Assembleia da CNBB: ‘O povo de Deus sofre com a doença e a fome’

Episcopado brasileiro refletiu sobre a análise de conjuntura social elaborada por comissão de especialistas

Plenário virtual da Assembleia Geral da CNBB (reprodução da internet)

Um dos assuntos tratados na 58ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que acontece entre os dias 12 e 16, na modalidade on-line, é a Análise de Conjuntura social.

O texto foi oferecido aos bispos como uma leitura de especialistas das pontifícias universidades católicas do Brasil, organizados por um grupo de análise da CNBB para subsidiar o episcopado na leitura e compreensão da realidade brasileira.

A análise deste ano prioriza teve como título “O povo de Deus sofre com a doença e a fome”, destacando três temas: pandemia, economia e política brasileira.

Crise sanitária

“O mundo inteiro já passava por graves problemas quando explodiu a pandemia. Havia um aprofundamento da crise econômica e um aumento das tensões políticas em quase todos os cantos do planeta. O coronavírus foi um catalisador”, inicia o texto.

A análise acentuou que no momento, “todas as luzes de alerta estão ligadas em relação aos críticos indicadores de agravamento da pandemia no Brasil”,  cuja quantidade de óbitos é superior aos 330 mil, com uma média móvel diária, em abril, acima de 3 mil.

O fator que demonstra preocupação é a taxa de ocupação dos leitos hospitalares com pacientes de COVID-19 e a rapidez do agravamento da crise e do colapso do sistema de saúde.

“Devido a essa sobrecarga do sistema, os trabalhadores da saúde têm enfrentado uma carga excessiva de trabalho, que resulta em adoecimento. […]. Segundo a Fiocruz [Fundação Osvaldo Cruz], ‘Além das longas jornadas, do isolamento da família e amigos, do trabalho sob pressão e do medo de adoecer soma-se a preocupação com a falta de equipamentos de proteção individual (EPI) e de materiais críticos para a assistência, que geram forte impacto psicológico’”, enfatiza a análise.

Vacinas e distanciamento

O subsídio apresentado ao episcopado também ressalta as ações fundamentais indicadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por cientistas do mundo inteiro: “o uso das máscaras e a limpeza constante das mãos; o distanciamento social com lockdown nas situações mais graves; a vacinação em massa da população”.

“Os números atuais do contágio e o colapso da assistência aos doentes, devido à saturação do sistema hospitalar, indicam a necessidade de medidas fortes e urgentes no que toca à vacinação e ao distanciamento social”, afirma o texto.

Em relação às vacinas, o relatório sublinha que “não deveríamos ter chegado a essa situação, principalmente porque somos um dos poucos países no mundo que tem um sistema universal de saúde (o SUS) e possuímos uma larga experiência com desenvolvimento de vacinas e campanhas de vacinação em massa”. A análise acrescenta que, para diminuir o impacto dessa demora, os especialistas apontam a necessidade urgente de variar o portfolio de fornecedores de vacina.

“Quanto ao distanciamento social, observa-se que nunca foi feito de forma plena e organizada em todo o país. Tivemos estados e cidades que fizeram um bom planejamento. No entanto, quando não se tem uma ação nacional articulada, uma região que se descuida contagia a outra e a epidemia avança”, alerta o subsídio.

Crise econômica

A Análise de Conjuntura também aborda o que chama de “falso dilema” entre priorizar o combate à pandemia e o crescimento econômico.

“Hoje não é possível ter mais dúvidas de que a crise econômica e a crise sanitária estão fundamentalmente correlacionadas. Uma análise dos dados econômicos mundiais mostra que é impossível controlar a pandemia sem a manutenção dos investimentos públicos e fomento à economia, mantendo renda e condições de vida às famílias e pequenos negócios, condições essenciais à adesão das pessoas às práticas de isolamento social”, sublinha.

O texto aponta, ainda, que, na contramão dessa história, “a sociedade brasileira, que hoje convive com o colapso no sistema de saúde e com recordes de mortalidade por conta da pandemia, em breve poderá́ conviver, também, com o colapso no sistema econômico, pela adoção deliberada de medidas de austeridade (pró-cíclicas) em um contexto já́ de estagnação econômica”.

