Biomateriais: um desafogo para o presente, um redesenhar do futuro

Artista visual e farmacêutica bioquímica, Ângela Barbour tem se dedicado à pesquisa e produção de matérias-primas e soluções que não degradem o meio ambiente

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Da varanda do apartamento 92 do edifício Virginia, no número 197 da Rua Martins Fontes, é possível observar a dinâmica acelerada do centro da capital paulista em mais uma tarde de sol. O prédio, inaugurado em 1951, tem em suas estruturas as marcas do tempo. Na varanda, em meio às rachaduras do teto e das paredes e o piso desgastado, uma artista plástica montou uma exposição com janelas quebradas, pedaços de escombros, uma sapatilha de balé, um vestido de seda pura de sua juventude, uma rede de descanso, galhos secos e “entrelaçou” todo o cenário com dois itens que usa frequentemente: fios de seda e pedaços de polpa de papel.

“Eu produzi essa polpa a partir do processamento dos boletos que juntei durante a pandemia. Os boletos são a nossa timeline. Neles estão as nossas alegrias, tristezas, as doenças… Então, decidi transformá-los em polpa e pulverizar, como que jogando aqui nesta instalação, um pedacinho do que vivi e, também, ‘conversando’ com a Virginia [Virginia Matarazzo Ippolito, a primeira proprietária do edifício] e com todas as pessoas que aqui passam ao longo dos anos”, detalha Ângela Barbour.

Ângela, ao lado da filha, Andréa Barbour, que também é artista, participa de uma mostra no edifício Virginia, que será retrofitado, ou seja revitalizado em vez de demolido, pela incorporadora Somauma. A instalação “Na Varanda com Virgínia” pode ser vista até 29 de maio e foi parte da 12ª Semana de Design de São Paulo, em março, na qual Ângela também falou sobre biodesign e biomateriais, assuntos sobre os quais é uma das principais especialistas no Brasil.

Arquivo pessoal

REPENSANDO COMO AS COISAS SÃO FEITAS

Farmacêutica bioquímica e doutora em artes visuais e poéticas visuais, Ângela Barbour já foi a responsável pela galeria Marta Traba do Memorial da América Latina, onde montou o primeiro Fab Lab público e gratuito do Brasil – um espaço colaborativo de fabricação digital, que por meio de ferramentas controladas por computador e do uso de diferentes materiais permite viabilizar quase todo tipo de projeto. Foi ainda diretora-executiva do Porto Fab Lab, o primeiro laboratório de fabricação digital dedicado às artes.

Atualmente, é instrutora global do Fabricademy, um curso que prepara as pessoas para dirigir laboratórios de fabricação digital e orientar projetos. No Brasil, apenas o ateliê que ela criou, o Ellora Ateliê, é chancelado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e pela Fab Foundation para ministrar esse curso.

“No Fabricademy, trabalhamos como fazer as coisas de forma mais sustentável, por meio de uma intersecção entre a produção digital, os têxteis e a Biologia. Propõe-se uma linha nova de pensamento em relação à moda e aos tecidos, como, por exemplo, produzir uma roupa que seja zero waste, ou seja, sem desperdício de material. Quando se vai cortar o tecido de uma roupa, o seu design deve ser de tal modo que não sobre pano algum. Além disso, todo o processo é pensado em uma economia circular: produzir com zero waste, entregar o produto em uma embalagem reciclável, pensar as formas em que será enviado ao consumidor, e que este já saiba onde descartá-lo para que seja reaproveitado e não vire lixo”, detalha ao O SÃO PAULO.

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AS MUITAS POTENCIALIDADES DOS BIOMATERIAIS

Por meio do Fabricademy, Ângela Barbour estreitou laços com o mundo da moda. “Hoje, como artista, faço peças que são obras de arte e que são para vestir. Por exemplo: uma capa cortada a laser que vira uma renda, uma capa de seda com impressão feita em uma ecoprint. Utilizo plantas e flores que já saem como parte da estampa”, detalhou, comentando ainda que o tingimento dos tecidos é feito com extratos de plantas ou corantes extraídos de bactérias e algas. “Gasta-se bem menos água e não se polui o ambiente com as sobras dos corantes sintéticos”, prossegue.

