Capela centenária é restaurada e será reaberta na ‘Cidade Matarazzo’

Inaugurada no ano de 1922, na região da Avenida Paulista, Capela Santa Luzia compõe o conjunto de edifícios do antigo ‘Hospital Matarazzo’, desativado em 1993 (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Esquecida há mais de 20 anos e desconhecida pelas novas gerações de paulistanos, uma pequena igreja centenária, localizada a uma quadra da Avenida Paulista, reabrirá suas portas em novembro. Com ela, um dos símbolos do crescimento da cidade e da imigração italiana no Brasil no início do século XX será revitalizado para se tornar um novo marco arquitetônico e paisagístico da cidade de São Paulo.

Trata-se da Capela Santa Luzia, inaugurada em 1922, e que integra o complexo do antigo Hospital Umberto I, da Sociedade Italiana de Beneficência em São Paulo, popularmente conhecido como “Hospital Matarazzo”, na Bela Vista.

Datado de 1904, esse conjunto de edificações que abrange uma área de 27.419 m² funcionou até 1993, quando o hospital foi à falência. Abandonado e deteriorado, o complexo correu o risco de ser completamente demolido, após ser comprado pela Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ), em 1996, com a intenção de construir um shopping e um hotel no local.

Uma ação civil pública, porém, impediu a destruição desse patrimônio. O antigo hospital ganhou um novo destino quando foi adquirido pelo Grupo Allard em 2011, para se tornar a Cidade Matarazzo, que, como definiu seu idealizador, o empresário francês Alexandre Allard, trata-se de “uma arborizada ilha de cultura” no meio da metrópole.

Tombado em 1986 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), o complexo também abriga uma reserva remanescente de Mata Atlântica em pleno coração da cidade. Por isso, o projeto da Cidade

Matarazzo mescla a preservação de construções de arquitetura neoclássica italiana com design contemporâneo.

Técnica inédita no Brasil deixou a capela suspensa para a construção dos andares do subsolo (Acervo/Cidade Matarazzo)

Engenharia complexa

Para ser reaberto, o templo passou por um minucioso processo de restauro. Entre os edifícios tombados do complexo, a capela tinha o nível mais alto de restrições para reformas. Por isso, seu restauro exigiu o máximo de fidelidade às características originais. Antes disso, foi necessário um audacioso trabalho de engenharia para preservar a igreja centenária durante a construção dos oito andares de subsolo abaixo de sua fundação.

A capela ficou literalmente suspensa sobre o grande vão, que hoje dá espaço aos andares que abrigarão, entre as diversas atrações, um centro de eventos e um cinema. Esse trabalho inédito no Brasil envolveu alguns dos mais importantes profissionais do País.

O templo foi apoiado em oito pilares que atingem 60 metros de profundidade. Em seguida, iniciou-se a remoção controlada e manual do terreno original para a execução da nova estrutura. Posteriormente, a passagem das cargas da antiga base para a nova foi realizada por jateamento de água.

Restauro

Após o trabalho de engenharia, começou o restauro da capela – cujo projeto foi assinado pelo arquiteto Giovanni Batista Bianchi (1885-1942) –, a começar pela fachada neoclássica que imita o mármore, seguindo a técnica milenar Scagliola, muito usada na Itália na época da construção. O altar de mármore, provavelmente feito fora do Brasil, foi protegido e os detalhes da pintura foram igualmente recuperados. Também houve o restauro de várias imagens sacras que serão recolocadas em seus lugares originais, assim como bancos e demais objetos sacros.

Durante o trabalho de restauro, foram descobertos os afrescos originais sob as camadas de tinta de pinturas posteriores. Em vez de as partes danificadas serem refeitas, optou-se por preservar as marcas do tempo, para despertar no público a consciência sobre o valor histórico do templo. “As técnicas valorizam os aspectos históricos

do bem, deixando-o com uma aparência de antiguidade, mas garantindo as condições de uso”, explicou ao O SÃO PAULO o arquiteto Roberto Toffoli, um dos responsáveis pelo restauro.

Após consultar a planta original da igreja, descobriu-se que havia a previsão da instalação de uma rosácea no alto do coro, que nunca foi concluída. Então, os restauradores obtiveram autorização para incluir um elemento contemporâneo no projeto: um vitral concebido pelo artista Vik Muniz.

Pintura original da capela foi descoberta durante restauro (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

História

A capela foi construída por iniciativa de Dona Virginia Matarazzo, cunhada do industrial italiano Francisco Matarazzo, idealizador do complexo hospitalar em honra de Santa Luzia, de quem obteve a graça da cura de uma doença na visão que acometera um de seus filhos. “Onde o corpo enfermo recebe o tratamento fraternal, também a alma pede conforto de esperança e de resignação”, está escrito em uma placa fixada na parede do templo, em homenagem à idealizadora de sua construção.

A história do serviço religioso realizado no então “Hospital Matarazzo” é contada por diferentes documentos espalhados nas paróquias próximas e no Arquivo Metropolitano de São Paulo.