Taxa de câmbio e inflação

O relatório enfatiza que o Real foi a 6ª moeda que mais se desvalorizou no mundo em 2020, com relação ao dólar estadunidense. “E tudo indica que deve continuar entre as mais desvalorizadas nos próximos meses. Comparativamente às 30 moedas mais negociadas do mundo, no período, o Real foi a que mais se desvalorizou”, completa.

De igual modo, a análise destaca que a inflação no mês de fevereiro, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu a 5,2% em 12 meses. “A pressão inflacionária decorre principalmente da pressão do preço administrados, em especial dos combustíveis (devido à política de preços paritários aos preços de importação adotados pela Petrobras, antes mencionada); à alta dos preços de alimentos (em decorrência de erros de política agrícola e agrária voltadas para estimular o agronegócio de exportação), e à desvalorização cambial (causada principalmente pela especulação provocada pelo próprio Banco Central com a excessiva oferta de contratos de swap cambial, atividade considerada “tecnicamente especulativa”)”, explica.

Fonte: IBGE

Auxílio emergencial

A análise apresentada aos bispos também ressalta que as pesquisas da indústria e do comércio demonstram que o auxílio emergencial foi importante para reativar o comércio e vários serviços após a queda significativa de abril de 2020, auge anterior das políticas de distanciamento social no Brasil.

“Contudo, ainda que tenha sido relevante não foi suficiente para colaborar com uma trajetória consistente, refletido na queda da atividade varejista nos meses de dezembro de 2020 e janeiro de 2021 e uma queda resistente dos serviços, em especial os da cadeia do turismo e os serviços prestados às famílias”, observa.

No texto, reconhece-se que existem várias medidas em curso. “A questão é que as medidas em curto prazo determinarão, em grande medida, as de médio e longo prazo. Essas perspectivas poderão integrar-se para reconfigurar o modelo econômico até uma transformação produtiva com sustentabilidade e igualdade. A tendência, contudo, é que não”, pondera.

“No mercado de trabalho, a despeito da utilização do auxílio emergencial e seu impacto favorável para o aquecimento da economia, o desemprego bateu recordes ao final de 2020 na maioria dos estados brasileiros, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD)”, salienta a análise.

Fome

“Provavelmente, o indicador mais grave desta crise econômica decorrente da pandemia e da falta de gestão é a fome”, enfatiza o relatório, referindo-se às quase 117 milhões de pessoas sem acesso pleno e permanente a alimentos. “Além deles, há ainda 19,1 milhões de brasileiros que efetivamente passam fome, em um quadro de insegurança alimentar grave. Mais da metade da população está em situação de insegurança alimentar, seja leve, moderada ou grave (fome)”, complementa.

Evolução da prevalência de segurança alimentar e insegurança alimentar leve, moderada e grave nos domicílios particulares

A análise observa que, no primeiro trimestre de 2021, Além de uma série de notícias ruins, para além das mortes de mais de 300 mil brasileiros, “acumularam-se problemas no ambiente econômico e a perspectiva de crescimento econômico para este ano pode estar comprometida, apesar das expectativas iniciais positivas de alguns”.

Conclusões

“Independentemente dos posicionamentos políticos e das ideologias, os governos dos países que estão conseguindo proteger melhor as suas populações tiveram atitudes rápidas e preventivas, confiaram na ciência, buscaram unidade política nacional no enfrentamento à doença e se comunicaram com a população com transparência e coerência.

“A situação de catástrofe que estamos vivendo tem exigido a adoção de medidas rigorosas de controle e prevenção em relação à pandemia e seu alastramento. Os trabalhadores da linha de frente da saúde precisam ser apoiados, reforçados e protegidos porque vivem uma situação prolongada de esforço e pressão psicológica. O distanciamento social e o uso de máscaras precisam ser tomados como política nacional. E, para levar tudo isso adiante, necessitamos de um verdadeiro pacto nacional para unificar o país na superação da pandemia”, reitera o texto.

Recordando o Pacto pela Vida e Pelo Brasil, manifestação liderada pela CNBB, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Comissão Arns, Academia Brasileira de Ciências, Associação Brasileira de Imprensa e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a Análise de Conjuntura reforçam a necessidade de:

“Vacinas e vacinação com a maior velocidade possível; distanciamento social e, quando necessário, medidas mais duras de constrição; auxílio emergencial e medidas de proteção dos empregos, inclusive com iniciativas complementares de proteção da renda das famílias pelos Estados”.

Leia a íntegra da Análise de Conjuntura apresentada na 58ª Assembleia Geral da CNBB

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