“Os bioplásticos provêm de outras fontes naturais, como a gelatina, obtida no descarte de peças do boi, o ágar-ágar e o alginato, ambos das algas. Há ainda a mistura desses bioplásticos com outros materiais, são os chamados compostos: por exemplo, pode-se misturar cascas de ovo com o bioplástico feito de gelatina e ter um material superresistente, que serve até para fazer um vaso”, detalha.

Há também uma vasta gama de couros alternativos, feitos com restos da pele de grandes peixes; com soja fermentada; com polpas de sobras das frutas; com algas; com micélio (obtidos pela ramificação de fungos), que podem ser úteis também para produzir azulejos, tijolos e colunas de construção; e com couro de kombucha, produzido a partir da fermentação de uma bactéria com uma levedura, que resulta em uma película de celulose, que se assemelha ao couro animal após estar seca.

Embora produzir com biomateriais nem sempre seja uma opção barata, Ângela assegura que a viabilidade financeira dos projetos e produtos feitos com biomateriais é um dos pontos de atenção tanto do Fabricademy quanto de outro curso que ela ministra, chamado “Bioplásticos e o Futuro dos Materiais”.

“O mercado leva em conta algo que seja feito com biomaterial e que quando for descartado irá se degradar mais facilmente na natureza. A indústria também busca materiais alternativos que deem um salto de qualidade e que possam ser usados em lugar de outros não sustentáveis”, comenta.

INOVAÇÃO A SERVIÇO DO BEM COMUM

Em outubro de 2022, Ângela liderou um projeto vencedor de um concurso realizado na conferência internacional dos Fab Labs, em Bali, na Indonésia.

Os desafios eram auxiliar uma comunidade de plantadores de café e de cacau a encontrar um modo mais eficaz para separar os grãos conforme o tamanho e de remover de modo mais fácil as ervas daninhas das plantações, trabalho feito até então com uma máquina com foices de raspagem, movida a diesel.

A partir do recipiente das marmitas dos trabalhadores, foram criadas peneiras separadoras dos grãos; e com as sobras de cascas do cacau, misturadas a fibras de coco e alginato, foram confeccionados pequenos tapetes, que colocados em volta das plantas impediam a entrada de luz no entorno e, por consequência, o crescimento das ervas daninhas. Além disso, os saquinhos plásticos nos quais as mudas eram envoltas foram substituídos por outros feitos com a casquinha do grão de café. Ao serem plantados com a muda, se dissolvem, transformando-se em um fertilizante natural.

O grupo de 22 pessoas do qual Ângela era participante, junto com outras sete brasileiras, decidiu doar àquela comunidade todos os materiais desenvolvidos, bem como a premiação de 6 mil dólares. “Viemos embora com as mãos vazias, mas com o coração cheio”, recorda Ângela, que é católica e mãe de quatro filhos.

Na avaliação da artista visual, a utilização dos biomateriais já não é mais apenas uma alternativa, mas uma necessidade. “Não devemos terminar de destruir o planeta, mas, sim, começar a recuperá-lo. Como descartar menos plástico? Como fazer que estes plásticos sejam transformados em outros objetos e materiais? Quando usamos biomateriais e pensamos o biodesign, consideramos, na verdade, o bem-estar do ser humano, dos animais, de toda a natureza. Deixamos de poluir e, assim, redesenhamos o futuro”.

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Leila strauch
Leila strauch
1 mês atrás

Maravilha moro Itapoa sc e tenho muito interesse em conhecer melhor seus projetos Tenho uma comunidade carente na minha região e gostaria de poder ajudá-lo a produzir algo biomaterial