Promovida pela Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo, a tradicional iniciativa teve como inspiração o tema da Campanha da Fraternidade de 2026

Francisco tem, há 15 anos, as ruas do centro da cidade de São Paulo como morada. Como ele, ao menos 31,8 mil pessoas vivem nesta situação na capital paulista, segundo dados do Censo da População em Situação de Rua de 2021.
Na sexta-feira, 27 de março, Francisco decidiu caminhar ao lado de Jesus, representado na figura de uma criança, e manifestou ter sentido um renovar em sua esperança de deixar essa condição.
O homem em situação de rua foi um dos participantes da Via-Sacra da Criança e do Adolescente, promovida pela Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo. A iniciativa percorreu as vias da região central para anunciar o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, além de chamar a atenção para a urgência de garantir moradia digna, à luz da Campanha da Fraternidade de 2026.
PROTAGONISTAS

A Via-Sacra teve início em 1985, na Região Belém, por iniciativa de Dom Luciano Mendes de Almeida, então Bispo Auxiliar de São Paulo, em conjunto com lideranças da Pastoral do Menor. Desde então, a atividade é realizada sempre na sexta-feira que antecede a Semana Santa.
Segundo Sueli Camargo, coordenadora da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo, trata-se de uma oportunidade de evangelização para os participantes, pois estes revivem a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo como protagonistas de cada estação, anunciam o Cristo Ressuscitado, denunciam violações de direitos e são formados à luz da realidade atual.
“Há mais de 40 anos, crianças e adolescentes da Pastoral do Menor percorrem as principais ruas do centro desta megalópole. Tornam-se visíveis, rompem com a invisibilidade social em que vivem e reivindicam do poder público o acesso a direitos fundamentais”, ressaltou a coordenadora.
Sueli explicou, ainda, que a Via-Sacra é organizada de maneira lúdica para favorecer a compreensão das crianças. Dessa forma, as estações são pensadas a partir da metodologia ver-julgar-agir-propor.
Neste ano, com o tema da moradia, as cinco estações refletiram sobre o fato de Jesus não ter tido um teto ao nascer e a respeito da realidade de tantas “Marias” dos dias de hoje; a situação das crianças em vulnerabilidade e o papel da mulher; o número de famílias sem casa própria ou vivendo em condições precárias; além das grandes tragédias que atingem moradias frágeis e, muitas vezes, resultam em mortes.
Contudo, conforme recordado pela coordenadora, ao final da caminhada, a esperança se renova na celebração da Ressurreição, com a certeza de que toda pessoa tem direito a um lugar digno para viver. “A moradia se apresenta, assim, como uma questão de fraternidade e de justiça social”, completou.
A CRUZ DA FALTA DE MORADIA

Durante a abertura do ato, o Cardeal Odilo Pedro Scherer destacou a presença expressiva de organizações atendidas pela Pastoral do Menor.
O Arcebispo Metropolitano também refletiu sobre a problemática da falta de moradia, não apenas na cidade de São Paulo, mas em todo o País, descrevendo-a como “falta de fraternidade, de justiça e de solidariedade”.
“Hoje, estamos nesta via-sacra para lembrar que Jesus caminhou carregando a pesada cruz da humanidade, não Dele, mas de todos nós. E essa cruz ainda hoje pesa sobre os ombros de muitas pessoas. Queremos ajudar e, também, clamar para que a realidade da falta de moradia não continue assim, pois é preciso aliviar esse peso que recai sobre tantos”, expressou o Arcebispo.
CHAMADOS A CAMINHAR

Aos 14 anos, Lucas Gustavo dos Santos Monteiro participou pela primeira vez da Via-Sacra da Criança e do Adolescente, já com a responsabilidade de interpretar Jesus a caminho do Calvário pelas ruas da cidade.
Ele contou à reportagem que reconhece a importância deste momento para tantas crianças e adolescentes e que encenar as quedas de Jesus ao longo do percurso foi o ponto mais desafiador da experiência.
Para Heloísa dos Santos, 13, a reflexão sobre o tema da moradia começou ainda antes da caminhada. Integrante do CCA São Francisco e Santo André, na zona Leste, a adolescente relatou que, a partir da via-sacra, passou a compreender que a moradia digna é um direito de todos.
ELE VEIO MORAR ENTRE NÓS

De acordo com o Padre Douglas da Silva Gonzaga, Assistente Eclesiástico da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo, a realização de mais uma edição da Via-Sacra da Criança e do Adolescente representa um momento de reflexão para o chamado da Igreja no Brasil de meditar sobre realidades que impactam a sociedade.
Ao comentar o tema da Campanha da Fraternidade deste ano, “Fraternidade e Moradia”, Padre Douglas chamou a atenção para a realidade das periferias, de onde veio grande parte dos participantes, marcada pela precariedade habitacional, bem como a situação das pessoas em situação de rua no centro. Para ele, a presença da Igreja nesses espaços é também uma forma de denúncia das injustiças e de cobrança às autoridades por políticas públicas efetivas.
“A Igreja participa dos sofrimentos do povo porque também sofre com ele. Por isso, cobramos das autoridades responsáveis que cumpram seu dever para com aqueles que mais necessitam de ajuda. Como nos recorda o lema da Campanha da Fraternidade, Cristo veio morar entre nós. Ele permanece em nosso meio, não é alheio às nossas dores, e o Ressuscitado vem ao nosso encontro, ajudando-nos a enfrentar os desafios de cada dia e a superar cada um deles”, concluiu.





