Há um gesto que se repete no Brasil sem que ninguém o decrete. Entra-se em uma padaria, em uma farmácia e em um escritório, e ali está ela: Nossa Senhora, entre o calendário e o caixa, discreta como quem nunca saiu. Ninguém a exige. Ninguém a explica. É a piedade que se instala onde a vida acontece, sem pedir licença à teologia.
O industrial italiano Michele Ferrero, que fez de uma confeitaria de Alba o maior grupo de chocolates da Europa, entendeu isso antes que a teoria viesse explicar o que a piedade já sabia. Subia todos os anos a Lourdes – e não ia só: levava os altos diretores. Mandou pôr imagens de Nossa Senhora em cada fábrica do grupo. Quando lhe perguntaram, nos 50 anos da empresa, o segredo do êxito, respondeu sem hesitar: “O êxito da Ferrero devemo-lo à Virgem de Lourdes. Sem ela, podemos pouco.” O nome do bombom – Rocher, rocha em francês – é a assinatura que deixou em cada embrulho dourado. Entre o que rezava e o que fazia, nenhuma fronteira.
O reflexo moderno é arquivar isso como excentricidade – a piedade inofensiva de um industrial rico. Seria cômodo – e falso. O que ali se via era uma tese: não há vida dupla. A fé em um compartimento, o ofício em outro – essa divisão que tomamos por natural é, em rigor, uma deformação. São Josemaría Escrivá dizia sem rodeios: “Não pode haver uma vida dupla, não podemos ser como esquizofrênicos, se queremos ser cristãos.” Há uma única vida – e é ela, por inteiro, que precisa ser santa.
A ideia é simples a ponto de parecer ingênua – e é sempre assim com as que duram. O mundo não é obstáculo entre nós e Deus, nem a antessala que se atravessa à espera do domingo. É o lugar onde a santidade se decide. Como dizia Escrivá: “Deus nos espera cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo.” A vocação cristã consiste em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia.
Daí a pergunta que não poupa ninguém: este trabalho que faço agora, com que intenção o faço? Pela conta do mês, pela vaidade do reconhecimento, pelo medo de parar – ou por algo que o ultrapassa e o resgata? No mesmo gesto banal, o ofício pode tornar-se altar ou espelho: oferta de quem se entrega ou reflexo de quem apenas se serve. Ferrero, ao que tudo indica, escolheu o altar. E não fez disso sermão: fez bombons.
A Igreja não deixou essa intuição sem nome. Entre os carismas com que o Espírito Santo serve a Igreja, houve este: recordar que o trabalho de cada dia também é matéria de santidade. Foi isso que São Josemaría explicou com nitidez. Por isso, a Igreja celebra a sua festa em 26 de junho. São João Paulo II chamou-o de santo do cotidiano. No livro Caminho, deixou a frase que dá nome a estas linhas: “Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil. Deixa rastro.” Ferrero compreendeu isso à sua maneira – e assinou cada embrulho com uma rocha. A imagem de Nossa Senhora entre o calendário e o caixa não está ali para propaganda. Está para lembrar que Deus também entra no trabalho – e que o que fazemos acaba sempre por revelar quem somos. Resta saber se, ao fim do dia, aquilo que fizemos sob o olhar da Virgem pode ser posto no altar – ou se, ali deposto, deporia contra nós.




