com esse carisma e carinho, todas as vezes que posso faço a formação e sempre aprendo algo novo.
Jaqueline Mello
Paróquia Cristo Ressuscitado em Padre Miguel

Luciene del castilho da silva
Luciene del castilho da silva
9 meses atrás

Participei do curso aqui na paróquia nossa senhora da Conceição em santa cruz rj,gostei muito pois como foi esclarecedor e também abriu um outro sentimento em meu coração sobre a inclusão, sobre a família e o acolhimento de toda a família

Barbara Fonte
Barbara Fonte
9 meses atrás

Rosali é um presente de Deus para a arquidiocese do Rio de Janeiro! Soube colocar seu conhecimento profissional a serviço do Reino e transformar dificuldade em bênção, não só para a sua, mas para tantas famílias em situações semelhantes. Deus continue abençoando sua vida e sua linda missão!

Armanda Alves
Armanda Alves
9 meses atrás

Rosali, muito obrigada por seu exemplo de vida ! É muito inspirador para mim ! 🙏❤️💞

Cleusa Maria Coura Pedro
Cleusa Maria Coura Pedro
9 meses atrás

Gostaria de saber quando e onde será a próxima formação. Sou catequista na Paróquia São Pedro Apóstolo em Pedra de Guaratiba.
Obrigada.