Há, ainda, algumas cartas e registros que estão no Arquivo da Província dos Padres Camilianos no Brasil, que assumiram a capelania do hospital em 1922. Segundo relatos descritos no livro “Reminiscências Históricas da Fundação Camiliana no Brasil”, naquele ano, o hospital contava com cem leitos e estava na iminência da construção de novos pavilhões, bem como de uma igreja.

Vida pastoral

No Arquivo da Província Camiliana, há várias correspondências entre os novos capelães que foram ao hospital e os responsáveis legais, inclusive com as assinaturas da Condessa Mariângela Matarazzo e de José Matarazzo, presidentes do hospital. Há também registros da quantidade de batizados, casamentos, confissões e missas realizados anualmente nas dependências do hospital.

Interior da Capela Santa Luzia (Acervo/Cidade Matarazzo)

No ano de 1952, por exemplo, aconteceram 8.525 confissões, 37.370 comunhões, 343 administrações da Unção dos Enfermos, 235 batismos, 51 casamentos e 460 missas.

Em entrevista concedida em 2017, época das obras de restauro, Alexandre Allard afirmou querer “ressacralizar” a Capela Santa Luzia, “para continuar acontecendo nela as funções religiosas como missas, casamentos e batizados”.

Comunidade

Para o empresário, não faria sentido transformar uma construção erguida para o culto em um espaço que não tivesse essa finalidade. “Gostaria que aqui houvesse uma comunidade”, afirmou o empresário na época, quando iniciaram os diálogos com a Arquidiocese para a retomada das atividades religiosas e pastorais na capela.

Ao ser perguntado sobre a valorização da cultura brasileira, Allard explicou que o projeto não se trata simplesmente de uma construção, mas de um espaço em que os visitantes poderão fazer uma viagem pela cultura brasileira, da qual a religião faz parte.

“Esta é, para mim, a visão de futuro para projetos urbanos, que não podem existir sem integrar a realidade da vida de cada lugar. No futuro, não haverá lugar sem conteúdo cultural. Em dez anos, qualquer pessoa poderá comprar tudo utilizando um simples telefone. As pessoas sairão de casa para viver uma experiência, não para comprar. A cultura é uma experiência. Gostaria que a religião católica fosse viva. Como a religião pode viver? É importante que haja uma paróquia, um pároco, pois, uma capela não vive sem organização. E, na capela, teremos 100, 200, 500 ou até mil pessoas por dia, que virão com um objetivo e se misturarão às outras pessoas que visi tam o lugar. Essa troca fará da ‘Cidade Matarazzo’ um lugar verdadeiro, fiel às suas raízes,” afirmou Allard.

Cardeal Odilo Scherer visita obras de restauro da Capela Santa Luzia, em 18 de junho (Acervo/Cidade Matarazzo)

Inauguração

A primeira fase da Cidade Matarazzo será marcada justamente com a reabertura da Capela Santa Luzia, com uma missa presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo.

Até o fim deste ano, o edifício que abrigava a antiga Maternidade Condessa Filomena Matarazzo será aberto ao público, com 46 quartos do Hotel Rosewood São Paulo, cuja inauguração oficial está prevista para março de 2022.

A primeira etapa do complexo conta ainda com duas novas construções. Uma delas, a Torre Mata Atlântica, idealizada pelo arquiteto Jean Nouvel, ganhador do Prêmio Pritzker. Essa edificação de 25 andares abrigará, em seus terraços, árvores com mais de 15 metros de altura.

Ao lado da capela, foi construído o Edifício Ayahuasca, que abrigará escritórios de empresas e instituições que promovem práticas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês).

Arquitetura e natureza

Segundo Allard, o principal objetivo do novo complexo é “reconectar o urbano com o verde”. Por isso, só na Torre Mata Atlântica, foi previsto o plantio de mais de 200 árvores. Cada árvore foi criteriosamente selecionada pela sua força e capacidade de resistência às torções e ao efeito do vento; e o solo onde serão colocadas, recriado de maneira a garantir a sua elasticidade natural. Entre as espécies que já foram plantadas estão a aroeira-salsa, ipê-roxo e aldrago, entre outras.

Para compor o conjunto dos prédios restaurados, também foram plantadas árvores que fazem referência às raízes neoclássicas europeias, como oliveiras centenárias e ciprestes.

A segunda etapa do projeto está prevista para ser entregue até abril de 2023. Nos prédios onde funcionou o Hospital Humberto I, haverá áreas de cultura, moda, alimentação, bem-estar, em meio a 10 mil árvores nativas, que farão com que o local seja considerado o maior parque privado da cidade.

Maquete da primeira etapa da Cidade Matarazzo, cuja inauguração é prevista para dezembro (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Comentários

  1. Muito importante para a cidade de São Paulo preservar a sua história e sua religiosidade. Parabéns pelo trabalho que estão fazendo!

  2. TENHO O IMENSO ORGULHO DE ESTAR TRABALHANDO E PARTICIPANDO DA RESTAURAÇÃO DA CIDADE MATARAZZO MUITO GRATO MESMO .

  3. Que iniciativa e ideia maravilhosa! Está restauração da capela e todo o conjunto são presentes de amor à nossa população, principalmente aos descendentes de italianos que aqui vivem.

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